SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:17

Um Certo Mal Estar

 

Talvez seja só desilusão, talvez o peso do passado a entravar o salto em frente, ou talvez pressinta o discurso fatalista dum amigo d’antanho, «somos cada vez menos, já partiram tantos companheiros, começa a rarefazer-se a cartilha do convívio». O certo é que o futuro se reflecte cada vez mais no recuo da memória.

 

Deixamos de nos preocupar individualmente com a demografia mundial, europeia e nacional de 2030, e só especulativamente integramos nessa data os nomes dos filhos, os nossos e os dos amigos, tentando ignorar a possibilidade velhaca dos políticos jovens que nos enchem os ecrãs, que hoje nos dão cabo da paciência, ainda por cá, infelizmente, andarão a verrinar a dos então cidadãos, se estes não os tratarem como os egípcios a Mubarak, no Cairo.

 

Acredito que a pátria portuguesa, nas próximas décadas, irá ser muito diferente sem o Sócrates, o Lacão, o Passos Coelho, o Paulo Portas, o Mário Soares, o Cavaco Silva, o Almeida Santos, o Marcelo Rebelo de Sousa, essas notoriedades que vieram connosco duma passado de ditadura e assumiram os poderes do Estado e as chaves das portas dos benefícios. Ficarem por cá, sem nós, num futuro que, espero, seja mais transparente, seria imoral e indecente, ainda que tanta fortuna feita à custa da governação política de qualquer tipo, pode melhorar, com o concurso das novas tecnologias, a esperança das suas vidas.

 

Espero, por isso, que a política das próximas décadas comece a tornar-se adulta e assente no direito da intervenção directa e participativa do cidadão no governo da cidade, não só na escolha dos governantes, mas no seu controlo e fiscalização quotidianos. Os Medias mudarão, a informação, a denúncia, correrão em facebooks, em twitters mais modernos e mais fáceis e acessíveis. Não será tão fácil o endividamento da falcatruagem, a corrupção, o enriquecimento ilícito, nem a prorrogação do término de obras com contratos assinados e que depois se ajustam a prolongamento de prazos e reformas de orçamentos, sem que, hoje, alguém venha clamar que o rei vai nu. Se o fizessem, de Norte a Sul deste país o nudismo político transformar-se-ia no costume vezeiro, seria uma imoralidade tanto governante obrigado a despir a tanga ante a última conhecida negociata dos prazos, dos custos e das percentagens.

 

Espero que esse seja um tempo em que se não corte a água, a luz, o gás, a um cidadão, por não conseguir pagar de modo atempado a factura, enquanto se continuam a prolongar os prazos das empresas a construir, por exemplo parques de estacionamento, a serem-lhes facultados novos prazos e perdão de aplicação de multa, e o cidadão a ser multado e a cortarem-lhe as fontes elementares também por incumprimento. É um dilema do nosso tempo, quem rouba um pão é ladrão e é amesquinhado e vai para a prisão, quem rouba um milhão é político, com direito a comenda no dia da Pátria, com a bênção do poder e da justiça. Daqui a trinta anos, esperemos que haja melhoras…

 

A Tunísia, O Egipto, O Iémen, entre outros, são apenas exemplos de como se pode saltar, no mundo árabe, da Idade Média para o século XXI, sob a influência da nova ordem informativa. Os computadores, os telemóveis, as redes sociais, abrem fendas no tecido das estruturas contemporâneas: políticas, económicas, sociais, mentais.

 

Sabe-se como os movimentos de contestação política fraquejam sempre por, a certa altura, o poder da revolta cidadã, passar a ser controlada pelos partidos políticos. A emoção, o sangue derramado, o corpo dado ao manifesto, a exigência de democracia, falham, quando há necessidade dum interlocutor para a defesa das mudanças sentidas como necessárias. Nos bastidores a cola é outra. As influências internacionais e nacionais começam, desde o surto de ira, a preparar os arranjinhos de controlo da mudança. O perigo que todas as forças temem é que o poder caia na rua., dela irrompa uma nova ordem, uma nova estrutura, um novo poder que perturbe a sacrossanta hierarquia dos Estados Contemporâneos. A diferença entre a praça Tahrir e os gabinetes dos diplomatas reside na tentativa de, para estes, se mudar muito pouco, só a aparência veste outro fato.

 

Mas não só no mundo árabe se prenunciam mudanças. A Europa, Os EUA, a Rússia, A China, os países emergentes, abriram a caixa de Pandora: democratizando o conhecimento, massificaram as tecnologias. O desemprego mundial mudou de desempregado. Maioritariamente, a máquina, cada vez mais perfeita, cada vez mais automatizada, prescinde do seu criador e, um dia, pode vir a tentar substitui-lo. O que ontem era ficção científica, amanhã pode ser realidade. Hoje, os sinais já são preocupantes. Cada vez mais jovens chegam às universidades, cada vez mais licenciados, mestrados e doutorados chegam ao desemprego. Não passarão muitas décadas que se imponham mudanças, talvez brutais, nestas sociedades tecnológicas, tão impreparados para as consequências do desenvolvimento competitivo, tão insensíveis aos direitos dos seres humanos.

 

É só uma certa desilusão. Mas ter feito parte duma geração que se deslumbrou seriamente para acabar com o fascismo salazarista e marcelista, e após a reinvenção da liberdade, em nome da democracia., ter fomentado tanta injustiça, aceite tanta desonestidade e oportunismo, calado os custos sociais, e os da desigualdade, custa muito a engolir, ainda mais por ver o sombrio caminho que se deixa, como herança, às novas gerações. E fica-se com a ideia de se pertencer a uma geração que envergonhou o seu papel na mudança que representou Abril de 1974.

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