SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Setembro 2020, 13:30

“Mudam-se os tempos”

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades.

Eis os primeiros quatro versos dum soneto de Camões que penso virem a propósito das considerações que vou fazer.

Não sei se os meus leitores já repararam mas aquilo que julgávamos imutável deixou de o ser. Bem,Mal,Verdade,Mentira deixaram de ser noções imutáveis para se tornarem palavras cujo significado varia conforme a vontade de cada um. Por isso Camões dizia: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

O “Bem” será aquilo que me agrada, que me dá prazer num determinado momento mesmo que possa ser aquilo que desagrade aos meus concidadãos. O “Mal” será aquilo que vai contra a minha vontade ou contra os meus desejos mesmo que seja evidente a sua bondade e os seus efeitos benéficos. Só que me irrita e vai contra os meus interesses.

A “Verdade” será aquilo que eu afirmo, as ideias que eu quero impor aos outros, o que favorece os meus interesses, mesmo que prejudique todos os que me rodeiam. A “Mentira” será aquilo que eu pretendo que seja verdade mesmo que isso provoque guerras e infortúnio.

Cuido que tudo isto sempre existiu desde que o homem deixou os galhos das árvores

e se pôs a pensar. Contudo, na nossa época a inversão de todos estes conceitos atingiu um paroxismo próximo de doença psiquiátrica. E a pergunta impõe-se: quem me diz o que é Bem ou que é Mal, que é verdade ou que é Mentira? Para os crentes a resposta é muito mais fácil embora entre alguns deles a única verdade é esta afirmação do Diabo num Auto de Gil Vicente: “Tudo o que a vontade quiser, quanto o corpo desejar tudo se faça”. Que sociedade estamos a construir? Que homens estamos a formar? Olhemos à nossa volta e veremos já os efeitos de toda esta confusão.

Assim apetece-me concluir com os últimos três versos deste soneto de Camões:

“E, afora este mudar-se cada dia/ Outra mudança faz de mor espanto/ Que não se muda já como soía” (costumava).

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