SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 26 Setembro 2020, 18:49

A minha posição

 

Em crónica anterior, chamei a atenção para a abstenção, que pensava, atento aos problemas do país e à grave crise económica em que o mesmo foi mergulhado pelos políticos que, da esquerda à direita, se preocupam mais com os seus interesses partidários do que com a realidade nacional, ser a que, percentualmente, ganharia as eleições. A realidade demonstrou-me que não estava errado.

 

Em segundo lugar, revelou-se-me a vitória clara de Cavaco Silva, quando, na sua visita eleitoralista ao CRIT de Torres Novas, dois eleitos pelo partido socialista – o presidente e o vice-presidente da Câmara de Torres Novas – lá estavam para o saudar e elogiar… Conhecendo a “singeleza” do primeiro, e a “pública ambiguidade” do segundo, ambos sempre com posições conhecidas ao lado dos vencedores, fiquei esclarecido, mesmo sem ter a ajuda preciosa do candidato Coelho da Madeira, que, com poucas palavras e muita imagem simbólica, contribuiu para o desfazer de muitos mitos de pretensa honestidade de candidatos que nunca se enganam e são duplamente mais honestos do que todo o mundo, de quem seria o futuro presidente da República Portuguesa para os próximos cinco anos. Previsão que se veio também a tornar correcta.

 

Os resultados eleitorais, se me deixaram perplexo – nunca pensei que a abstenção prejudicasse mais a esquerda do que a direita –, esclareceram-me um problema, que vem de antes do 25 de Abril, nas eleições em que CEUD e CDE mostraram que seriam inconciliáveis dois projectos de esquerda, um social-democrata, outro, na altura, de influência maioritária comunista, cuja cisão conduziu ao 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975 e 25 de Novembro do mesmo ano, e ,hoje, aos quatro candidatos anti-Cavaco (?) e à corrupta e abandalhada democracia a que chegámos.

 

O imbróglio do futuro deste país assenta, creio, em três vias distintas: em muitas esquerdas que nunca se uniram, desde 1969 e 1973, e que demonstraram uma acção medíocre de mobilização, com diversos candidatos lançados para o palco da desunião, por projectos muito transparentes de ambições, vaidades, ou divisões muito claras; um centro-direita que, desde o 11 de Setembro de Spínola, nunca mais se dividiu, para além das nuances da direita e um pouco mais à direita, na divisão e partilha dos bens nacionais; e uma maioria de moradores num país a quem a cidadania diz pouco; vão do nascimento à morte sem outro objectivo que o consumismo, a aparência, a pretensa indiferença. Tirem-lhe o direito à prestação da compra da casa, do automóvel, do crédito para tudo e nada, da possibilidade de se passearem nos centros comerciais e hipermercados, de verem as telenovelas diárias da lavagem ao cérebro nos media televisivos, de serem os devotos da nova religião da sociedade de consumo, e logo verão como o seu desejo sebastianista dum paizinho protector e que resolva a crise, sem lhes fazer grande mossa, se desvanece, e as suas reivindicações dos bens materiais deitarão abaixo qualquer noção de identidade nacional ou de futuro europeu.

 

É um caminho sinuoso, labiríntico, para o qual não entrevejo fáceis soluções, Só com uma outra consciência de cidadania activa, que não se antevê num futuro próximo, Portugal conseguirá o que nunca teve ou foi: um país decididamente democrático. Exige rupturas profundas nas estruturas sociais, políticas e económicas, que não se prevêem com os actores da nossa actual vida política.

Fui um dos apoiantes concelhios de Manuel Alegre e assumo a derrota – mais uma – de quem, à esquerda, mas independente de todos os partidos de esquerda, defende há muito a reformulação dos mesmos para uma complexa, mas possível, unidade política. Estou cansado de dirigentes partidários que saem sempre vitoriosos de todas as derrotas, como dos que nunca são derrotados, porque estão sempre do lado dos vitoriosos, já que, na prática, o seu cartão partidário muda com a cor dos interesses pessoais. Isto, a nível nacional, ou local. No salve-se quem puder da selva em que se vive, há que reflectir com seriedade, não só o que nos trouxe a este pântano, mas as alternativas para se sair daquele.

 

.Os 52,91 % de Cavaco Silva não derrotam a maior abstenção de sempre, nem passam uma esponja sobre os seus silêncios sobre o seu património, nem as suas opções, legais, mas não éticas, por um vencimento que não seja o da presidência da República. O segundo mandato não lhe será muito fácil, se mantiver parte da sua vida na ambiguidade das suas pretéritas opções. Refiro-me, claro, às suas relações com as figuras tenebrosas do BPN que, não duvido, ficaram por explicar. Afirma-se presidente de todos os portugueses. Só tenho e vivo duma reforma. Tenho o direito de discordar da sua opção,, como vem na imprensa, pelas duas reformas, do Banco de Portugal e da de professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa, em detrimento do vencimento de presidente da República., por ser inferior às duas juntas. Na minha opinião, é uma opção reveladora de como o conceito de serviço público de primeiro magistrado da nação se deixou subverter pelo interesse material. Quanto à sua futura presidência – embora não tenha ilusões – desejo-lhe felicidades, no seu compromisso de ser o presidente de todos os portugueses.

 

Continuarei a combater, enquanto viver, pelo que acredito – uma maior justiça social, uma cidadania mais transparente, activa e democrática, um país digno.

 

antoniomarior45@gmail.com

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