SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:39

Agricultura, comércio, saúde, educação,bairrismo – onde estão?

Version:1.0 StartHTML:0000000167 EndHTML:0000010422 StartFragment:0000000454 EndFragment:0000010406 <!– @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –>Releio na imprensa local as futuras grandes obras do município de Torres Novas: a ligação da rotunda de Santo António à rotunda do Cerejal e o Boquilobo Golf.

A primeira, para além da vantagem reconhecida de promover uma ligação mais directa de dois ou três moradores da rua do Cerejal à avenida in de Torres Novas, a de Sá Carneiro, dizem que a mais cara do município e das mais caras dos concelhos do Ribatejo Norte, onde se acumulam bancos, escolas, centro comercial ex-Modelo/Continente, cabeleireiras, massagistas, seguros, clínicas médicas privadas, lojas chinesas, restaurantes, cervejarias, sapatarias, vestuário, construtores civis, cafés, moradores em caixotes verticais, estacionamento escalonado que, a certas horas do dia , se transforma em duplo, transformando a via num carreiro sinuoso de deslocação. Há. no lugar, vias de sobra, que entre rotundas, ligam a Avenida Andrade Corvo, quer a Oeste, à Avenida dos Negréus, quer a leste, pela rotunda da Juventude, à Avenida Sá Carneiro. O alargamento da rua da Berlé, que hoje não passa dum caminho rural, não é obra essencial, a não ser para mais uma via para lucro ( e não só) de empreiteiros civis, crónicos nas últimas décadas nas obras concelhias, que, ao contrário do país, vão conseguindo da Banca os créditos que dificilmente se consegue a nível nacional, e venham a substituir o verde e as árvores do carreiro existente por novas torres para uma classe média cada vez mais proletarizada, sem grandes empréstimos para um mundo que, ontem, era a volúpia do consumismo: o crédito do automóvel, do apartamento ou da moradia, das férias no Brasil ou nas Caraíbas, na Rússia, ou no Mediterrâneo, ou à volta do mundo para os mais endinheirados. Quanto ao segundo projecto, que o município socialista de Torres Novas põe à discussão pública, mesmo com parte dos pareceres desfavoráveis e outros condicionados, lembra-me a trágica história dum povo que, com a entrada na comunidade europeia, foi desaconselhado a investir na agricultura, na pecuária, na indústria, na pesca, recebendo fundos para se transformar em desempregado e miserável crónicos, para que o mundo financeio e os sectores do comércio de longa distância pudessem comprar por tuta e meia as produções do terceiro mundo subdesenvolvido e explorado e as colocassem nas suas superfícies a preços aparentemente mais acessíveis.Os campos de golfe, que todos sabemos como são urgentes para o desenvolvimento da qualidade de vida dos portugueses, a tal modo que as taxas de IVA são de 6%, menores dos que as das compras dum livro ou do quilo de sardinhas, são a última grande descoberta do turismo nacional de mão estendida dos políticos, que viajam à custa dos dinheiros dos impostos dos cidadãos para tudo quanto é sítio, em nome da pátria a quem nunca explicam o interesse da qualidade de vida das deslocações, nem dos gastos realizados. Estou-me a lembrar, o exemplo local da Quinta do Marquês e das viagens à Birmânia e de outras nascidas dessas, a troco de quê? Somos cerca de 40.000 munícipes, prontos a ir gastar as economias no Golf Resort do Boquilobo, lado a lado com a classe operária e média dos países do norte e centro da Europa, com reformas duplas ou triplas das lusas, ou com as de luxo aos 55 anos dos funcionários dos órgãos comunitários, ou as dos juízes, generais , administradores das empresas públicas ou privatizadas. É este o pensamento político dos teóricos defensor da mudança do paul em oásis verde sintético? Ou já há dinheiros da Líbia ou de Angola por aí, a transformar-se em euromilhões de muitos interesses…Mas, isso sei-o, onde não será permitida a entrada ao cada vez mais crescente número de mendigos lusos e seus cães com pulgas, a crescerem com o desemprego e a perda de habitação, de forma dramática, nas grandes cidades duma Europa para onde exportamos o nosso lixo político e importamos o parasitário. A Torres Novas da minha infância, adolescência e juventude, a da idade da razão de que falava Sartre, tinha um mundo central, que irradiava da praça 5 de Outubro, enchia a então vila com o mundo agrícola , comercial e do artesanato, das freguesias rurais, nas segundas-feiras de mercado, espraiados pelo tabuleiro central daquela, largo do Salvador, Paço, Quinchoso. Eram centenas, milhares de pessoas, que circulavam nas suas ruas, entravam nas centenas de lojas de porta aberta, funileiros, albardeiros, tabernas, farmácias, drogarias, cafés, mercearias, lojas de tecidos, sapatarias, ferragens, floristas, venda de impressos selados, ferreiros, padarias, carvoeiros, tipografias alfaiates, chapeleiros, papelarias, segeiros, ferreiros, Mas, fora