SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 14:04

Os Bombeiros da minha Infância

Por volta de 1975, Torres Novas era uma vila que além da zona antiga do centro, se alargava para alguns núcleos habitacionais como os bairros das Tufeiras, Casas Altas, Vale Verde, S. Domingos e Sto. António…

Foi precisamente neste último bairro que vivi a minha infância e juventude. A vida corria entre o Rossio, a rua de Sto. António, o colégio de Sta. Maria, e as quintas em redor. De resto íamos à escola nas Tufeiras, dávamos uma volta à praça e íamos à catequese em S. Pedro. As horas de brincadeira imensas, passavam-se na rua, no meio de bandos de miúdos às dezenas, jogando à bola, ao arco, apanhada, etc. Mas tudo parava quando se ouvia a sirene dos bombeiros tocar a fogo: o quartel e os bombeiros faziam parte do nosso imaginário de aventura, bravura, honra… Com aqueles carros vermelhos a acelerar com homens fardados, abnegados para nos proteger. Então nós garotos colocávamo-nos ali no cruzamento da mercearia do Sr. António Lavado (junto à atual sede do Clube Desportivo da Zona Alta) para assistir à passagem apressada de algum homem que corria ou sprintava de bicicleta para o quartel dos bombeiros, e pouco depois colocávamo-nos à escuta para tentar perceber se o fogo “era cá para cima” e se os carros iriam passar junto ao colégio das irmãs, ou se vinham do café Planalto para a rua de Sto. António.

Aos poucos, começava a ouvir-se os carros que se aproximavam do Rossio… e em seguida era correr para um dos lados de baixo ou de cima e chegar mesmo à hora do primeiro carro (o de comando) e depois iam passando os outros! Se calhava passarem na rua de Sto. António, a coisa tinha mais grandeza: às janelas e portas das casas debruçavam-se as mulheres e os velhos e por toda a rua se juntava gente, haviam várias tabernas, como a do Sequeira e comércio. Todos vinham à rua para vir comentar e deitar sortes sobre o local e dimensão do fogo. Era muita a agitação, aumentada pelo ar sério dos bombeiros sentados nos carros. E lá vinha o Zé Melro com o seu ar pachorrento a conduzir um autotanque ou o “carro nevoeiro”, o Paiva e o Francisco Pereira sempre aprumados, e o Sr. Carrelo… Por ali íamos ficando em conversas demoradas, para saber quem vinha nos carros à janela (lugar bastante disputado entre os bombeiros mais novos…), até se achar que tinham passado todos… Era sempre um fascínio que arrebatava a miudagem, desafiada para mais tarde visitar junto à garagem dos Claras o quartel e tentar descer pelo escorrega, ou ir ao Esqueleto na avenida para ver os treinos dos cadetes. E no dia 5 de outubro dia de aniversário da Corporação, saía a fanfarra a trautear marchas, com os seus bombos e clarins, fardas alinhadas em corpos anafados de homens garbosos a desfilar pelas ruas.

Este é também um tributo ao meu avô António Reis Vigário – que infelizmente não conheci – carteiro de profissão e carpinteiro nas horas vagas. Pessoa de visão larga, preocupado com a educação e serviço aos outros, foi um dos bombeiros fundadores da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Torres Novas.

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