SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:16

Autonomia de Gestão ou Sectarismo Partidário?

 

Tenho mantido silêncio, ante a polémica concelhia que se desencadeou em relação à possível implosão da segunda fase da Escola Secundária de Maria Lamas. E tenho-o feito, por respeito para quem, de há muito, lutara para que a Escola fosse aumentada, devido ao excessivo número de alunos que nela se encontravam inscritos, nos cursos diurnos e nocturnos. Refiro-me a dois docentes, infelizmente, já falecidos, que me deram a honra de participar na equipa docente por mim presidida, durante décadas, nesse estabelecimento de ensino: os professores Amílcar Fialho e Manuel Salvado Fonseca.

 

O departamento da rede escolar, na Praça de Alvalade, nem acreditava que fosse possível meter mais de três mil alunos numa escola feita para mil, mil e duzentos.

 

Não existindo outro estabelecimento na vila, o clima escolar tornara-se, por assim dizer, sufocante. Mas funcionava, em salas divididas, recantos aproveitados As Jornadas Pedagógicas em 1983 que a Escola Maria Lamas lançara, com o apoio de todos os estabelecimentos de ensino públicos e privados do concelho de Torres Novas, chamara a atenção do mistério da Educação para o acontecimento, que chegou a reunir, durante os três dias das Jornadas, mais de 1.500 docentes de todos os graus de ensino. Torre Novas transformou-se, na altura, numa plataforma educativa nacional, cuja influência se consolidou, com a repetição das Jornadas em 1984 e 1986, com êxitos assinaláveis, e a presença de Secretários de Estado diversos. A verdade é que saiu destes acontecimentos a necessidade da criação duma nova escola secundária, que desse resposta aos problemas do 3º ciclo e secundário no concelho. E a Artur Gonçalves surgiu desse movimento, como mais tarde, por impulso regionalista, a C+S Chora Barroso, de Riachos. Em 1992, a realização da Festa Nacional do Desporto Escolar, realizado pela Coordenação Distrital do Desporto Escolar de Santarém e a Escola Secundária Maria Lamas de Torres Novas, encerraram um ciclo de grande difusão da imagem da educação no concelho. As visitas sistemáticas de secretários de Estado, acompanhados dos dirigentes regionais, conduziram, não só à inevitabilidade de construção de novas escolas na Vila e em Riachos, como ao urgente alargamento da Maria Lamas, que necessitava de novos laboratórios de Física, Química, Biologia, Informática, Electrónica, Electricidade, ginásio, campos de jogos, refeitório, casas de banho. Projectado na última fase da gestão da minha equipa, onde quer o Professor Salvado, quer eu, passaríamos à reforma no fim do século, já foi à equipa que nos substituiu que coube a responsabilidade da sua instalação. Foi com uma certa vaidade que, já fora do ensino, vimos crescer o edifício, porque tínhamos lutado duramente nos gabinetes do 5 de Outubro. Não admira que uma certa emoção, hoje, me perturbe, quando, sobrevivente desse trio de trabalho e solidária amizade, venho a saber pela imprensa que o edifício com pouco mais de oito anos podia estar sujeito a ruir e punha em risco a vida de quem nele trabalhasse. Independentemente das polémicas surgidas a nível nacional com a falta de transparência da entrega pelo Parque Escolar a departamentos de arquitectura sem concurso público, há que, a meu ver, dar à política o que é da política, e à educação o que lhe pertence. E não há senão dois caminhos imediatos a seguir: julgar os responsáveis pelos erros cometidos, e resolver de forma decisiva o que há a fazer. Como defendeu o Marquês de Pombal, é tempo de enterrar os mortos e cuidar dos vivos. Se tecnicamente a única solução é o camartelo – e dói-me ao escrevê-lo – é preferível do que remendos, que nada resolvem e só transferem para o futuro, a preços mais agravados, as hesitações do presente. E é urgente colocar os políticos fora do universo das escolas, já que o seu mundo assenta nas relações dos telemóveis, dos números reais ou fictícios dos contactos governamentais, das cunhas e compadrios que são a essência da política à portuguesa. Creio que as afirmações do senhor Presidente da Câmara Dr. António Rodrigues, em relação à perda do edifício, demonstram que, como há muito me manifesto, o grande mal é a confusão criada pelo caciquismo político, que, ao intervir nos sectores educativos, destrói a autonomia das escolas, transforma o arbítrio e a manipulação partidárias em regra de conduta.

 

O que gostaria de ver, da parte da autarquia, era uma política educativa que desse à escola concelhia o prestígio nacional que teve nas duas décadas do último século. Quando se pretende que tudo se concretize sob a égide do pensamento do poder partidário autárquico, estão-se a destruir sérios caminhos de futuro, em nome de objectivos partidários ou pessoais nada transparentes. Se o edifício não merece confiança dos técnicos do Ministério, ou se confirma essa desconfiança e se actua em consequência, ou se prova o contrário e se deslinda publicamente as razões de tais conclusões. Não creio que o preço do edifício, se tiver de ir abaixo, seja superior ao que a autarquia gastou , gasta e irá gastar,no antigo hospital, para o transformar em Câmara Municipal, e isso parece não importar a ninguém… Há aqui um problema de justiça, e da sua execução. O resto é paleio de político…

 

O que se não discute, e não vejo uma instituição ou várias, pôr em cima da mesa,é o problema da educação no concelho de Torres Novas. A Comissão Municipal de Ensino, se ainda vive,  tem aqui um tema , se quer ter algum papel, além do que lhe tem sido reservado – que é a dormência da paz da incapacidade –na vida educativa do concelho. Faça um debate público, que envolva todos os intervenientes com responsabilidades na educação concelhia. Torres Novas só ganharia com isso.

 

antoniomario45@gmail.com

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