SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 14:07

A Crise Actual: mudança de paradigmas

Fomos criados no século XX, marcado pelas 2 Grandes Guerras, a formação de blocos político-militares, as independências coloniais, a emergência de povos e nações, a explosão demográfica, a crise da família, o despertar das tecnologias de informação e comunicação e o surgimento de um cultura universal fragmentada, a desmaterialização dos conhecimentos, dos relacionamentos e dos bens.

Mas neste arranque do séc. XXI, a globalização acelerou ainda mais estas transformações. A fórmula usada na educação de gerações para enfrentar e dar resposta aos desafios humanos, parece agora não funcionar, para indivíduos, organizações e países. Se por um lado o indivíduo se tornou mais autónomo, por outro tornou-se mais um ser em relação; se por outro lado as organizações passaram a ser transnacionais, por outro a consciência colectiva passou a ser mais frágil, forçada por redes sociais que interferem em todo o tipo de organizações e na vida individual; Por fim, mesmo aqueles países europeus mais extensos e poderosos (pela sua história, cultura, geografia, economia, etc), parecem ser demasiado pequenos para entrar no jogo global.

Apenas a Finança, uma ferramenta para servir todo este conjunto universal, parece indomável e inacessível, governando apenas em benefício de uns poucos mal conhecidos, que parecem conduzir a seu belo-prazer os destinos do mundo, seguindo um rumo de decadência inexorável, com efeitos devastadores na distribuição da riqueza, no acesso ao conhecimento e desenvolvimento.

Lembro-me sempre da diferença entre uma floresta selvagem, que no seu crescimento natural permite a abundância a um número limitado de espécies e de um pomar, cuja acção humana dominou e dirigiu para fazer frutificar e aumentar a produção em benefício de muitos mais. Será esta a diferença entre o liberalismo económico desenfreado e a economia humana: o primeiro, como numa floresta, consome todos os recursos e sacrifica uma grande quantidade de pessoas em favor apenas dos mais capazes; a segunda, reconhecendo o Homem como um ser ecológico, a partir de bens escassos, projecta para o conhecer, dominar e desenvolver a favor do maior número.

As linhas de força e de suporte das sociedades vêm sendo sacrificadas, ou esquecidas, porque se partiu do princípio que os governos, e a liberdade individual permitirão alcançar uma qualidade de vida superior, que dispensa o papel fundamental das famílias como células estaminais da sociedade: só elas podem conter toda a primeira informação estruturante do indivíduo como ser social: nos seus afectos, na sua percepção do bem e do mal, da sua história, da sua herança do futuro que se projecta com os seus genes, da sua sabedoria e ciência, da capacidade de se regenerar, da aceitação do Outro em relação com o Eu e o Nós. E é tudo isto que se vandalizou, estando hoje o tecido familiar gravemente danificado.

Assistimos e participamos activamente num momento da História que não entendemos. O problema da Grécia, que gastou o que não produzia; o problema de Portugal, que foi ajudado anos a fio sem aproveitar a boleia para colocar as suas raízes económicas e produtivas bem alicerçadas; o problema das sociedades do centro da Europa, cujo rejuvesnescimento resultante da 2 GM fez esquecer dificuldades e erros passados e também a sua posição relativa no concerto das nações a nível mundial; o anacronismo demográfico, com o mundo dividido num hemisfério sobrepovoado e num outro a norte que definha; a ausência de carismas e de espiritualidades inspiradoras e mobilizadoras ao bem comum.

A Europa não pode mais funcionar com políticas e interesses dispersos. Só terá espaço de sobrevivência na medida em que a partir das raízes comuns se unir cada vez mais: na sua governação política, económica, cultural e de defesa. Apenas terá valor e força no concerto de um mundo global constituído por blocos muito fortes, se souber – em paz – caminhar rapidamente e inequivocamente, para a sua coesão e integração.

Estamos perante um grande desafio, como os nossos antepassados estavam na aurora da Revolução Francesa e de outros grandes momentos da História humana: podemos ser meros assistente passivos à espera que o destino nos leve na engrenagem, ou compreendemos a beleza de estar cá e da grande oportunidades de sermos protagonista no esforço de conduzir o mundo a um desenvolvimento mais harmoniosos e feliz para todos. Parece que até agora a fraternidade ficou esquecida mas é essencial, para que haja liberdade e igualdade de oportunidades.

A escolha é livre e está ao alcance de cada um.

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