SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 26 Setembro 2020, 19:58

Quando a fartura é muita o pobre desconfia

 

Os dois jornais de referência local noticiaram, na semana que findou, com maior ou menor desenvolvimento, a aprovação de 58 milhões de euros em investimentos comunitários para o concelho de Torres Novas. Não vem ao caso os projectos em que vão ser aplicados, qual a intervenção neles das forças vivas da cidade, da Assembleia Municipal, juntas de freguesia. Serão sempre mais uma pérola da coroa do presidente, que não permite a nenhum vereador socialista autonomia suficiente para dar uma entrevista, participar num debate, vir explicar a uma população cada vez mais indiferente, o que se passa com os seus pelouros.

 

 Há anos, interessou-me um assunto, o PDM. Ainda não foi aprovado o sucessor, a maioria da gestão urbanística da cidade e do concelho têm sido feitas, por António Rodrigues, sem que ninguém ponha dúvidas ou interrogações sobre a legitimidade, assente num vazio legal, já que o anterior PDM foi suspenso por uma assembleia municipal maioritariamente socialista. Sobre que regras urbanísticas municipais assentam os planos do município? 

 

A cidade e o concelho são geridos como uma quinta, sem que as populações saibam do que se vai passando, mais do que o que é divulgado na imprensa. Buscar no site municipal algo mais do que a publicidade dos autos do autarca-mor é ser de muito boa boca, ou estar à espera do osso que lhe será distribuído com magnanimidade após o repasto autarca num desses restaurantes em que ele(s) come(m) e nós pagamos.

 

Também me não lembro de nenhuma reunião que a Junta de Freguesia a que pertenço tenha feito, aberta aos seus fregueses, para auscultar opiniões sobre os problemas da mesma.

 

Os partidos políticos, por sua vez, obedecem a regras de intervenção específicas, só em momentos de pré-campanha eleitoral criam um arremedo de prestação de contas e audição (?) das populações, mas o centralismo que a todos dirige leva-os mais a uma arte de convencimento do que a uma séria, aberta, democrática, consciente, audiência das populações. Não é fácil, reconheço-o, mas sem encontros periódicos, sistemáticos, sobre temas muito concretos do concelho, não se cria o hábito da intervenção dos seus moradores. A imagem de guetos que fica dos partidos políticos é causa da crise de mobilização e afasta cada vez mais o cidadão da intervenção política. Se, por um lado, favorece o carreirismo no interior partidário, esvazia a democracia do seu valor de formação, dinamização crítica, intervenção no quotidiano.

 

O estado a que se chegou, neste país onde, a nível da educação, sete em cada dez alunos do 6ºano de escolaridade, num universo de 116 mil estudantes, não conseguem, na prova de aferição de Português, ordenar por ordem alfabética uma lista de palavras começadas por M, apresentando «dificuldades evidentes na construção de frases, assegurando as regras da concordância e da pontuação» e na de Matemática «interpretar, resolver, pensar as soluções e explicar» são a sua muralha da China, são bem exemplificativos do desrespeito com que o carreirismo e os interesses partidários dos partidos que, maioritariamente, nos governaram nesta 3ª República, durante dezenas de anos, olharam para e educação, tão prolíferos a criar mega -agrupamentos e a desertificar o interior das suas freguesias rurais, em nome da progresso e da civilização tecnológica, da igualdade de oportunidades, quando se atiram as famílias para o desemprego, se lhes corta nos subsídios escolares, nos abonos de família, nos direitos mais importantes da dignidade humana.

 

Num país a resvalar cada vez mais para o mais profundo divórcio entre ricos e pobres, projectos de milhões, como os que o presidente da Câmara de Torres Novas veio apresentar, que irão, a prazo, aumentar o já enorme endividamento concelhio (23 milhões, segundo o presidente da Junta da Meia Via), mostra-nos um desfasamento entre o real e o imaginário, já que serão estas crianças, a quem tão pouco de futuro hoje se oferece, quem irá pagar, com juros altíssimos, estas dívidas públicas descontroladas, que a própria Conferência Episcopal Portuguesa, reunida a 11 do corrente em Fátima, veio pôr em cheque: «Lucros indevidos, meros proveitos eleitorais e resultados oportunistas não servem a recuperação nacional». No meu concelho, há cinco vereadores do PS a tempo inteiro, com acumulação de vencimento e reforma, além doutras prebendas. Serão o exemplo da ética para quem tem à sua frente um mundo de escassez e perda de direitos cada vez mais dramático, isto em nome duma dívida pública crescente, cada vez mais incapaz de ser paga, sem o endividamento externo?

 

 De facto, fica no ar a cada vez mais insistente questão: como chegámos aqui? Indissociável duma segunda, a que nenhum poder público responde: quem lucra com isto?

 

Os partidos, a imprensa, as associações, estarão interessados em ouvir os cidadãos, permitir-lhes meios e oportunidades de intervenção pública, ou continuarão a política dos cozinhados onde, como na sopa de pedra, todos os intervenientes lucram?

 

É a resposta que, local e nacionalmente, se exige cada vez mais. E se teme começar a mexer, porque o manto da fantasia vassourou para debaixo do tapete a dramática nudez da realidade.

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