SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 13:46

Contradições ideológico-partidárias

 

Para os cidadãos que se interessam pela evolução social e política, há um fenómeno que se tem vindo a acentuar nas sociedades que compõem sobretudo a civilização ocidental, e que tem a ver com as orientações que os movimentos e partidos políticos escolhem para os seus programas, que depois dão suporte à sua actuação e militância.

 

Se andarmos para trás na história, percebemos que da Revolução Francesa de 1789, resultou uma distribuição dos representantes do povo no hemiciclo parlamentar, com uma apresentação da esquerda para a direita, segundo a sua conotação ideológica desde uma linha republicana (mais materialista e positivista), a uma linha mais monárquica e conservadora (segundo uma formação e ética judaico-cristã). Essa representação das sensibilidades parlamentares acabou por ser exportada pela França para outros países europeus e depois para o resto do mundo.

 

Sob a influência do iluminismo e das rápidas transformações sociopolíticas que acabaram por emergir durante o século XIX, as sociedades tiveram de afrontar novos problemas, como o início dos processos de descolonização, alargamento da industrialização, crescimento urbano, problemas resultantes da criação e distribuição da riqueza, alargamento da esperança média de vida.

 

A própria Igreja Católica, por meio do Papa Leão XIII, sentiu necessidade de, face as tantas mudanças e novas questões, dar o seu contributo para interpretar os novos tempos, publicando em 1891 a grande encíclica que foi a Rerum Novarum. Com este “statemment”, introduziu no pensamento cristão e não só, linhas de orientação sociais que viriam depois a inspirar por toda a parte novas actuações sociais e políticas, depois continuadas e enriquecidas doutrinariamente por novas encíclicas dos pontífices que lhe sucederam: Pio XI, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e agora finalmente, Bento XVI. Poderíamos dizer que estes contributos doutrinais no mínimo foram e são referência para todo o mundo de cultura cristã, nos seus actuais cerca de 3 mil milhões de pessoas, influenciando as construções e visões do mundo de uma parte bastante significativa da população do planeta…

 

Mas também desde o início, esta apresentação do “Pensamento da Igreja” para entender o mundo e os seus desafios, teve de enfrentar outras sensibilidades, havendo mesmo dentro do seio católico, interpretações diversas desse pensamento: com os mais conservadores, ou os mais progressistas, os mais pragmáticos, os mais espirituais, os mais liberais, etc. E esse pensamento foi afrontando novos problemas como a economia, os sistemas políticos, o concerto das nações e a paz, a família, a cultura, o desenvolvimento e a dignidade humana, a justiça, a evangelização, o perdão, o trabalho, a ciência e a fé, o valor do mercado, a esperança, a caridade e a verdade assentes na subsidiariedade.

 

Aos poucos acentuou-se na actuação política uma divisão clara entre uma linha de orientação do Homem e do mundo, a que chamaríamos ‘personalista’ orientada segundo uma visão cristã, e outra linha, mais orientada a partir de uma visão materialista da história humana. Cada uma destas posições desencadeia na visão política actual, divergências políticas sobretudo se estamos a tratar de aspectos económicos, ou se estamos a tratar de realidades sociais. Por isso é hoje possível ter partidos que seriam naturalmente opostos no espectro político a convergirem em questões morais (como o caso do aborto, da eutanásia ou da homossexualidade), mas divergindo nas questões económicas (como o papel que deve ter o Estado na economia, a partilha da riqueza, etc.).

 

Este enquadramento ideológico, tem muitas consequências na apreciação e escolha de opções, sobretudo quando se trata de votar. Há uma cisão na consciência de cada um, quando tem de optar por uma linha política ou um partido ou líder, porque as propostas partidárias não facilitam a harmonia entre as escolhas de consciência e as escolhas de orientações materiais e sociais.

 

Chegados a este ponto, percebe-se a necessidade de novas inspirações para o aparecimento de novos líderes, que tenham na sua visão da gestão da civitas esta clareza e a opção clara por um dos modelos. Sem esta opção, continuaremos a ter personalidades fracas e tibieza nas orientações que devem enformar a actuação das pessoas que a democracia escolhe para gerir os destinos dos povos.  

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