SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 09:55

Crescimento significa Desenvolvimento? Ou é a Qualidade de Vida – 2

 

Quando, no último artigo, intitulei Torres Novas mudaram, o plural referia-se às várias Torres Novas que, ao longo dos séculos, foram estruturando o concelho que hoje somos. Partia dum texto do escritor italiano Italo Calvino, da sua obra Cidades Invisíveis, que define muito do que entendo, em História, por mudança.: «E nem pensem em dizer-lhes que por vezes se sucedem cidades sobre o mesmo chão e o mesmo nome, nascem e morrem sem se terem conhecido, incomunicáveis entre si. Às vezes até o nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os delineantes dos rostos, mas os deuses que habitam debaixo dos nomes e sobre os locais partiram sem dizer nada a ninguém e no seu lugar aninham-se deuses estranhos. É inútil interrogarmo-nos se estes são melhores ou piores que os antigos, dado que não existe entre eles nenhuma relação, tal como os velhos postais não representam Marília como era, mas sim outra cidade que por acaso se chamava Marília». Se substituirmos Marília por Torres Novas, melhor se compreende quanto a mudança implanta uma nova realidade, que pouco ou nada guarda doutras realidades que já existiram e foram, nas suas épocas, concelhos com objectivos e estruturas marcantes. Não há identificação possível entre a Torres Novas medieval e a do ressurgimento centralizador do período Manuelino, que irá perdurar até ao Pombalismo. Ou a que, a partir de Pombal, continua pelas invasões francesas e, no século seguinte, pela difusão do liberalismo, numa primeira fase, a partir de 1820, numa segunda, após a derrota do Miguelismo, termina em 1834. Uma outra se irá equacionar, durante o século XIX, que durará, mesmo mudando do regime monárquico para o republicano, até à Ditadura saída da Constituição do Estado Novo em 1934. A Torres Novas que se estruturou, durante o período salazarista e marcelista, até Abril de 1974, desagrega-se com a revolução e o ressurgimento da vida democrática, mas só muda por completo numa outra realidade com o ingresso de Portugal na Comunidade Europeia, em 1986,que é aquela em que actualmente vivemos. E isto situando-nos só na carta de foral de D. Sancho I, a 1 de Outubro de 1190.

 

Não estranho, por isso, que muitos dos que, regressando, após um afastamento de dezenas de anos, digam que Torres Novas mudou. Mas qual? A que abandonaram há muitos anos ou esta, em que nunca viveram? Estas afirmações assentam, quase sempre, na impressão visual: a dilatação espacial do cimento, do vidro, do alcatrão, que galgando o Almonda, se disseminou pelas Tufeiras e Silvã até às Lapas; e no sentido sul – sudeste – sudoeste, galgou as Chãs, abocanhou a Arrábida, Santo António, o Cerejal, a Quinta do Melo e zonas limítrofes. O mundo paradisíaco da comunidade europeia, à custa dos empréstimos dos fundos comunitários, do europeísmo de Mário Soares ao pedinte Sócrates, em obediência à ordem da prestação de contas da germânica Merckl.

 

Mas, nesta, a Torres Novas da CEE, o que mudou, de facto? O mundo das freguesias rurais? Em dezenas de anos ganharam alcatrão, canalização de água, esgotos algumas. Mas, que aconteceu à agricultura, aos cereais, ao olival, ao figueiral, à vinha, aos produtos hortícolas, à criação de gado ovino e caprino, bovino e cavalar, à produção de carne, de leite, de forragens? Que aconteceu à sua demografia, à sua população mais jovem, à fixação de casais, aos índices de natalidade? Às suas colectividades (na década de oitenta chegaram a ser mais de 120 activas), às suas festas tradicionais, às suas sociedades de lazer, convívio, cultura, aos ranchos folclóricos e bandas musicais? Às suas escolas, aos seus professores, às suas crianças?

 

Aos defensores dos Centro Escolares, que, por razões exclusivamente economicistas, unificam o que é multissecularmente contrastante, com características próprias e individualizadas, destruindo escolas por quem as populações e as juntas de paróquia lutaram para a sua criação no século XIX, em nome duma pedagogia que ignora, pela hiperinflacção do consumismo de mercado e do parasitismo terciário, a ligação do humano ao meio, lembro o que Ramiro Marques escreveu no seu Problog : «sei que as DRES (Direcções Regionais de Educação) estão a pressionar as autarquias, oferecendo-lhes, em troca a construção de grandes centros escolares e não há um único edil que não seja viciado em obras e inaugurações. Por isso, poucos resistem ao processo de sedução, embora saibam que o fecho das escolas de proximidade conta quase sempre com a oposição dos eleitores das aldeias e vilas. Mas como são poucos comparados com os que vivem nos seus concelhos…».  Que farão a estes centros escolares, quando a diminuição populacional, por abandono e emigração das jovens gerações, os atingir? O que fizeram e fazem às escolas de proximidade e aos centros de saúde das freguesias… Seria impossível, hoje, a carta que os professores do concelho escreveram ao poder autárquico de 1891, quando a descentralização do ensino básico foi, por incompetência da maioria das câmaras portuguesas, novamente centralizado. A de Torres Novas, pelo que se lê, foi na época, uma honrosa excepção. Como é longo o texto, e o espaço de que disponho, curto, limito-me a um breve extracto: «a Camara do Concelho de Torres Novas, conscia da missão civilizadora que ao professorado incumbe, e desejosa de promover a diffusão da instrucção pelos que d’ella mais carecem, soube […] corresponder brilhantemente aos fins que inspiraram a publicação d’aquelles diplomas. Durante este período (1878 -1892), no concelho de Torres Novas, criaram-se escolas em povoações ainda nas de pequena importância; melhoraram-se, segundo o espírito da lei, as condições do professorado e pagaram-se-lhe integral e pontualmente todos vencimentos a que tinha direito.»- Actas Camarárias, Lº. 238, 28 de Julho de 1892, pp.21/21 v.

 

Impossível, os professores coevos escreverem carta similar à autarquia actual! Mudanças no concelho? Voltaremos ao tema.

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