SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 13:56

Ser cidadão em democracia

Na caminhada da história dos homens e da sua integração em países, puderam experimentar-se vários sistemas de governação, como o poder absoluto do faraó, o sistema monárquico, a autoridade carismática de um filósofo, o poder económico de um líder, o poder assente na autoridade religiosa ou na força militar.

Mas de entre todos os sistemas emergiu a democracia – com raízes na Grécia antiga e desenvolvida no séc. XVII em Inglaterra por John Locke e em França no séc. XVIII por Montesquieu – que implica a participação esclarecida de todos os cidadãos na tomada de decisões sobre o destino da comunidade. Este sistema de governação alastrou-se a muitos países e organizações, sobretudo a partir do séc. XX, sendo hoje uma forma generalizada de actuação política a nível mundial. Com este modelo, cada comunidade, cada pessoa individualmente, escolhe em liberdade os seus representantes e as decisões que estes devem tomar na gestão do interesse de todos, formando governos e outros órgãos deliberativos.

Para dar enquadramento a ideias diferenciadas, formaram-se grupos de interesses para terem mais força na influência dos decisores e na própria partilha de poder. Assim surgiram os grupos de pressão (ou lobbies) que são mecanismos informais para fazer valer ideias e interesses. E finalmente nasceram partidos políticos que assumem um conjunto de posições ideológicas e de vontade política para formar governo em cada país de maneira mais transparente e formal. As pessoas fazem-se eleger a partir dos partidos, podendo agir e materializar as suas ideias e propostas de acção governativa. Temos assim um modelo de alternância democrática que prevê a possibilidade de os eleitores a cada momento poderem acompanhar, criticar e avaliar a actuação destes representantes, através de eleições, podendo premiar ou punir os partidos com a continuidade ou troca por novas propostas.

Sobretudo no sistema de governo dos países, este modelo impôs-se de forma tão generalizada e permanente, que muitas pessoas passaram a viver grande parte da sua vida adulta entregues a esta actividade como profissão, dado o poder manifesto, autoridade de que se reveste, o prestígio que muitas vezes contém e os dividendos económicos que se conseguem a partir do conhecimento a ela associado. É por isso que também se diz que o poder corrompe, ou que os políticos se “agarram” aos cargos que conquistaram, de modo a perpetuar os benefícios ganhos, passando a desvalorizar o interesse dos eleitores representados, esquecendo a ética e os conceitos morais, abafados pelo carreirismo, a intriga e a mentira. Então os eleitores sentem-se enganados e desiludidos, remetendo-se a um protesto que passa pela chacota em relação à classe política, crítica destrutiva, ou o que é pior, alheamento ou abstenção, querendo dizer: “não percebo e não me interessa o vosso trabalho porque não está ao nosso serviço!” Mas que acaba por ser negativa para todos, por reduzir a legitimidade de quem governa, tornando mais fraca a possibilidade de melhor governo. Imagine-se que por estes dias o bastonário da ordem dos advogados de Portugal propôs que se fizesse uma greve às eleições…

Este pessimismo que domina o país e que tem sido promovido pela própria comunicação social, só interessa a alguém que não aparece na linha de água, porque é um mecanismo de imobilização de ideias e vontades e acaba por servir só os interesses instalados, impedindo o desenvolvimento e a modernização, a bem de todos.

Como diz Chiara Lubich, “ o poder confere a força, mas é o amor que dá a autoridade”, e este amor às pessoas e ao país tem estado ausente da actuação política na esfera de governo.

O acto eleitoral que se aproxima, acontece no momento de uma crise grave e profunda, daquelas que a história de Portugal com 850 anos apenas relata uma dúzia de vezes. Cada pessoa, cada cidadão eleitor, certamente tem consciência disto e sabe que antes dos partidos estão as ideias e as pessoas. Em minha opinião, é de prever que nas próximas eleições haja uma deslocação maciça de votos em todo o espectro político-partidário, de modo a conseguir-se uma solução de governo de base eleitoral alargada, que permita finalmente um rumo para o país e para a qualidade de vida de todos, começando por recuperar a legitimidade governativa, depois o sistema de justiça, o modelo económico, o sistema de educação, o sistema de saúde e de defesa, mas também o modelo de gestão administrativa do território e das pessoas.

Portugal tem uma história gloriosa como poucos países e é em momentos de crise que se conseguem purificar hábitos instalados e se preparam as pessoas para a mudança, podendo traçar novos rumos e agarrar novas oportunidades, fundando um modelo de governação com verdade, que inclua todos os cidadãos e traga prosperidade e saúde económica ao país.

Neste contexto, votar maciçamente é vital, para que fique claro o poder que os cidadãos deste país têm e o rumo que sabiamente pretendem dar à gestão da coisa pública.

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