SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 1 Outubro 2020, 06:05

O ÁGAPE

“Eu quero amar, amar perdidamente/ Amar só por amar: Aqui…Além/

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente/Amar! Amar! E não amar ninguém”.

Estes versos de Florbela Espanca vêm a propósito do conteúdo desta crónica, cujo título talvez seja desconhecido para a maior parte das pessoas. Como estamos num país “católico”, informo que eram assim chamadas as reuniões dos cristãos dos primeiros séculos que incluíam sempre uma refeição que nós hoje chamamos “Missa”. Ora a palavra tinha no seu significado a palavra amor.

Mais tarde foi substituída pela palavra “Eucaristia” que, em grego significa agradecimento. Em grego moderno para dizer: muito obrigado, diz-se “eukaristw”. Sempre me intrigou esta palavra porque me parecia corresponder àquilo que se diz no Evangelho de S.João (XIII-34-35):Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros.” Também na primeira epístola do mesmo Apóstolo (IV,8) se diz: “Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor”. E tanto num texto como no outro, a palavra utilizada é “ágape” ou “agapw” em grego.

Depois desta longa exposição, pergunto-me: porquê tanta insistência nesta palavra que significa “Amar”? Houve sempre dois acontecimentos que me chamaram a minha atenção ao estudar os séculos IV e V do Império Romano, sobretudo o Oriental. O primeiro foi a apostasia do Imperador Juliano que foi batizado e educado como cristão e que de repente se tornou novamente pagão. Segundo reza a História, estando ele em Constantinopla, então capital do Império Romano do Oriente, observou uma luta entre monges que se esmurravam uns aos outros por uma questão de hierarquia porque queriam ocupar lugares cimeiros nas cerimónias eclesiásticas. O provérbio então em voga:”vede como eles (os cristãos) se amam, transformava-se em: “vede como eles se odeiam”. Isto impressionou muito o futuro Imperador. O outro facto que me impressionou foi as condenações de alguns padres da igreja primitiva que condenavam veementemente as poucas-vergonhas que se passavam nos tais “ágapes”. O amor era levado à letra.

Agora nesta nossa civilização de raiz cristã que se estendeu pelas américas e por uma boa parte do mundo, também graças aos portugueses, poderemos afirmar que o tal provérbio:”vede como eles se amam” ainda é válido ou verificamos que o seu contrário suplantou este? O verdadeiro amor, tão bem compreendido no início do cristianismo e tão bem praticado por alguns a quem chamamos santos, ficou cada vez mais longe da nossa prática e das nossas comunidades. Porquê?

Julgo que o seu conceito foi deturpado de duas maneiras. Uns entendem por amor aquilo que não passa de um arrepio de sensualidade ou de sexo, outros porque o julgam tão etéreo, tão nas nuvens que nunca o concretizam. Mas “Deus é Amor”. Então? Se assim é, fomos criados por amor e para nos realizarmos temos que amar. Mas amar como? Como somos: corpo e alma. Não podemos separar as duas coisas: agora amo com o meu corpo e logo amo com a minha alma. E é precisamente aqui que está a grande dificuldade e é precisamente por isso que nós não sabemos amar e é precisamente por isso que quem não acredita só vê nos cristãos o contrário da mensagem evangélica.

Parece que sempre houve medo de amar e de tal maneira que gastamos essa palavra até a tornarmos um esboço horrível daquilo que ela representa. Em vez de vermos nela a essência de Deus, aliamo-la ao pecado ao que se não deve falar num contínuo de equívocos e de falsidades. Não devemos ter medo de amar e de perceber que o ódio, o desprezo e a indiferença só provocam mais ódio, mais desprezo e mais indiferença. Como seria o nosso mundo se, onde existissem cristãos pudéssemos dizer: “vede como eles se amam”!

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