SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 7 Agosto 2020, 13:50

Os vizinhos na minha infância

Hoje quando vejo as crianças e adolescentes no corre-corre da vida escolar e atividades extra curriculares, sempre de um lado para o outro; quando os vejo parados a olhar fixamente para um ecrã – seja de televisão a passar todos os programas de satélite, seja de um qualquer computador, a que acedem podendo ter todos os conteúdos, seja com um Iphone (telefone multifuncional com correio eletrónico e acesso às redes sociais, jogos, etc. que usam massivamente e alienadamente – compreendo como estou perante uma realidade de vivência infanto-juvenil a anos-luz da minha.

Naquele tempo, vivia no bairro de Santo António, em Torres Novas, um lugar afastado do centro da vila, mas cheio de vida e crianças, com alguns motivos claros de identidade daquelas famílias residentes: a capela de Sto. António e o seu arraial, o largo do rossio: onde se desenrolava a feira de março, o mercado semanal das sucatas e peles, a feira do gado no 1º domingo de cada mês, as carroças por ali estacionadas à 3ª feira que eram a animação da malta que regressava da escola. Áh! e os quintais e quintas com muita fruta e as fazendas em redor para ir aos ninhos e fazer aventuras. Chegavam a encontrar-se na mesma rua 30 a 40 miúdos) para as brincadeiras do costume, desafios de futebol pelado, campeonatos da carica, corridas de bicicleta e a pé, todos os outros jogos normais da época, sem esquecer nunca os carrinhos de rolamentos e brincar aos cowboys e índios.

Mas havia também uma realidade que marcava a vida do bairro. Eram os vizinhos, alguns já reformados que conviviam connosco e gostavam da proximidade de tanta juventude. Recordo alguns: O Sr. Viegas, era um homem alto que por ali passava com o seu jeito “gentleman” e por vezes procurava saber das nossas vidas ou famílias; o Sr. Pedro, era um homem de óculos que já reformado, por vezes falava connosco ou nos deixava ir ver o seu quintal e horta, tudo muito arrumado e cuidado; o Sr. Felizardo, tinha sido feitor da quinta do Visconde de S. Gião e contava histórias para nós, sempre com muita paciência e bom humor; o Sr. Caldas, sargento nos quartéis do Entroncamento arranjava-nos os rolamentos, pregos e parafusos para os carrinhos; o Sr. Ramon, tinha um feitio brincalhão e tratava-nos de homem para homem, e às vezes enquanto regava a sua horta, estando por ali nós a brincar, levantava a mangueira e distribuía um banho por todos, enquanto não conseguíamos fugir; A D. Júlia que gostava de cantar o fado e nos dava caramelos que o marido trazia de Espanha (além disso tinha uma nespereira e uma cerejeira – coisa rara – que na altura própria toda a rapaziada se encarregava de cuidar…), e tinha também um cão, o Piruças que era o nosso amigo canino; depois havia a D. Conceição e a sua irmã que eram a salvaguarda maternal de todos; a D. Bibi da rua do cimento, que por vezes dava rebuçados; e o Sr. Martins, que tinha pombos e um quintal com muita fruta e nos tratava com respeito; não posso esquecer a D. Delfina Sequeira, agricultora que vendia na praça e nos arregimentava para lhe dar uma ajuda nas suas atividades agrícolas, sendo para muitos de nós um escape às brincadeiras de rua, compensado por algum dinheiro que era tábua de salvação para as dificuldades de carteira, porque não tínhamos mesadas.

Cada parágrafo que agora escrevo, faz-me lembrar de tantas histórias, de tantos amigos que deixei de encontrar, de tantas façanhas que realizámos e de tantos disparates, também. Mas são a marca de um tempo em que num país menos desenvolvido e numa sociedade menos competitiva, tínhamos tempo para nos olharmos e estabelecer laços de respeito, amizade e solidariedade, que nos integravam e faziam sonhar com o futuro e um mundo melhor.

Esta descrição não será original para os jovens do meu tempo, aqui e em muitos outros lugares. Deixo-a como testemunho às crianças e jovens de agora. Não nego as vantagens de hoje com o acesso às tecnologias de informação e comunicação, mas espero que a modernidade não os traia, excluindo-os de viver a vida, serem crianças, contactar com a realidade palpável da terra e dos seus bens.

Torna-se cada vez mais evidente que a loucura desenfreada a que sujeitamos os nossos infantes, lhes retira espaço, tempo e energias para viverem saudavelmente e com imaginação a sua meninice. Esta fase da vida não deveria dispensar experiências concretas com a natureza e a transmissão de valores através dos contactos entre idosos e crianças. Nessa relação podem amadurecer e tornar-se adultos para dominarem o mundo que a passos largos lhes é entregue nas mãos, para o usarem e transformarem a bem de todos, de forma temperada e com humanidade.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados