SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:26

Torres Novas mudaram? O que significa mudar? (1)

 

Diz-se que Torres Novas mudou. Está à vista.

 

Mas, para um curioso da sua história, de que mudanças se fala? Das estruturais ou as do curto prazo? Das que são fruto da acção das sociedades no tempo, ou das que resultam da intervenção individual moldando as estruturas à sua imagem e semelhança? Falo no plural, de mudanças, porque as transformações não são apenas físicas, mas económicas, sociais, religiosas, educativas, culturais, em suma, criadoras duma nova mentalidade e duma diversa forma de equacionar o que mudou no mundo, pequeno ou grande, em que vivemos, e o que mudou em nós como produtores ou sofredores dessa mesma mudança.

 

Sou um cidadão do tempo da censura, da perseguição politica, do antes da liberdade. Duma época em que era difícil, nos cafés, nas escolas, nas fábricas, nas colectividades, nos próprios lares, dialogar sobre o simples direito à dignidade da vida humana. Não ignoro, nem desconheço, local e nacionalmente, os nomes dos que usaram o poder para suprimir o direito de outrem. Chama-se a isto uma memória ferida, mas é algo de que hoje se teme e se procura distorcer, diluir, simplesmente eliminar: uma memória.

 

Abril, ao recolocar neste país, em 1974, no prato da balança a liberdade como um direito cívico da cidadania, abriu caminhos a mudanças até então inverosímeis. Dizer que a Coca Cola era uma bebida proibida no Continente – mas não nas colónias de Angola ou Moçambique – pela sua perigosidade como estupefaciente, será difícil de acreditar por qualquer pessoa, essencialmente pelos jovens que a utilizam diariamente.

 

Mas era verdade e, hoje, é uma marca da mudança da mentalidade social. Melhor? Passou-se dos orgulhosamente sós a colonizados da sociedade consumista americana: a Coca-cola, os Jeans, as Levis, a pastilha elástica, os Mac Donalds.

 

Falar do Zé da Ana, do Portugal, do Valeriano, do Central, do Muxima,  do Marujo, da Abidis, é ir às gavetas do tempo buscar as velhas fotografias duma vila com outros nomes, outras relações, outro tempo de existência. Recordava o poeta Mário Cesariny que era um sobrevivente à destruição da sua antiga cidade de Lisboa; que esta Lisboa já nada tinha com o seu percurso individual e colectivo.

 

Compreendo-o, mas discordo. O novo e o velho não existem. São apenas perspectivas no tempo. O que hoje é novo, dentro de duas ou três gerações, deixou de existir como tal, no confronto com outras mudanças. Porque há uma, essencial, que marca todo este tempo de automação e desenvolvimento científico e tecnológico: a aceleração do tempo. O que ontem era construído para durar, deu lugar à exigência da não duração. Do penteado à casa, do vestuário ao automóvel, do emprego ao padrão da ascensão social, só o que muda, só quem muda, impressiona, prevalece, se impõe como estímulo e exemplo social a seguir. Como a vida é curta e a fama pouco duradoura, a memória é prejudicial. A aparência apaga a realidade, o mundo virtual dos media e redes sociais substituem e marginalizam o convívio, o contacto social, o diálogo e o debate, e manipulam a informação.

 

Quando escrevo que a política concelhia dos últimos quinze anos transformou Torres Novas num centro comercial, não estou a dizer que o passado era melhor ou pior que o presente, só diferente. Mas constato que o conceito público e gratuito – a praça, a rua – se transformou numa mercadoria.

Bastam as taxas que o Executivo Municipal aprovou e a Assembleia ratificou para o comprovar. Basta inquirir o que se entende por estacionamento na cidade e o que se pretende no futuro para se ter de confrontar o direito privado de ordenação viária com o direito público da cidadania. Se se aplicar o estacionamento pago em tudo o que é sítio e os munícipes deixarem de utilizar os seus veículos particulares, os transportes públicos concelhios respondem às necessidades dos diversos centros da cidade, marcados pelas escolas, o centro de saúde, o hospital, as média superfícies, a banca, os locais de emprego, de desporto e lazer, a relação cidade – freguesias rurais?

Outrora, o antigo campo de futebol, não tinha condições estruturais – porque o não quiseram – de estacionamento, mas estacionava-se e era gratuito. Hoje a Construtora do Lena aí instalou um estacionamento, que irá ser concessionado e pago. A mudança é para melhor? Todo o antigo Rocio de S. Gregório, hoje Largo das Forças Armadas, o espaço da antiga Vila Pinho, Comandante Ilharco e adjacentes, o largo do Virgínia e ruas circundantes, a zona leste da Avenida Municipal, foram ocupadas – porque a Escola Prática da Polícia não cede os seus espaços aos seus instruendos – pelos transportes dos futuros agentes da autoridade. Conclusão: o Executivo Camarário não conseguiu resolver o problema com o Ministério da Administração Interna, os munícipes torrejanos ficaram, de segunda a sexta, nesses locais, sem locais públicos de estacionamento.

 

Que lhes oferece, em troca dos seus impostos, a autarquia: um novo imposto indirecto, agora sobre o estacionamento do seu veículo. Será que irá obrigar a fazer garagens aos proprietários das casas e apartamentos aí existentes, a quem foram permitidos construções sem parqueamentos ou garagens?

 

Esta é uma das mudanças anunciadas para a cidade de Torres Novas.

 

Outra, em desenvolvimento, a dos agrupamentos escolares e das novas instalações. Para que futuro de freguesias rurais a caminho da ausência de jovens, de postos médicos, de infraestruturas, mas cheias de casas abandonadas, ruínas, habitantes envelhecidos, produção agrícola e pecuária abandonadas?

 

A cidade mudou. Como tudo.

 

Eu tenho saudades, sem ser passadista, de muito do que existiu e foi morrendo na minha vila. Era mais estreita, menos abandonada, mas mais quente e mais humana. Era uma sociedade de pessoas, não um mercado de frustrações.

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