SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:48

A revolta do cuspo e a inveja do outro

 

É preciso haver uma grande hecatombe para o povo que somos reagir. Depois, nunca, posto o motor em marcha, se sabe como termina. A crise económica mundial agravou a já endémica crise que nos definhava. A ilusão urbana do europeísmo de Lisboa, do norte industrial, do Algarve turístico, do crescimento das cidades baseado no cimento, alcatrão e vidro, à custa dum crédito fácil e duma dívida pública sempre galopante, à custa da teta europeia, ruiu, neste ano de 2010, como um castelo de cartas.

 

Houve vozes, de há muito, que alertaram para o descalabro, quando os primeiros empréstimos da comunidade, em vez de ser utilizados no desenvolvimento, agrícola, piscatório, industrial, começaram a ser transformados em Land Rovers, moradias de luxo e carros de alta cilindrada, associações e institutos especializados na gestão dos dinheiros comunitários, expansionismo voraz da construção civil, investimentos autárquicos de descontrolo provocado e aceite, sociedades de consultadoria, oferta bancária fácil de euros para o cidadão comprar casa, carro, férias, roupas, móveis, relógios, o que lhe desse na gana, a troco duma percentagem da seu rendimento mensal.

O enriquecimento fácil gera a corrupção, pior, gera uma mentalidade de aceitação da corrupção. Lembro-me, numa reunião politico-partidário dum partido de esquerda, quando se falava de corrupção, de perguntar se um electricista, um carpinteiro, um professor, um médico, um advogado, um comerciante, um industrial, um etc., que recebiam por fora, além dos seus vencimentos, sem declaração desses rendimentos, fugindo ao fisco, não eram tão exemplos duma mentalidade colectiva aberta à corrupção como um recurso de sobrevivência, como os que se estavam a criticar, dos grandes desvios de verbas pela grande finança, indústria, política? A pergunta ficou sem resposta, até hoje.

 

O Estado não é senão a sopa de pedra do que somos, como cidadãos. Os que nos governam são eleitos por nós, não pelos europeus. Hoje, há um alarido justíssimo de indignação contra os vencimentos abusivos dos políticos e dos seus representantes directos e indirectos nas empresas do Estado, na Banca, na Justiça, nos Institutos, nos parcerias público-privadas, na política, nos media . O próprio presidente Cavaco Silva não foge à crítica, pela acumulação de vencimento e reformas. A partir do exemplo do primeiro magistrado da nação, legítima, segundo creio, mas pouco ética, segundo penso, quem é a excepção e quem é a regra? Onde acaba a legalidade e começa a corrupção? Que linha de normas, regras e leis, define o limite entre o legal e o abuso do poder? Quando vejo quem são, maioritariamente, os conselheiros de Estado, será blasfémia desejar ser cidadão doutro país?

 

 Na Internet corre diária, consecutiva, uma raiva absoluta contra os abusos, os dinheiros fáceis. São listas e listas de nomes, políticos, financeiros, reformados de luxo, empresários, directores de jornais, administradores de televisão, jornalistas, filhos e filhas destes, que, como um polvo, avassalam o Estado, a administração pública e privada, o poder político central, regional e autárquico, a finança, a saúde, a magistratutra, as forças armadas, a imprensa e as televisões, os clubes, em suma, a estrutura sócio-económico-política do país inteiro.

 

Considero-a uma espécie de catarse, como ir a um campo de futebol chamar nomes ao árbitro. O cordeiro transformado em lobo numa pulsão de violência, que, ultrapassada, o leva à continuação de ser estupidamente sacrificado na altar autofágico do consumo. Os que têm emprego continuam na senda do crédito da casa, do seu recheio, das viagens de turismo, da troca de automóvel, de computador, do jogo na bolsa. Comentava, não há muito, um desses self-made man meu conhecido, que, ascendente de família modesta, se transformou num desses administradores de empresas de capitais públicos: no país há uns dez por cento que vivem bem ou razoavelmente, noventa por cento mal. Os primeiros podem ter muita pena dos segundos, mas na prática estão-se marimbando para mudar de vida. Por isso, será sempre sobre os noventa por cento que aplicarão as medidas que lhes permitirão continuar a gozar a sua. Querem melhor lição de pragmatismo vivencial?

 

Já Roma dizia que, na Ibéria, havia um povo que não governava, nem se deixava governar. Referia-se aos lusitanos, de que, se herdou, ao que consta, uma costela genética.

 

Repare-se no poder autárquico que, de norte a sul, governa. Quantos políticos, técnicos, funcionários, com dupla receita: reforma e vencimento; ou estes e negócio por fora? Será que serão diferentes dos que são execrados publicamente nos sites da Internet? Que medidas se tomam, e não só em momento de crise, para eliminar estas situações? Que participação cívica assume o cidadão, ante um país em ruptura, além da aceitação do que se lhe apresenta como inevitável? Bate à porta do político, a meter uma cunha para si, a mulher, os filhos? Porque todos os partidos políticos fingem que não vêem, quando se dizem representantes do povo?

 

Olha-se com muita crítica e azedume os abusos e desvios dos poderes, mas será que se não sonha a mágoa de se não estar nos seus lugares? É a mudança de comportamento, de estrutura social, de educação e cultura, que se persegue, ou a inveja de se não ser ou estar como quem se critica? Como alguém comentava ironicamente, há dias: será que quem votou nestes políticos para nos governar, votaria neles para serem o treinador da equipa sénior do futebol nacional?

 

Continuo na minha: cada povo tem o que fabrica.

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