SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:05

Crise ? O mal não estará nos óculos que usas?


Não fosse a inclemência dos fogos florestais, o país entraria em suspensão.

A crise, tenta convencer-me um amigo, não existe.

Com tanto automóvel vendido, tantos iates a encherem as marinas portuguesas, tantos lucros manifestados pela banca portuguesa, o défice das despesas governamentais a aumentar à barba longa, as administrações nomeadas pelos diversos ministérios a distribuírem entre si as benesses do cargo, os sinais de corrupção sistematicamente arquivados por uma justiça totalmente descridibilizada, mas corporativamente solidária, uma informação pública, jornalística e televisiva, a raiar os limites da imbecilidade, uma imagem informativa de figuras públicas a preencher os areais in algarvios, os campos de golfe, os hotéis de luxo, a crise não passa duma trama parasita de economistas a desfiar alarmes nos programas televisivos, com as costas quentes por reformas a tempo adquiridas, como ex-ministros e administradores reformados com alguns anos (poucos) de serviço, a pedirem cortes nos rendimentos de inserção social e nos vencimentos da função pública, quando por artes e desartes partidárias, acumularam reformas, cargos de administração em bancos de sangue (como os diamantes de sangue) de países de expressão portuguesa, com investimentos nas lucrativas empresas privatizadas para gáudio dos ultrarricos desta pátria de milhões de pedintes mentecaptos treinadores de futebol, a agarrarem-se pelo pescoço, a agredirem-se com garrafas, à entrada dos estádios, a insultarem os pais, as mãe, os antepassados recíprocos, tudo em nome dum espectáculos onde alguns artistas são a palha dourada da ruminação de instituições nacionais e internacionais, onde a peso de ouro se pagam as suas chefias.

De facto, por este prisma, o meu amigo, se não tem razão, parece tê-la.

Os casos Freeport, Casa Pia, entre outros, quanto mais se lhe mexe, mais mal cheiram. A educação, a saúde, se estão mal, não parecem. As escolas, mal ou bem, preparam o novo ano lectivo, os professores estão de férias, se no desemprego depois se verá.

A saúde, é o que se queira – 83 %, em 2002, das clínicas privadas, funcionavam sem licença. O presidente da Entidade Reguladora da Saúde afirma publicamente que, hoje, não será muito diferente. A ministra da Saúde, sobre estas ilegalidades, está há muito de férias.

Na Justiça, que vai como se sabe neste país, com três modalidades, uma para ricos, outra para políticos, a terceira para os outros, a imprensa noticia que 97 % dos juízes foram avaliados com as classificações de Bom e Muito Bom.

No fisco, a fuga aos impostos atinge milhões de Euros, a maioria empresários, mas onde também não falham advogados, economistas, outras profissões liberais, futebolistas, directores de clubes. Não se sabe quem são? O que ganham? O que não pagam? Pago eu, por eles, Sr. Ministro das Finanças? E V. Ex. aumenta-me os impostos, porque eles não pagam. E a justiça está consigo e com eles, não comigo…

E fiquemo-nos por aqui, que o fumo cheira, intenso, na alma.

O meu amigo, que paga os impostos duma reforma de miséria, e lha reduziram para salvação da pátria, rilha os dentes: então os submarinos já estão a chegar… Na política, do topo à base, não há processo que não seja arquivado; informações dos bens não coincidentes com as declaradas ao Tribunal Constitucional, que não sofram os efeitos que a lei institui; reduzem-se as penas dos políticos a cada recurso para um tribunal superior; o ministério público, arquiva e proíbe qualquer investigação, quando atingem figuras públicas, como na Face Oculta.

A corrupção, denunciava Saldanha Sanches, era endémica neste país. Quantos presos por corrupção? Quantos processos em tribunal? Quantos julgamentos efectivados? Por onde andam os corruptos? Na imaginação dos maldizentes? Nas praias e hotéis in publicitados nas revistas de charme dum país que, como sanguessuga, chupa o sangue deste em que, como rebanho, vivemos? E, que, como rebanho, nem nos importamos, desde que nos deixem apodrecer descansados, sem um lar para a velhice, um médico de família, um emprego para a sobrevivência?

Crise, meu caro? Não há hipermercado vazio, embora não pague impostos nas terras onde se instalam. Mas criaram uma rede de emprego baseada na importação das mercadorias, com todas as consequências sobre a dívida nacional. E essa rede de emprego, com cursos médios e superiores, luta com unhas e dentes pela renovação dos contratos que lhe permitam existir.

Crise, meu caro? Não há hotel de luxo vazio, carro de luxo que se não venda, restaurante de luxo que feche as portas, viagens de turismo de luxo que não tenha clientes, moradias de luxo que fiquem sem comprador.

És tu, eu, 85 ou mais % do país, que paga esses privilégios, essas benesses, essas mordomias.

Mas, crise? Não, não há crise! E sabes porquê? O desemprego, a miséria, a fome, acontece sempre a outros. É a história do célebre poema de Brecht. Enquanto for com outros, tudo bem. Comigo, espero que nunca…

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