SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Setembro 2020, 10:05

A tragédia do asfalto

 

Neste meu regresso ao convívio com os leitores de “O Almonda”, depois de um interregno voluntário de vários meses seguido de uma suspensão pouco explicada e pouco compreendida, aqui estou de novo pronto a colaborar com este semanário, com opiniões que pretendo construtivas, acerca do mundo que nos envolve.

 

Desta vez trago aqui um problema que a todos preocupa. São as faltas de respeito pelas regras de segurança rodoviária, os consequentes acidentes rodoviários e uma vez que a tragédia do asfalto é cada vez mais negra, e o nosso Distrito, infelizmente, está a assumir uma horrorosa segunda posição, a nível nacional, logo a seguir a Lisboa no que respeita ao número de mortos na estrada, quero partilhar com os leitores a minha opinião acerca de um acidente, mediático, ocorrido em Novembro passado dentro de Lisboa, na sua Avenida mais emblemática, a da Liberdade, o que prova que, em qualquer lado, a falta de respeito pelas regras de trânsito, pelo respeito que os outros nos devem merecer e pela vergonhosa falta de exemplos, que devem vir de cima, nos deve deixar a pensar.

 

Era uma sexta-feira igual a tantas outras. O trânsito em Lisboa estava complicado e o pavimento molhado. Era final de mês, precisamente dia 27 de Novembro. Faltavam poucos minutos para as 16,30, hora marcada para a tomada de posse dos novos Governadores Civis no Ministério da Administração Interna, no Terreiro do Paço.

 

Havia pessoas que não podiam faltar aquela tomada de posse. E alguns carros de pessoas importantes vão de acelerar, como se as regras fossem só para os outros. E há semáforos que regulam o trânsito que não deixam de cumprir a sua missão. Mas são ultrapassados, independentemente da sua cor no momento, por grandes carros pretos, com as famosas luzinhas azuis e talvez até com sirenes estridentes. E o imprevisto, que afinal se podia prever, com toda aquela correria, como tantas outras, aconteceu. Dois carros do Estado, de alta cilindrada, novos ainda, conduzidos por motoristas profissionais e experientes, bateram violentamente e provocaram o caos na Avenida da Liberdade em hora de ponta. As duas maiores figuras da segurança interna ficaram gravemente feridas e demoraram o seu tempo a desencarcerar e muito mais tempo a recuperar. Outros ocupantes também ligados à segurança também ficaram feridos, se bem que com menos gravidade. Os bombeiros e o INEM foram incansáveis no trabalho esgotante. A Policia também teve um trabalho importante na regulação do trânsito que passou a ser caótico.

 

Mas como é que aconteceu o acidente? Só há uma certeza. Esses dois carros do Estado seguiam em excesso de velocidade. Era mesmo excesso uma vez que não conseguiram parar no espaço livre e visível à sua frente. Por isso baterem estrondosamente. Mas como é que aconteceu o acidente, voltamos a perguntar? Ninguém sabe. Há pelo menos duas versões. Os carros seguiam o mesmo sentido e o primeiro terá travado e o outro embateu-lhe. Há outra versão. Os carros cruzavam-se e não conseguiram evitar o embate. Não houve tangentes. Houve sim uma secante, em cheio. Porquê tudo isto? Os inquéritos estão em curso e demorarão o seu tempo, como é hábito nestas coisas e ainda mais por se tratar de pessoas importantes. A verdade há-de vir ao de cima. Mas uma coisa é certa. Era velocidade excessiva para o local. E essas pessoas que não podiam faltar à tal tomada de posse, faltaram mesmo, e a pressa, para eles, acabou-se ali. Mas salvaram-se. Valha-nos isso. Mais tarde ou mais cedo, agora que felizmente já estão recuperadas hão-de ajudar a esclarecer o que motivou tanta pressa que deu em tanta chapa amolgada e em tanto sangue derramado e em tanto vagar forçado. Afinal não valia a pena tanta pressa. A tomada de posse deu-se na mesma.

 

Que este caso sirva de exemplo para tanta gente importante que se cruza com muito mais gente. Nas auto-estradas essas correrias são normais. Vão a voar baixinho e normalmente chegam bem ao seu destino. Mas passam tudo e todos, por cima de toda a folha, como se fossem os donos do mundo. São geralmente pessoas importantes que, na prática, se sentem acima da lei. Será que outros senhores importantes vão esquecer este caso e tudo vai continuar na mesma, até á próxima batidela? Não. Não pode ser. De uma vez por todas as pessoas têm que ser responsabilizadas pelos atropelos que cometem às leis que regulam a sociedade e pela insegurança que transmitem a quem não tem culpa das suas pressas.

 

Isto já está mau. Mas se os exemplos, pelo menos desta vez, não vierem de cima, a coisa vai ficar pior. Não quero acreditar que mais uma vez a culpa venha a morrer solteira.

A opinião pública, o povo, nós todos, temos direito à verdade. Espera-se que alguém dê a mão, ou as mãos, à palmatória. Estamos à espera e não temos pressa. Queremos é a verdade a que temos direito e que isto se resolva sem recurso a tribunais, para não atrasar muito mais. Aliás, se as pessoas responsáveis quiserem, não haverá grandes complicações no esclarecimento da verdade, até porque os dois carros eram do mesmo dono, o Estado. Basta uma confissão. E se for com arrependimento sentido, tanto melhor. Aguardamos.

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