SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 26 Setembro 2020, 18:47

O que te continua a incomodar, António?

 

Passeamos na zona central da Praia da Rocha, numa quarta-feira do início de Abril. O meu interlocutor é um amigo de longa data, participou comigo numa das direcções do Cineclube de Torres Novas, nos finais da década de sessenta. Não lhe publicito o nome por respeito à privacidade. Portugal, respondo-lhe.

 

Já não tenho idade para assinar de cruz as ambições dos políticos. E repara, não separo os nacionais, públicos, televisivos, dos que conheço desde sempre, na minha rua, na minha sala de aula, nos cafés da politiquice, nos locais político-partidários por onde passei e me criaram um pesado cepticismo sobre as suas reais e verdadeiras intenções. Portugal.

 

É uma chatice descobrir-se que se andou décadas a apoiar presos políticos, a colaborar com a clandestinidade dos revolucionários, a participar em sessões similares, como as da preparação do sindicato de professores, em Tomar e, mais tarde, num barracão dos arredores das Caldas da Rainha, e dum momento para o outro, as páginas dos jornais, os noticiários televisivos, denunciam o estado de corrupção a que chegou a democracia portuguesa anos depois duma revolução de militares com muito pouca ideologia e muito bazófia hierárquica, mas hoje bem acachapados nos seus privilégios de capitães de Abril que até esqueceram a importância dos milicianos que os levaram às posições a que, de início, nem sequer pensavam, já que o que os incomodava eram as repetidas acções no teatro da guerra colonial, com risco de incapacidade ou de morte. Corrupção que, segundo o Procurador Geral da República, é difícil de combater, com as leis que os deputados dos partidos desta democracia fizeram de propósito para impedir ir-se até ao osso, nem vale a pena pensar no combate, ai do parvo que denunciar um político corrupto, cai-lhe em cima o Carmo e a Trindade, e estes são as forças policiais, a magistratura, os tribunais. A corrupção lusa tem vários tons, é como a ópera em S. Carlos ou os concursos de cançonetas na televisão pública, mas é o pobre, o explorado, o enganado, que protege e enaltece o corrupto. Dele recebe o óbolo, o vencimento do lugar da cunha, a promessa para o/a filho/a dum lugar na rex publica, no departamento da cultura ou no do social, conforme as habilitações. Não há contrato, nem segurança, mas é assim que o poder reina – ai de quem conteste a exploração a que se entrega de pés e de cabeça no emprego serviçal a que se sujeita – e que pode fazer quem tem de comer e dar de comer diariamente?

 

Portugal. Herculano refugiou-se em vale de Lobos, Antero suicidou-se, Jorge de Sena angustiou-se ante o ódio que Abril abriu, Sofia idem, a literatura portuguesa prostituiu-se aos comerciantes do inútil, a ponto de eu comprar na FNAC dum complexo consumista algarvio o poeta MÁRIO CESARINY , da Assírio e Alvim, para 2010, por 2,50 Euros. Morreu ainda há pouco e já vai no barato do inferno de Dante, daqui a pouco ficará como um Sá de Miranda, um Cesário, um Gomes Leal, um Miguel Torga, um Carlos de Oliveira, algumas linhas numa história inútil duma literatura para o consolo dumas minorias que nunca conheceram o Portugal que não é Lisboa. O que é a escrita? Para que serve? Num país onde, ao contrário do que se esperava, o analfabetismo é mais do que não se saber ler, nem escrever, mas o tsunami duma iliteracia galopante, que é o não se perceber o que se lê, já que o conhecimento transmitido na escola portuguesa é uma aparência do conhecimento, visto que a escola foi deliberadamente trucidada pelo interesse político da voto e dos objectivos da sociedade de consumo.

 

Portugal. Dói-me amar a língua portuguesa, conhecê-la como a minha pátria, mas sentir-me um estranho na cidade em que vivo, mais do que isso, voluntariamente exilado, porque me recuso ao servilismo partidário, à bajulação do poder autárquico, à aceitação passiva duma cultura de copianço e incultura transformada em padrão oficial.

 

Pratico, desde que me conheço, na sociedade torrejana, um voluntariado cívico que perpassa, antes e depois de Abril, por intervenções em diversas colectividades, na imprensa, na participação cívica, sindical, política. Satisfaz-me tê-lo feito, sem a mão estendida da safadeza ou da pedinchice «democrática».

 

Portugal, meu caro, felizmente, não é este rancor, este trauma, este impudor, este fim de terra, finisterra, como lhe chamou Eduardo Lourenço, este suborno duma Europa onde a nossa identidade está num cherne gozado por Alexandre O’ Neill, que se alcandorou a um cargo de importância europeia, ainda que sem grande influência nos países que realmente mandam. A Assembleia de República, o Governo, o presidente da República, não sabem em que transformaram o português, com a adesão cega à Comunidade Europeia? Repara que não sou contra. Só que não gosto de muros, de guetos, cercando a dignidade de se ser humano. Pode-se-lhe chamar velhice, com todo o desfasamento que a idade origina, mas toda a minha cultura é francesa, o inglês sabe-me a colonialismo racista. A Europa não passa dum computador ianque para controlo dos índios.

O mar, repara está mais solto, os areais vão desaparecendo, o país com a maior zona marítima da Europa não tem uma frota pesqueira de qualidade, mas muita gente com galões e cargos públicos a viver à custa das contrapartidas dos negócios como o dos submarinos. É isto em que nos tornaram. O Velho do Restelo tinha razão. Portugal transformou-se numa telenovela planetária sem autores e actores à altura.

 

Portugal, tristemente o afirmo, como é não me diz grande coisa. Mas acredito que haverá outro tempo para além deste tempo. E que ser-se humano valerá então a pena.

 

antoniomario45@gmail.com

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