SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 26 Setembro 2020, 19:06

É um fartar, vilanagem!

 

Aprovado o Orçamento Geral do Estado, os crentes na bondade e excelência do liberalismo aguardavam que «os mercados» descessem a fasquia da taxa de juro e Portugal aliviasse um pouco o torniquete com que os governos do PSD e do PS, desde a adesão do país ao Euro, nos foram habilidosamente espremendo, através dum euro milhões que nos tinha saído, com a ajuda dos países mais industrializados do centro europeu. A fartura do crédito que, diariamente, encheu os cofres do Estado e a Banca, iludiu de tal forma a sociedade lusa, que, dum momento para o outro, arranjara forma fácil de se assumir como classe média. Adquirir casa, carro, mobiliário, telemóveis, roupas, férias, tratamentos de beleza, ginásios, restaurantes, a troco de crédito fácil e a prestações, foi a opção colectiva duma sociedade inebriada por uma classe política, que a fim de se engavinharem e manterem parasitariamente no poder, lhe mostravam que o dia de amanhã seria sempre um dia de sol.

 

O problema é que a realidade ia contraditando esta paraíso, que, em cada mês, em cada ano, lhes ia colocando sobre os ombros as grilhetas da escravatura consumista, com a balança do deve a aumentar e a do haver a diminuir, devido ao crescimento sucessivo, sistemático, dos preços de todos os bens, essenciais, secundários, sumptuários, artificiais, inúteis e o sufoco crescente das prestações mensais, cada vez mais numerosas, originando dificuldades de pagamento atempado

A sociedade material que os media publicitava – e ainda hoje o fazem: veja-se que tipo de publicidade nos é oferecida nos canais televisivos ou da imprensa – como o paraíso na Terra foi dando lugar aos primeiros avisos, quando começaram os credores a exigir o cumprimento da dívida. A banca ao cidadão e às empresas, as empresas às autarquias, os mercados especulativos ao governo. O dinheiro não chegava para tudo. A electricidade, o gás, a água, o pagamento ao banco, ao stand de automóveis, à loja comercial, das prestações dos telemóveis, dos televisores de ultima banda, da Internet, a prestação do colégio particular por que se optou para a educação dos filhos, o preço absolutamente escandaloso dos manuais escolares, muita coisa mais que daria para encher, em letra minúscula, páginas e páginas deste jornal, começaram, numa primeira fase, a eliminar no essencial, a alimentação, no secundário, mais visível, os gastos na saúde, na educação, na aquisição de bens . Se o  crédito malparado obrigava à entrega das casas, dos carros, da aparelhagem estereofónica, a diminuição do consumo levou o pequeno e médio comércio ao despedimento, à falência, ao encerramento..A  banca às restrições do crédito. O governo ao aumento sistemático da dívida pública. O país, finalmente, ao espelho da realidade: a falência dum sistema económico e social, baseado na desigualdade, na privatização, no consumismo, no crédito, na exploração do trabalho.

 

Mas, a importância da aparência numa sociedade material não pode ser descurada, porque é nela que se enraíza o valor, o respeito, a credibilidade, o prestígio, o reconhecimento sociais. Os governos, nacionais ou autárquicos, como as propostas dos partidos políticos representantes da mentalidade da classe média, sempre assentaram os seus programas na promoção e a publicitação da aparência social. Daí que a estrutura do desenvolvimento, já em democracia, não tenha, com a entrada na comunidade europeia, as suas bases na educação, na melhoria das condições de saúde dum país, na criação de emprego, no desenvolvimento da produção, mas sim no que é mais ostenta tório, mais visível, mas também mais indispensável: a criação duma sociedade em que o sector terciário engordou, tuberculizando o primário e o secundário, e onde o mundo urbano suicidou o mundo rural.

 

Em suma, as cidades crescem em torres e problemas ambientais, ruído, poluição, os serviços alastram como uma epidemia, por todas as ruas, oferecendo o que não é prioritário, necessário, enquanto os bens essenciais deixaram de ser produzidos, substituídos que foram pelas importações do capitalismo monopolista, que por sua vez, com sedes e tentáculos de fuga ao fisco em paraísos fiscais, os adquirem, a preços de saldo, nos mercados de sobrevivência da Ásia, África, América Central e do Sul e os revendem a preços especulativos aos seus concidadãos.

 

Metidos numa camisa de onze varas por governos controlados e dominados pelo poder financeiro, as medidas aprovadas no Orçamento Geral de Estado só vêm contribuir para a degradação da vida colectiva, o aumento do desemprego, a subida de impostos pelo governo e dos preços dos produtos essenciais – agua, luz, electricidade, gás, petróleo, gasolina – pelas empresas monopolistas com capitais públicos, a degradação da forma de vida colectiva, muito próxima, para a grande maioria da população, das condições mínimas da sobrevivência.

 

Tudo, mas tudo, do pão ao sabonete, do leite ao bilhete de autocarro, das taxas municipais ao pastel de bacalhau, irão pesar cada vez mais, no próximo(s) ano(s), na economia doméstica, ante a ameaça dum país vendido a retalho a a grosso à China, a Angola, ao mundo islâmico, sob a pressão ameaçadora da senhora Merkl e do mundo conservador liberal europeu, para. nos expulsarem  do seu  paraíso comunitário, com o apoio e a total incapacidade dum poder político submisso a quem verdadeiramente manda em Portugal – os donos da massa.

antoniomario45@gmail.com

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