SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 3 Agosto 2020, 18:11

“Lá vai púcaro “ ou a birra contra a injustiça

 

Sempre fui um garoto razoavelmente bem comportado, ia à escola primária regularmente e frequentava a catequese onde aprendi o catecismo e a vida de Jesus, onde fiz a primeira comunhão, a comunhão solene e o sacramento do crisma, passando depois a continuar a ser católico e temente a Deus se bem que com uma prática algo irregular.

 

Na catequese havia a senhora catequista, no meu caso a D. Carlota, pessoa de trato afável e cujo bom relacionamento, pelo menos comigo, perdurou ao longo de toda a vida num sentimento mútuo de respeito e amizade.

           

Haviam as aulas de catequese aos Sábados à tarde no Salão de Salvador e nos Domingos de manhã na igreja do Salvador lá havia a Santa Missa, celebrada pelo senhor Padre Búzio, onde a miudagem que tivesse confessado os seus pecados, as suas asneiras e as suas diabruras participava na Sagrada Comunhão, salvo erro pelo menos uma vez por mês.

           

E era sabido, com as nossas faixas de cruzados lá entrávamos para a missa ordenada e organizadamente, preenchíamos os bancos do lado esquerdo de quem entra na igreja do Salvador, porque para o lado direito iam as meninas bem separadas dos rapazes como mandava o figurino.

           

A pequenada levava a coisa muito a sério porque a situação exigia imensa responsabilidade, concentração e respeito e à entrada até cantávamos “Somos Cruzados, por isso temos o bem da Cruz…”

           

A orientar a pequenada, no corredor central, lá estavam os catequistas Rogério Santos e Teresa do Canto, hoje casados, Noémia Figueiredo e José Carlos Carreira, de entre outros.

           

De manhã, quando íamos à comunhão, o jejum era completo e obrigatório e só se podia comer ou beber qualquer coisita após a missa, não me lembro a que horas, mas recordo que muitas vezes quem dava horas era o meu estômago…em jejum desde o jantar da véspera, mas cultivava-se a paciência, estávamos todos na graça de Deus e eu, pelo menos, sempre amigo da ordem, do respeito pelos outros, da disciplina, pelo menos num Domingo que me recorde, armado em santinho mas já com alguma fomeca, aguardei pacientemente e na minha ordem da fila, que chegasse a minha vez de receber uma sandes de um inesquecível queijo amarelo da Cáritas e um púcaro de café com leite, para tapar o buraquinho.   Ainda hoje recordo o cheirinho a torrado do café com leite e parece-me que estou a ver o referido queijo alaranjado, que tão bem nos sabia.

           

Finda a missa, esperei, esperei, aguardei pela minha vez e ela lá chegou à porta da sacristia, com a lamentável informação do senhor José Carlos Carreira e da D. Carlota, que já não havia nem pão, nem queijo, nem café com leite…Não tinha chegado para todos ou alguém repetiu…e eu bem os via passar e a passar-me a perna.

           

Aí senti-me injustiçado, senti-me ultrapassado por alguns que comeram e beberam duas e mais vezes sem me respeitarem nem respeitarem a ordem na fila onde deveriam estar…e pequei, revoltado, deu-me uma senhora birra que não consegui dominar.

           

Danado com tudo aquilo, com o estômago em jejum a dar horas, de púcaro na mão que me tinham dado para o tal café com leite e a ver os outros a comer e beber deliciados, olhei para a minha querida mãe Carminda, e vi nos seus olhos um certo ar de aflição, um certo desgosto pelo que me tinha sucedido, um pedido de calma e de paciência feito num seu olhar silencioso e cheio de amor, mas qual quê, qual graça de Deus, qual carapuça, olhei para a torre da igreja e atirei o púcaro de metal vazio para o ar, que quase acertava no sino da torre.

           

A minha mãe embaraçada tentava acalmar-me, mas perante tanta injustiça, tanta falta de respeito, tanto desprezo dos outros por mim, tive que reagir e “Lá vai púcaro”.

           

Nesse ano, por vergonha, não fui mais à Catequese e perdi o passeio de fim de ano que era da praxe realizar-se.

           

Não era aquilo que me ensinavam, não era aquilo em que eu na minha santa ingenuidade acreditava ser a imagem de Cristo na terra, com paz, com ordem, com respeito pelos outros.

           

Chegado a casa logo pedi perdão a Deus e à minha mãe. E aprendi que fiz mal em atirar o púcaro para o sino, porque não me lembrei que Deus que tudo vê, já nessa altura tinha castigado quem me ultrapassou e me tinha perdoado a mim cheio de fomeca e de sede nessa manhã de sol.

Mas o que foi feito, feito estava e o pior foi a amolgadela no pobre púcaro e a ralação da minha querida mãe, que não tiveram culpa nenhuma de se ter acabado o pão, o queijo, o leite e o café do senhor prior.

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