SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:18

2011 – 20 + 11 – Que grande 31 em perspectiva.

 

Juntar família e consumismo na festa natalícia entrou na rotina do povo empregado português, que ainda não interiorizou que a crise económica veio para durar. O mundo da razão troca-se facilmente pelo mundo da ilusão. Se não se come cabrito, assam-se umas febras e algum entrecosto. Se o bacalhau se transformou num objecto de luxo, a alternativa está no polvo cozido ou num arroz de amêijoa vietnamita. Se não se pode comprar garrafas de vinho de alta qualidade, compra-se tinto ou branco de pacote. A doçaria, mesmo com a pseudo crise açucareira dos açambarcadores em época de coscorões, rabanadas, velhozes, sonhos, fatias paridas, arroz doce, bolo rei, compra-se menos, mas puxa-se pelas meninges e as revistas de culinária saem das gavetas e a farinha, ovos, açúcar, mel, nozes, um mundo de iguarias, surgem e o calor humano da festa da família afasta para os noticiários televisivos o sufoco da crise e o medo do futuro.

 

Marcelo Rebelo de Sousa emp®esta há dezenas de anos as suas inteligentes lucubrações políticas de senhor professor universitário, sem contraditório, numa encenação repetida em vários canais, relembrando os mestres das sebentas das escolas medievais, para uso interno e muita atenção dos políticos. O povo substitui-o por uma jogatanazita de futebol ou a Casa dos Segredos, ou uma coscuvilhice rafeira, com anedotas sobre o Sócrates, as pandilhas partidárias, ou sobre os candidatos a Presidentes da República cujos debates, de tão requentados, só fazem sono. Que falta faz não concorrer o Alberto João Jardim, com a sua truculência e excomunhão dos continentais! Assim, com esta monotonia de gente bem instalada a tratar da pobreza dos outros, só se prenuncia uma profunda abstenção vingativa dum povo farto de gente muito preocupada com os seus inevitáveis sacrifícios, mas que não fazem sacrifício nenhum a não ser nas boas e compungidas intenções de paleio.

 

O dinheiro do cidadão nacional não é muito, é cada vez menos num cada mês mais longo, já com aviso do fisco que lhe vai ao bolso em nome da pátria. Na minha infância só havia uma, com bandeira, hino e território. Quando me tornei adulto, descobri que a pátria do Belmiro de Azevedo, da família Mello, do Mário Soares, não coincidia, como ainda hoje, com a minha. Vim a perceber que as pátrias são como as Matrioskas russas. Enfiadas umas nas outras, cada uma é uma pátria com regras e poder diferente. A deles, mais do que a minha. A minha, mais do que a de muitos cidadãos.

 

Talvez pela consciência das diferenças, os subsídios de Natal (dos que o recebem) gastam-se na ilusão, e pouco ou nenhum pilim entra nos bancos lusos, cujo crédito desceu aos infernos com os privilégios dos seus gestores e dos empréstimos para os especuladores e depósitos nos offshores da lavagem do dinheiro dos negócios da droga, prostituição, comércio de armas, tráfico de seres humanos.

 

O cidadão normal pensa que, entre quem paga um crédito aos depositantes a pouco mais de um por cento e empresta a vinte e mais, vale mais ir às promoções e aos hipermercados e gastar tudo numa roupa mais quente para o Inverno, ou nalguns objectos desnecessários, mas que a televisão do Estado (e as outras, claro), publicitam ao preço da chuva. Antes para a família do que para os administradores da Banca. E, se bem o pensam, logo o fazem. Gastam-no como se fosse o último dia, já que, se o maldito dia depois vem inevitavelmente, porque não o esperar com um manguito cínico, como os gladiadores em Roma no célebre cumprimento ao imperador, na arena da imortalidade ou da morte; ave, César, os que vão morrer te saúdam.

 

É um povo sereno, gritava em 1975, o almirante Pinheiro de Azevedo, numa das janelas do Terreiro do Paço. É um povo cordato, cantarola o senhor professor Marcelo, no programa prefabricado da TVI. Mas há sempre uma primeira vez e depois é que são elas, embora o nosso primeiro Pinóquio, perdão, Sócrates, mesmo no Natal, nos venha com o seu optimismo que lembra os três macacos, tapando em simultâneo os ouvidos, os olhos e a boca, às realidades de toda uma Europa que começa a perceber que a sua ideia de Centro do Mundo era uma ideia de exploração económica do Resto do Mundo. E verifica que o mundo não tem centro, é redondo, demasiado poluído, e que chateado à bruta com uma humanidade que o perfura, intoxica, envenena, desmembra, começa por sua vez a vingar-se, com tempestades, ciclones, inundações, maremotos, gelos repentinos, subida dos oceanos, terramotos. Mas entre o consumo e a destruição do planeta, o agiota só vê a conta bancária e todos os meios ilícitos para a aumentar. E como os países já só são governados por simples marionetas que os bonecreiros dos mercados movem a seu bel-prazer, a crise viaja dum lado para o outro mais rápida que os horóscopos da MAYA, e a Europa arrisca-se a um recuo civilizacional com tudo o que a ganância acarreta.

 

2011 é no fim de semana e os astrólogos economistas prevêem que a escassez vai durar por muito e muitos anos. Sete anos de vacas magras, depois de tanta folia gorda, são sempre um mau prenúncio. E geralmente, já o ditado cita: quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão.

Vai ser um ano – um dos muitos que aí vêm – muito duro. Prepare-se. E divirta-se, enquanto pode.

 

antoniomario45@gmail.com

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