SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 14:31

O Trilho do Sapo

Vivendo em Torres Novas, desde criança sempre me impressionou a grandeza da serra D’Aire que se mostra a norte, com as suas curvas onduladas, o seu verde e a bruma que tantas vezes ali se forma e detém.

Sempre imaginei a dificuldade do terreno, o calor na encosta a sul, o seu coberto vegetal cheio de plantas silvestres e insetos, pássaros, repteis, coelhos, raposas, javalis… Achava que deveria ser fantástico o panorama da região visto lá de cima: os montes, cidades, vilas e aldeias em redor, a linha do horizonte, o nascer e o pôr-do-sol, o vale do Tejo. Ambicionei sempre subir à montanha, ao longo da minha adolescência, juventude e idade adulta, porém sem nunca se ter proporcionado. Convidei amigos, procurei saber de quem fosse, tentei organizar uma ida com outros, mas nada.

Mas no início de maio pensei que desta é que iria ser e a 5ª feira da espiga – dia da Ascensão – sendo feriado no concelho, era mesmo o dia certo. Sem hesitar, pelas 9h00 fui de carro até à encosta Norte e estacionei. O tempo com muito vento era de um enevoado a prometer chuva, e lá estava eu do lado do Vale Alto pelas 9h30, em direção ao topo, com os sinos a tocar, como que para anunciar a partida.

Disseram-me que havia um caminho antigo e que depois era sempre a subir. Encontrei esse trilho que parte de umas hortas e cerros antigos, até uma placa cujas informações o tempo comeu, mas segui em frente, olhando as flores, suspenso nas plantas e na paisagem ao longe. Por fim cheguei ao último pinheiro e depois seguia-se vegetação densa no meio de um vale. Foi aí que me assaltou a ideia de estar só e em caso de me acontecer algum problema (algum bicho, sei lá…), estar só. Procurei ali mesmo um pau… lembrando-me que tinha um telemóvel comigo. Logo depois fiquei deslumbrado pela intensidade e diversidade de flores silvestres, pelos seus aromas, pelo pensamento das pessoas que talvez tivessem já passado por ali e por aquela natureza que ali parece imutável ao tempo e ao Homem.

À medida que subo, as plantas passam a ser diferentes, surgindo muitos fetos. Em sobressalto, vejo que salta uma perdiz na minha frente! Apesar do vento mais forte e do ar tempestivo, já transpiro. Nada de mais, há que subir…

Chega-se então a uma zona de planalto com um horizonte mais largo de muros de pedra ancestrais. Penso em lidas do campo, em guerreiros antigos, gente talvez fugida por ali, a que a natureza foi indiferente e de quem guardou segredos. Ali estou, entre a terra e o céu infinito, percebendo a minha pequenez diante de tamanha criação. Sinto-me como um eremita, a fugir do mundo e dos seus problemas e desafios, em busca da harmonia. No topo da montanha os binóculos não me servem de nada, pois a névoa impede a vista ao largo, só posso ver a natureza que está próxima de mim: fungos, plantas que o Homem não cuida mas vivem no seu esplendor de cor, aromas e formas.

E vejo algo que se desloca de forma desajeitada no meio das pedras. É um grande sapo em cor dourada, como nunca vira. Esgueiro-me para tirar fotos, até que o bicho desaparece no meio das rochas. Detenho-me por ali ainda mais um tempo para saborear aquele vento que me fustiga, a sensação de inspirar ar puro e de ter naquele espaço um tempo reservado a mim e à natureza. É já tempo de regressar, parece que vem lá chuva, apresso-me para começar a descer e percorro o caminho ao contrário, de volta à minha cidade e aos meus. Quando já perto do povoado, dou-me conta que tinha levado comigo uns fones para não me sentir só e poder ouvir música ou rádio. Não foram precisos e nem me lembrei. Aquele passeio foi como uma viagem ao centro de mim mesmo, como uma contemplação da natureza a que pertenço e que assim deve permanecer.

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