SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 13:09

História Atribulada de uma Abóbora

 

Tinha comprado uma abóbora grande, de modo a poder usá-la em cozinha, mais tarde. Era um belo fruto, com cerca de 10 kg, que trouxe para casa, esperando oportunidade para a preparar, cortar e guardar.

 

Mas o tempo e as condições em que a guardei, foram fatais: um dia quando me apercebi já estava toda estragada, com líquidos de decomposição e cheiro pestilento. Restava-me desfazer-me daquele lixo quanto antes. Mas tendo quintal, com um canto onde faço compostagem artesanal, decidi que poderia ali depositar aqueles resíduos, o que fiz com agrado: peguei na abóbora levei-a até ao local e como vingança suprema, elevei bem alto os braços, lançando-a até que se estatelou no chão em pedaços laranja, com o molho que escorria e as pevides espalhadas pela terra. Pronto, pensei: não serviu para nada, mas nem todos têm a sorte de poder atirar abóboras e vê-las explodir num mar de cor, mesmo à frente. Talvez os pássaros possam aproveitar as sementes…

 

Passou o Inverno, com as chuvas e as intempéries, e certo dia pela manhã, percebi que afinal aquelas sementes estavam vivas e germinaram como cogumelos. Ainda assim, não dei valor aquele acontecimento da natureza, pois não estava nos meus planos de produção agrária a produção de abóboras em 2010. No entanto, contra todas as expectativas e planeamentos, algumas das plantas conseguiram encontrar terra fértil, segura e com humidade, vindo a ganhar exuberância e frescura enquanto cresciam. E por alturas de Junho intrigado com a saga daquelas plantas, atento, encontrei entre a folhagem uma bela abóbora: muito verde, robusta, com um potencial de crescimento que me deixou surpreendido. Logo chamei o resto da família para fazermos festa e apreciarmos aquela surpresa da horta. E daí em diante, “adoptámos” aquela aboboreira e os seus frutos, com visitas diárias, regas e limpeza de ervas daninhas.

 

Mas um dia, um inofensivo caracol, dos muito que por ali há, resolveu, também ele inspeccionar o fruto, e passeou por cima da abóbora, deixando o seu rasto viscoso de baba, como se tivesse traçado em partes cada dos seus gomos. Não ligámos, mas alguns dias depois eram já nítidas as sequelas presentes na casca verde, que pouco a pouco lhe provocaram rasgos e cortes, aos quais a planta respondia libertando uma seiva viscosa, como cera líquida para suturar as feridas. Assisto diariamente ao crescimento atribulado daquela abóbora, que enquanto se esforça e trata… cresce, ganha dimensão e cor.

 

Não sei se conseguirá resistir mais tempo, por me parecer que a todo o momento a vida que contém não é compatível com o meio envolvente, tão cheio de riscos e imprevisto. Pode ser contaminada com alguma bactéria ou parasita que se aproveitará irremediavelmente das suas sequelas e da energia que ela contém. Mas apetece-me guardá-la bem, para mais tarde poder colher aquele fruto e apreciar o sabor tão bem guardado da sua polpa. Garanto que uma abóbora destas merece honras e que a sua casta deve ser elevada à mais alta distinção. Como exemplo de bravura, de persistência, de mansidão. Perante as adversidades nunca ‘baixou os braços’, por ser mais forte em si o destino que alguém lhe traçou, ainda que não perceba nem possa escrever em testamento as maravilhas que a Natureza nela operou.

 

Tantas vezes ficamos expostos a condições de vida adversas e incompreensíveis, que nos fazem golpes e ficar pessimistas, resultando em descontrolo e perda de sentido para a nossa acção. Então voltando ao percurso simples de uma abóbora, é preciso voltar ao centro do nosso ser, compreender a razão de existir e de agir. No silêncio ganhamos resiliência e novo alento. O optimismo volta e manifesta-se na atitude e no trabalho que acabamos por realizar, como um dom a todos. Os frutos, enfim, colhem-se.

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