SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 26 Janeiro 2021, 12:53

Os nossos hospitais

Depois de ler a oportuna entrevista de “O Almonda”, na sua última edição, à Dr.ª. Natália Rodrigues, ex-Directora Clínica do Centro Hospitalar do Médio Tejo, entendi também dever partilhar a minha opinião sobre a realidade dos três hospitais que desde há muitos anos me vem preocupando. E o título da entrevista é tão elucidativo como preocupante: “Um dos três hospitais vai ter de fechar”.

Como diz o povo, quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita. E como tudo isto nasceu torto, a rotura tinha que se dar. Nos últimos dois anos a situação têm-se vindo a degradar a olhos vistos, mas o problema começou no momento em que os políticos, por questões eleitoralistas e bairrismos doentios, tudo fizeram para que a nossa região em vez de ter um Hospital digno desse nome, passasse a ter três elefantes brancos difíceis de sustentar, difíceis de rentabilizar e pior do isso, com dificuldades funcionamento cada vez maiores, face aos cortes que se vão sucedendo.

E a Dr.ª. Natália Rodrigues é bem clara quando diz na entrevista: “Penso que um dos três vai ter de fechar. Os três tinham valências básicas mas, neste momento, a cirurgia só existe em dois hospitais. Não há internamento nem se fazem operações em Torres Novas, só Tomar e Abrantes. Atente-se que em Torres Novas deixou de haver internamentos de qualquer espécie. Quando se diz que “só” saiu o internamento não se explica que saiu uma parte muito importante do serviço. Veja-se que urgência só há em Abrantes e o que temos em Torres Novas não passa de um serviço de triagem”. E mais adiante a referida médica ainda acrescenta: “Sou capaz de compreender o que se fez com as urgências, aceito que as mudanças do ponto de vista técnico mas, quanto ao local onde foram concentradas – em Abrantes – já teria escolhido outro, optaria por concentrar em Torres Novas por uma razão, por causa da localização”.

E eu atrevo-me a acrescentar que, independentemente da qualidade e do esforço dos profissionais, a triagem, tanto em Torres Novas como em Abrantes, é muito demorada, horas por vezes, para que um doente seja triado, tudo porque os profissionais são escassos e são pessoas normais, não são aleijados e só têm uma cabeça, dois braços e duas pernas. Só quem por lá passa, ou quem por lá está, é que sabe destas duras realidades.

Sobre a localização das urgências não posso estar mais de acordo com a antiga Directora Clínica do CHMT. Mas o problema é que o lobby de Abrantes existe e funciona e cá por estes lados é o que se vê. A realidade dos factos é que Torres Novas está mais no centro de tudo, está mais perto dos locais de maior risco de acidentes graves na A1 e está mais perto de Lisboa ou de Coimbra para onde, em última análise, são evacuados os doentes graves. Mas por cá ou não houve uma visão clara destas realidades ou então não terá havido força ou vontade para que quem manda mais fosse esclarecido.

Só para lembrar a quem já se esqueceu, eu, no meu artigo “Os três hospitais” publicado em “O Almonda” de 01 de Julho de 2011dizia o seguinte sobre esta matéria: “Cheguei até a escrever aqui neste jornal, no tempo em que ainda havia dinheiro (2005), que o Estado deveria vender os três edifícios a um grupo hoteleiro que os transformaria em três bons hotéis, com heliportos, piscinas, jardins, solários, campos de ténis e vistas maravilhosas, tudo do mais rico e belo, e com o dinheiro fresco e disponível, o Estado construiria então um hospital central, ali perto da confluência do IP6 com o IC3 e passaríamos a ter, para além de uma boa e completa resposta hospitalar num só local, uma economia de custos acentuada e um alargamento do beneficio de serviços dignos da melhor nota. Mas ninguém ouviu e agora o problema agudiza-se.” E mais à frente ainda dizia o seguinte: “Não é fechar e privatizar dois deles que se consegue melhor serviço para a população que continua carenciada de cuidados de saúde de qualidade e de proximidade.

Se o tempo é dinheiro, e isso é uma verdade insofismável, também é verdade que não se podem, de um momento para o outro, empurrar as pessoas, utentes, doentes e quadros dos três hospitais, para uma ponta da região para receberem e prestarem os cuidados de saúde a que têm direito no Serviço Nacional de Saúde, tendencialmente gratuito como diz a Constituição.”

Naquele artigo eu dizia muito mais, mas não me quero alongar. A terminar sempre digo que este problema dos três Hospitais, para além de tantos outros que nos estão afligir, é um problema que deve ser tratado com pinças, dada a sua delicadeza, mas não podemos esperar que sejam os outros a fazer tudo. Se assim pensarmos e se andarmos distraídos, amanhã levam-nos tudo. E depois é tarde. Até porque sou levado a crer que dois deles, um dia destes, serão entregues de mão beijada a um privado qualquer e depois, o que ficar vai ser fundido com o de Santarém, como fizeram há pouco no Algarve com os Hospitais de Portimão e de Faro, para continuar a haver economia de escala mesmo que o serviço se venha a degradar ainda mais.

Carlos Pinheiro

12 de Maio de 2013

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