SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 8 Agosto 2020, 06:33

Quem fez Portugal?

A resposta é simples: foram os portugueses. Mas nunca ninguém pensou a sério que tivesse sido o povo português. Nos livros onde aprendemos, os mestres que nos ensinaram sempre lemos e ouvimos: foi o rei tal, foi o herói tal, foi o general tal, etc. Nunca se nos diz: foi o povo. Por mais estranho que pareça, por mais evidente que seja, o povo está sempre na origem, na grandeza ou na desgraça da nossa pátria. Quanto à grandeza ninguém se lembra dele; quanto à desgraça já o povo é mencionado. Mas passemos das palavras aos factos: quem criou a paisagem duriense, aqueles socalcos a perder de vista, as vinhas aí plantadas e o vinho que daí resultou? Resposta imediata: foi o Marquês do Pombal, foi a Ferreirinha. Mentira. Foram as gentes da beira-douro, gentes da minha terra, de saco às costas, de inverno e de verão que cavaram, alinharam, plantaram tudo recebendo em vida mísera jorna. Dormiam mal, alimentavam-se pior para levaram para as suas terras um dinheirito com que pretendiam melhorar o dia-a-dia de mulher e filhos. Verões e invernos, ao calor e ao frio. Em vida deixaram-na aos poucos nesses socalcos tão admirados, hoje, pelos turistas. Na morte esquecidos de todos. Aqueles que os exploravam ficaram com os louros pelos tempos sem fim. E quem plantou o pinhal de Leiria? A resposta também é simples: El-Rei D.Dinis. Mentira! Foi o povo português. Quem arroteou esse Alentejo tão esquecido? Os grandes proprietários? Mentira! Foi o trabalhador alentejano que de sol a sol semeou e colheu o trigo a troco também de uns míseros cobres que mal chegavam para lhes matar a fome. Quem embarcou nas caravelas e deu novos mundos ao mundo? O Infante D.Henrique. Mentira. Foram homens de todo o país que, na ilusão duma vida melhor ou então obrigados pela justiça, com as suas vidas e as suas mortes descobriram mundos novos, contactaram gentes várias, ficaram, muitas vezes nessas terras porque as suas de origem lhes negavam o pão. Já era tempo também de erguerem estátuas a esse povo maravilhoso, embora pobre, abandonado (como disse o ministro), com seus sacos e alforges, muitas vezes com armas na mão nos deixaram este cantinho que hoje nos parece pouco mas que é a maior fortuna do mundo. Só faltou uma coisa a esse povo: governantes que o servisse e não se servissem, religiosos que o ensinassem a olhar para o céu mas com os pés bem assentes na terra, professores que o ensinassem a ler e a escrever e não só a aprender de cor a salteado a doutrina que a maior parte não percebia. Aí sim talvez tivéssemos sido uma nação maior pela sua gente que soubesse repetir a seu rei quando ele não a ouvisse: “ Ou Vossa Majestade muda isto ou se não…” E El-Rei respondeu: se não o quê? Resposta: se não escolheremos outro que nos saiba governar”.

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