SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 1 Outubro 2020, 05:07

A minha rua

 

É uma rua castiça, uma rua simpática, característica de tempos passados, cheia de história, que agora está a ser aperaltada, talvez para que esqueça o abandono a que foi votada durante anos e anos. Mas vai ficar descaracterizada e nada funcional para quem lá mora, para quem lá trabalha ou para quem lá tem que ir. O estacionamento era confuso mas funcionava. Agora, com tanta modernice, vai passar a ser quase inexistente.

 

A minha rua teve um pouco de tudo. Chegou a ter ali ferreiro, cesteiro, mercearia, armazém de azeites, de vinhos, de cereais e de pneus e até criação de gado de entre outros tipos de negócio da época. Nos últimos anos, comercialmente a minha rua já teve de tudo um pouco, mas tudo tem vindo a acabar. Teve escritórios, uma loja de música, uma loja de artigos de tunning, armazém e loja de malhas, mas tudo tem acabado. Ainda resta um estabelecimento de confecções que se vai mantendo com a persistência dos seus proprietários já que as condições da rua, sempre más desde há muito, têm estado bem piores desde Julho do ano passado.

Foi na minha rua, no Solar dos Anjos, que nasceu e cresceu a ilustre torrejana Maria Lamas.

Mais tarde, o Solar foi Colégio, Pensão, garagem dos Bombeiros, GAT e agora Delegação da CCDRLVT.

 

Já lá vão trinta e cinco anos que ali moro, mas estou de partida, já com alguma saudade à mistura, própria destas situações. Sempre foram 35 anos no mesmo sítio, durante os quais muita coisa aconteceu à nossa volta. Nessa altura já não havia a Capela, que lhe deu o nome, dos Anjos. No seu lugar, depois do camartelo, quem sabe se o mesmo que um dia também arrasou a Igreja de Santa Maria, estava lá a Chaminé, a primeira discoteca da cidade que chegou a sobressair na noite da região até que a decadência começou e se foi acentuando. Depois também fechou. Agora está entaipada como estão outros edifícios da zona histórica. O resto da construção nunca foi feito, sabe-se lá porquê. Destruiu-se um monumento e o que se fez ou nada é a mesma coisa.

Nessa altura o Solar dos Anjos era uma filial da Pensão Grandela, com grandes quartos próprios de uma casa senhorial. Mas a Pensão, entretanto, também acabou.

 

Nesse mesmo edifício apalaçado, esteve depois instalado muitos anos o GAT, Gabinete de Apoio Técnico a várias Câmaras Municipais da zona, que tantos trabalhos dignos realizou. Mas também acabou há pouco tempo fruto da moda das reformas. Fui dando pela saída progressiva das pessoas e depois, recentemente, quando vi carregar, quase como se fosse à pasada, muitas maquetes dos projectos ali criados, numa camioneta, num dia de chuva miúda, com o carinho próprio de quem carrega lixo a caminho de uma lixeira, fiquei impressionado. Foi triste. Portanto o GAT tinha mesmo acabado.

 

Hoje, porque a vida não pára, está ali a iniciar os seus trabalhos uma delegação de outro serviço central e qualquer dia vão ali começar as obras de restauro necessárias à dignidade de qualquer serviço público. E o edifício também merece ser mantido. Numa parte do Solar, uma garagem, ainda antes do GAT, os Bombeiros tiveram ali o velho Auto Tanque Ford, que um dia tinha sido carroçado nas Oficinas dos Claras, em parceria com a Casa Nery, ou o contrário, quando os Soldados da Paz ainda estavam no quartel velho sem espaço para todas as viaturas.

 

Nessa altura, na minha rua, havia ali também um grande armazém de mercearias, com grande movimento de viaturas pesadas, que entretanto também encerrou e deu lugar a um importante armazém de produtos farmacêuticos com muito peso em toda a região centro. Mas este também se mudou. E morava ali gente, como ainda hoje mora, em casas antigas ou mais modernas. Pessoas que davam e dão vida à que foi a minha rua, o que é sempre importante.

 

Apesar de toda a sua história e de todo seu movimento, foi sempre uma rua, bem perto do centro, esquecida pelos poderes dos tempos. O cano da água, do início do século passado, tinha mais remendos de câmara-de-ar do que tubo de lusalite, tantas eram as roturas. O cano de esgoto, esse era seguramente do século XIX. Feito em pedra e com alguns tijolos de burro, lá encaminhava as escorrências para a parte baixa da cidade, a caminho do Almonda. Mas tudo isso acabou. As obras começaram no princípio de Julho do ano passado. Foram anunciados dois meses para a remodelação completa da Rua dos Anjos e da Travessa do Quebra Costas. As infra-estruturas parecem estar prontas. Foram feitos passeios dos dois lados da rua. Foram criados alguns, muito poucos, lugares de estacionamento e complicados os acessos aos armazéns e às garagens que ali estão há muitos anos. Passados quase nove meses, quando estavam previstos dois, o parto final deve estar próximo. Falta pouco mais do que o alcatrão, mas já cheira a ele, a iluminação é que tarda em aparecer, mas a inauguração com pompa e circunstância deve estar próxima. Estamos num ano propício a estas coisas.

 

Apesar de tudo, já começo a ter saudades da minha rua.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados