SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 12:01

ACABAR NOVEMBRO, RECOMEÇAR ABRIL

 

Leio na imprensa local que os partidos de esquerda promoveram almoços de comemoração do 25 de Abril em vários sítios da cidade. O PCP e o Bloco de Esquerda, decerto, mas dizem-me que também o Partido Socialista. Houve um passado em que participei nessas comemorações, como o fiz antes de Abril em jantares do 5 de Outubro, no antigo Rogério, da praça. Por respeito aos democratas que lutaram e sofreram pela liberdade na sua oposição corajosa a Salazar e Caetano, no segundo caso; pelo descoberta do que era um país sem censura, sem pides, sem prisões políticas, sem tribunais plenários, no primeiro. Liberdade que só viria a conhecer, trinta e dois anos depois de ter nascido, numa família da oposição republicana, desde meu avô António Lopes dos Santos, barbeiro e carbonário, republicano apoiante de Afonso Costa, presidente nomeado e demitido, conforme as revoluções, de presidente da Junta do Salvador; a meus tios: José, do sindicato dos caixeiros e do sindicato misto das classes trabalhadoras, poeta e maçónico, dirigente durante décadas de tudo quanto era solidário, humanitário, voluntário do Bem e da Beleza; de meu pai, do mesmo sindicato; de meu tio Manuel, comunista, amador de música, barbeiro, dirigente do Montepio; de meu tio Júlio, militar da 1ª Guerra Mundial, revolucionário das conspirações da década de trinta, deportado em Cabo Verde, De meu avô materno Alexandre, preso por dar vivas à República, de meus tios maternos, Carlos, republicano, dos bombeiros da Golegã, Alexandre, meu tio- padrinho,  republicano dos sete costados, residente na Figueira da Foz, que me proporcionou férias na infância e adolescência, em simultâneo com uma biblioteca racionalista e um conceito de honra acima de tudo. A minha aprendizagem oposicionista vem, por isso, de longe, alicerçada na década de sessenta e setenta, nos convívios do Portugal, do Valeriano, do Cineclube, dos contactos com os associados  do Raiar de Aurora campista.

 

Hoje, 25 de Abril, quando o foguetório da tarde alerta para as cerimónias oficiais no Virgínia, com discursos maioritários de Novembro em vez de Abril, recuso-me a estar presente, como o faço já há anos em relação a almoços de compungida saudade. O meu 25 de Abril nunca será o que comemora António Rodrigues, nem passa pela partidocracia sectária da vulgata marxista-leninista, em que o funcionalismo define o que o povo quer em vez de o ouvir. Começo por defender o que hoje escutei de várias vozes na Assembleia da República, mas que  oiço já há anos nas vozes das pessoas: recomeçar Abril. Não o de Mário Soares e Almeida Santos (que é o 25 de Novembro), talvez o de Salgado Zenha ou de Manuel Alegre, parte do de Vasco Gonçalves, Cunhal e de Louçã, com todo o ideal dum José Afonso, dum Teotónio Pereira, dum Baptista Bastos, dum Assis Pacheco, duma Natália Correia, duma Maria Velho da Costa, dum Bento Domingues.

 

E deixo aqui dez exemplos das razões que me levam a amar Abril na rua e não nos discursos dos privilegiados, nem nos almoços comemorativos, mesmo das esquerdas bem instaladas, na partidocracia democrática a que chegámos.

 

1 – Quantos grupos económicos vão ficar isentos do pagamento de impostos sobre as mais valias?

 

2 – Quem é preso pelas contrapartidas de 250 milhões dos submarinos comprados à Alemanha, que só valiam 40 milhões?

 

3 – Onde está a ética republicana do pagamento das viagens semanais da deputada Inês Medeiros, residente em Paris, que agrava as contribuições dos cidadãos, que nunca, na sua vida, saberão da Europa mais do que vêem na televisão?

 

4 – Abandonarão os socialistas a comissão de inquérito do caso TVI já que a recusa das escutas não passa dum mero pretexto para manter a nebulosidade que tudo disfarça e torna impune?

 

5 – Porque razão o democrata e pai da liberdade, Mário Soares, se fosse 1º Ministro, não iria à Comissão de Inquérito? Em nome da vigarice da política sobre o primado da verdade?

 

6 – Porque se esconde que Portugal tem as mais altas taxas de desemprego, como de mortalidade causada pela gripe A?

 

7 – Que serviço nacional de saúde permite que doentes com cancro morram antes das cirurgias no IPO, pela demora das consultas?

 

8 – A Justiça portuguesa no seu melhor – Domingos Névoa absolvido pelo Tribunal da Relação de Lisboa.

 

9 – Pobreza e desemprego agravam violência em Portugal, é um dos títulos jornalísticos que, de tão repetidos, já não incomodam quem, diariamente, luta para não ser mais um da estatística crescente.

 

10 – Será mesmo que o Fisco não sabe quem integra os 25% da economia paralela que não paga impostos, que não declara o que recebe, os bens que adquire, o enriquecimento visível mas intocável, quando é possível ouvir qualquer conversa, gravar qualquer suspeita, neste mundo cada vez mais concentracionário, violento, neurótico?

 

Se se comemora Novembro, com muito cheiro a lavagem ao cérebro, com cada vez mais desagradáveis recuperações do Marcelismo armado em liberal, ao menos sejamos claros. Dos três Dês, Descolonizar, Democratizar, Desenvolver, começa-se a recuar no primeiro, está totalmente corrompido o segundo e vendeu-se décadas seguidas o governo da nação por cargos de gestão públicos e privados, nacionais e internacionais, no descumprimento do terceiro.

 

Creio que os nossos filhos nunca nos perdoarão a porcaria de mundo democrático que  temos para lhes oferecer nas comemorações de Abril que se festejam..

 

Desemprego, desigualdade, arbitrariedade, individualismo, corrupção, compadrio, caciquismo, miséria, iniquidade.

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