esses dias de mercado, os apitos das fábricas da Nery, Fiação e Tecidos, dos Lourenços, do Réquio, das serrações de madeira, das oficinas e garagens de reparação de automóveis, marcavam o ritmo do dia do trabalho, a ganga operária enchia as ruas, os Claras e as suas oficinas os Correios e Telecomunicações, onde se misturavam os bibes das escolas primárias, ainda ao Salvador, mais tarde nas Tufeiras, junto à Escola Industrial, ou o colégio feminino de Santa Maria , que o controlo religioso não impediu os namoricos e casamentos de então, eram o motor dum quotidiano devida dura, porque a ditadura salazarista e marcelista esganavam a liberdade e os direitos cívicos. A vila de Torres Novas, mau grado a vida policiada, era um mundo onde os seres humanos se conheciam, as ruas tinham um sentido de bairro solidário, as diferenças sociais anulavam-se no Zé da Ana , no Portugal, no Valeriano, no Central, mais tarde na redemocratizada e politizada Abidis, no Muxima, no bilhar e café do Vítor Pinto, na Império, na esplanada do João Virola, na taberna do Zé Ruço, na do Zé Mulato, na do Botas. As colectividades, por sua vez, policiadas e suspeitas para um poder que tudo controlava, viviam das suas posses e dos seus carolas.Mas a vila do século XX era um organismo vivo.Comparar com aquilo a que chegámos, este protectorado de uma Europa da finança e da especulação, com governantes a ver se se safam e políticos a fazerem fortuna à custa do Poder, com os centros urbanos destruídos e abandonados ao assalto violento, sem polícia de proximidade, a quem se paga a reclamação e a queixa e a indiferença, as ruas sem um único espaço livre de veículos, onde os moradores sem garagens nos prédios que alugaram ou adquiriram por empréstimo bancário, perderam os direitos de mobilidade garantida, com uma fauna estranha nas noites, pela insegurança da circulação pedonal, do assalto, do roubo, da vida em risco, elimina de vez a intensa vida nocturna da antiga vila, com cafés cheios até às duas da manhã e grupos de jovens circulando a vila e a avenida com a sua imaginação e irreverência, após o encerramento dos locais mais duráveis, como o do Valeriano. Outro tempo, na vila, é certo. Mas cheias de trabalho, de produção, de comércio, de produção agrícola, de vida colectiva, de gente que tanto se entregava ao bairrismo futebolista, às festas dos santos populares populares dos seus bairros, ao voluntariado cívico das suas colectividades e associações.Anos depois, com o Mercado Comum e a política do centrão, Torres Novas (e não só, infelizmente. O país embarcou numa viagem suicida com timoneiros mais ávidos que conscientes, mais gananciosos que patriotas) mudou noutra coisa, a que chamo um centro comercial. Tudo, indústria, comércio, agricultura, com a excepção da Renova e outras de menos fôlego, foram substituídos pelos centros comerciais do Belmiro de Azevedo, do Intermarché, do Pingo Doce, do Lidl, do Altri, do Stokhouse do Mateus, da Agriloja. Fecharam-se as escolas e os centros de saúde das freguesias rurais, esvaziou-se o Hospital Distrital de Torres Novas, a favor de hospitais sem raízes, como os de Abrantes e os de Tomar, mas com políticos dos partidos do centrão a mexerem os cordelinhos para a sua possível transformação em hospital privado. Perderam-se as telecomunicações e o centro rodoviário. Não é bem um Tsunami, mas sinto que, hoje, Torres Novas entrou em implosão, desde o ensino à cultura, da autonomia das freguesias, às feiras que foram morrendo, como agora se fala da Nacional dos Frutos Secos. As pessoas foram perdendo o emprego e vão definhando silenciosas, encostadas ao apoio familiar, à solidariedade social, à negação do direito à dignidade da existência. Os eucaliptais destroem e secam tudo onde se instalam. Nos campos, como na vida política, ou social. Não há nenhuma colectividade, nenhum organismo, nenhuma instituição, nenhum sindicato, nenhuma associação, que não esteja em dificuldade e cada vez mais angustiada e revoltada. Os próprios partidos políticos, se quiserem ser honestos, assumirão que convencem cada vez menos – e são tão fundamentais à democracia…A geração à rasca veio lembrar à minha geração, a outras que, bem menos idealistas e mais materialistas, lhe sucederam e assumiram o poder, que o país está à rasca e não podem ser os mesmos de sempre a pagar a crise, enquanto outros abrem estradas quase privativas e de interesse público duvidoso, ou sonham com resorts de turismo em zonas de protecção natural e ambiental classificdas, para objectivos pouco explicados. Pôr à discussão pública um projecto sem condições de ser aprovado, que significa Só ainda se não lembraram de defender um plano nuclear e colocar uma central nalguma das quintas antigas do concelho, a favor de qualquer BPN que entre com as massas da propaganda…

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