SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Setembro 2020, 12:58

Humanidades

Era este o designativo que se dava antigamente às licenciaturas de Línguas e literaturas clássicas, de português, de história, filosofia e de línguas em geral. Ora esta palavra “Humanidades” remete-nos para tudo o que é humano e que não é pouco. Dizia o poeta latino que “nada do que é humano me é estranho”. E nesta palavra “humano” está contida uma inumerável série de características próprias do homem. Ora são estas características que nos tornam mais humanos como seres racionais que somos.

Entre estas características estão a solidariedade, a dignidade, a justiça, o amor, a piedade, a fidelidade, etc. Digamos que todos os valores que nos tornam verdadeiramente humanos. Não precisamos de ir aos códigos religiosos para sermos praticantes de todos estes valores. Os grandes filósofos gregos, os grandes escritores latinos, muito antes do cristianismo, inculcavam nos seus discípulos e conterrâneos todos os valores já referidos de tal maneira que muitos padres da Igreja primitiva achavam que eles já eram cristãos antes de Cristo.

E foram precisamente estes valores que fizeram a nossa Europa. O homem civilizado incorporava em si, obrigatoriamente, tudo aquilo que eu enumerei atrás, sendo até considerado menos homem se não se orientasse por eles.

Os tempos mudaram e tudo mudou também no comportamento humano e a dignidade humana fundada nesses valores degradou-se porque também se degradou aquilo que nos civilizara e nos dignificava.

Olhemos para as nossas universidades, para já não falar nas famílias e nas escolas em geral. O que vemos? Muitos licenciados podem ter muita ciência mas pouca humanidade. Nós, os professores, procuramos ensinar as matérias que nos propõem, mas temos o cuidado de não interferir nos valores dos nossos alunos para que não digam que estamos a “meter a foice em seara alheia”.

Dizem-nos e nós sabemos que numa doença o bom acolhimento por parte do médico, a sua formação humana é metade da cura. E o que vemos? Consultas a cem à hora e mesmo quando recorremos ao particular, por vezes não somos mais bem atendidos.

Evidentemente que falo no geral, porque em todos os serviços públicos há pessoas humanas e menos humanas.

De repente, quase sem nos darem tempo de respirar, os escândalos sucedem-se sobretudo em pessoas com responsabilidades que aproveitam os seus cargos para enriquecerem, para defraudar os cidadãos, para prejudicar até um país inteiro porque deitaram para o lixo a dignidade, a justiça, a honra, o amor do próximo. Serviram a quem? A eles próprios e a el-rei dinheiro!

Faço daqui um apelo aos programas das nossas escolas e sobretudo das nossas universidades: porque não incluir em todos os cursos umas cadeiras de “Humanidades”? Talvez se conseguisse incutir nos respetivos estudantes os tais valores humanos que me parece quase desapareceram da nossa civilização.

Respeito, dignidade, honradez, são palavras vãs entre nós e, genericamente falando, só os parvos ainda as cultivam. Onde nós chegamos…

O homem civilizado conhece-se, não pelo vestir caro, não por ter um carro de alta cilindrada, não porque vai todos os anos para as Caraíbas ou para os Brasis, mas porque respeita os seus semelhantes e se acha igual a eles e os ajuda, enfim, cultiva os valores que o tornam verdadeiramente humano. Isto também se deve ensinar nas escolas.

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