SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:05

A Festa, A História e A Política

 

Pena que a lucidez do artigo da professora Célia Barroca, publicado em O Riachense sob o título D.Manuel I, não chegue a algo que, creio, ambos sabemos não existir: a consciência crítica do poder político.

 

«Impossível não pensar na ironia do grito de «viva o rei, no ano em que celebramos os cem anos da República. Impossível não pensar na necessidade, mesmo nas reconstituições históricas, de um olhar reflexivo, crítico e humanista, sobre a nossa história.»

 

A festa, como bem o sabes, Célia, nunca é reflexiva. E se, como bem o afirmas, «todos precisamos de espectáculo, de fantasia, de ficção, de interregnos na nossa vida quotidiana, de novas sensações e ritmos que os acontecimentos extraordinários nos trazem. Mas a cultura deve servir também para usarmos o nosso poder de reflexão e de crítica perante o mundo que nos rodeia», a festa rompe com o bom senso. É, em si, o grão de loucura na sensaboria da vida. Em qualquer civilização, dum qualquer lugar, em qualquer tempo, desde as festas dos mistérios gregos, dos loucos medievais, dos carnavais pagãos no mundo cristão, aos Carnavais contemporâneos do Rio de Janeiro, o que define a festa é o acriticismo, a ruptura com a razão, o tempo, a história. Porque ela é uma paródia à vida na sua rotina de sobrevivência. Além disso, é intemporal, na sua subversão da realidade, no inverter as regras sociais, nas libertações das pulsões emotivas e instintivas do animal que o corpo é.

 

A festa não se critica, não se regulariza. Tentá-lo, rompe a espontaneidade da mentalidade infantil onde a festa é a descoberta diária da aventura no mundo e em si. Não é por acaso que as comunidades aderem, independentemente da latitude, longitude, regras civilizacionais, religiosas, culturais, da teatralização , da pantomina do que na essência, a festa não deixa de o ser: um palco armadilhado onde o embuste e o real se misturam na caldeiras das bruxas, em que passado, presente e futuro se inscrevem nos objectivos pragmáticos do criador da festa : o político.

 

O povo adere às festas, raro as cria. Chega a elas pela publicidade, o bulício, a mensagem oral; nunca pelo conhecimento científico da história da festa. Adere ao imediato, mesmo que este seja a desvirtuação e a contradição do que festeja. É como o circo que, outrora, se anunciava, com o seu cortejo de animais, palhaços, trapezistas, pelas cidades onde se instalavam. Porque a festa e a feira se misturam com o insólito e o espanto do circo. E nos atrai e na toca, pela emoção da infância que, súbita, irrompe no sangue e nas páginas, inesperadas, da memória.

 

Ai de quem contradiga e se oponha à festa! Ou denuncie os seus ínvios objectivos! É preferível, como Galileu ante a excomunhão papal, renegar o movimento da terra, mesmo sabendo que ela se movia, mergulhar na sua insânia, na sua inverdade, na sua inconsciência crítica, no seu consciente desvirtuamento da reconstrução histórica.

 

Daí a razão, Célia, porque divirjo do olhar reflexivo que se exige à festa – D.Manuel em Torres Novas? O festejo da perda da autonomia concelhia? O concelho tinha outra dimensão- Alcanena e Entroncamento eram-lhe lugares e freguesias. O esquecimento que a teoria de D.Manuel I, «um só rei, um só país, uma só religião» eliminou, com o edito de 1496 , no ano seguinte, a comuna judaica de Torres Novas, destruindo-lhe a sinagoga, as escolas, os livros, raptando-lhes os filhos, eliminando-lhe o próprio cemitério – já que ela só nos pequenos pormenores tem com o que de facto de passou no tempo que teatraliza.

 

 A festa não passa, antes de mais, dum jogo dos bastidores do poder político, que o usa como a antiga distribuição de pão e circo do império aristocrático romano, como forma de manipulação colectiva.

 

Por isso, Célia, considero errónea a tua afirmação, partindo do poeta Brecht, como poderia o povo gritar viva o rei, quando vivia na miséria e no obscurantismo?

 

Por viver nessas mesmas condições é que o povo sempre gritou «viva o rei». E, quando em cólera, os depôs, pôs em fuga, guilhotinou, não mudou grande coisa do seu destino. Entregou sempre em mãos alheias as raízes do seu próprio futuro.

 

«Viva o Rei», como outros vivas, do passado ao nosso presente, permitiram uma república burguesa de 1910 a 1926 virada contra os interesses das classes trabalhadoras, que conduziu ao 28 de Maio e, em 1933, à república salazarista, a que o 25 de Abril, como se vai vendo, não pôs ponto final, ao partidocratizar em monopólio a política, limitando a soberania popular ao voto de quando em quando, sob a avalanche da lavagem ao cérebro dos media.

 

Daí que não grite, Célia Barroca, ao teu apelo «viva a República! E Viva o 25 de Abril! porque a república não foi, nem é, democrática, e o 25 de Abril ficou-se nos bolsos da social-democracia Soarista do 25 de Novembro. Mas estou contigo, no respeito e defesa da verdade histórica, no compromisso com a sociedade. Um abraço do

 

António Mário Lopes dos Santos

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