SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 12 Julho 2020, 00:37

A bolada e a “Luísa Tonta”

 

Eu era muito pequeno, cinco ou seis anitos, e o meu pai levou-me à bola no velhinho campo do Almonda Parque. Ainda me recordo que o jogo contava para a 2ª Divisão Nacional, e o adversário do C.D. Torres Novas era o Cova da Piedade.

 

Meu pai, com outros amigos, tomou lugar no peão, em pé, apoiado na vedação e eu, um puto, ficava aos seus pés a ver a bola.

 

Lembro-me de uma senhora, vestida de escuro, que estava perto de mim, sentada num banco e de chapéu-de-chuva preto aberto contra o sol.

 

Era chamada de “Luísa Tonta”, e tratava toda a gente por “Répsss” e que de tonta não tinha nada. Levava sempre o seu banquinho e o seu chapéu-de-chuva preto, que tanto servia para a abrigar da chuva como do sol e lá se sentava sempre, gozando com a malta do peão que se tinha que aguentar de pé.

 

Nunca faltava a um jogo do Desportivo no Quintal do Zé Maria.

 

Voltando a mim, alguém se lembrou da insegurança da minha posição, mesmo em cima da linha lateral, alertou o meu pai e foi sugerido por um responsável do campo, que eu me fosse sentar, muito quietinho, na base do mastro da bandeira, colocado aí a cinco metros da linha de cabeceira, do lado dos sanitários, ao tempo já existentes.

 

E assim foi. Lá me sentaram, dizendo-me para estar quietinho porque podia vir uma bola na minha direcção e era um sítio perigoso.

 

Ora eu, de chapéu de palha na cabeça, lá me mantive o mais quieto possível, a ver o ataque do Cova da Piedade e algumas belas defesas do guarda-redes do Torres Novas, o famoso Bué.

 

Acontece que as instruções foram incompletas. A dado passo, um avançado do Cova da Piedade isolou-se e em vez de rematar para a baliza, deu um valente chuto mas na direcção da minha pequena cabeça.

 

Eu bem vi a bola na minha direcção, mas para me manter quietinho, levei com ela em cheio. Também confesso, não tive nem tempo para pensar quanto mais  para me desviar.

 

E se aquilo doeu Santo Deus !

 

Até vi estrelas e por causa disso o jogo foi de imediato interrompido, o avançado, o massagista e o grande Bué só diziam: “Matámos o puto, matámos o puto”, mas felizmente eu ouvia tudo e portanto estava bem vivinho da costa.

 

Meu pai também apareceu de pronto e dali fomos para casa, sem sabermos ao menos quem ganhou o jogo.

 

Eu, garanto-vos, sei que ganhei uma valente bolada e um grande susto.

 

E nunca mais me esqueci da tal base do mastro da bandeira.

 

E já agora, o Torres Novas ganhou nessa tarde por dois a zero ao Cova da Piedade, foi em 1953 e isso foi confirmado na Biblioteca Municipal, num livro sobre o Clube Desportivo de Torres Novas, de autoria do Dr. João Calos Lopes.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Ler Mais...
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados