SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:51

A Propósito do Centenário do 5 de Outubro

 

As comemorações do centenário da implantação da república em Torres Novas, que, embora ainda sem programa, foram aprovadas na última Assembleia Municipal, a partir duma proposta do Bloco de Esquerda, suscitam, para quem se debruce sobre a história concelhia, algumas reflexões.

 

Os 16 anos da primeira república portuguesa, a nível local, reflexo e consequência da política nacional, foram um período riquíssimo de debates de ideias, transformações económicas e sociais, lutas de classe, profunda intervenção cultural e educativa. Basta um olhar sobre imprensa publicada entre 1910 e 1926 para nos apercebermos desse mundo onde a intervenção pública se manifestava através dos centros republicanos, dos partidos políticos, das associações de classe, dos clubes, dos grémios recreativos, artísticos e musicais. Um mundo novo que se abria com a difusão lenta, mas decisiva, da escolas primárias por todo o concelho, na luta contra o analfabetismo que atingia a grande maioria da população, onde o cinema, a luz eléctrica, a água canalizada, caminhavam a par do desenvolvimento da ciência e da técnica, abrindo brechas no mundo conservador e tradicionalista do mundo rural. Se as leis da Separação da Igreja do Estado, de Afonso Costa, incendiaram estes dezasseis anos de transformações, avanços e recuos, as desilusões do operariado em relação à república decididamente burguesa, começaram cedo, através das greves, dos protestos, das associações de classe, da sua própria imprensa, agudizadas com o período da 1ª Guerra Mundial, e depois, com a influência da Revolução Soviética, a partir de 1917. A crise política, económica e social, que se agravou substancialmente, nos últimos oito anos da 1ª República, conduziu ao 28 de Maio de 1926, que assentava os seus caboucos nas fases ditatoriais de Pimenta de Castro (1915) e de Sidónio Pais (1917-18). Os nove periódicos que se publicaram em Torres Novas na primeira república são bem a prova dessa sociedade multifacetada, em contínua mudança.

 

As comemorações locais da implantação da primeira república podem assumir, como acontece um pouco por todo o país, várias formas. Uma sessão solene nalguns lados, publicação documental noutros, sessões de conferências em terceiros, exposições, animação teatral, ainda noutros. Não sei o que serão em Torres Novas, mas sei que não modificarão algo que, temporalmente, tem contribuído para o desconhecimento do passado concelhio: a inexistência duma política sistemática de recolha e tratamento documental dos espólios públicos e privados, de pessoas singulares a colectividades e agremiações, organizações partidárias e sindicais, que foram determinantes neste concelho nos séculos XIX e XX. Mesmo sabendo que o que, hoje, se faz no Arquivo Municipal, se deve ao empenhamento e profunda seriedade profissional dos seus técnicos. Quero desde já realçá-lo, para impedir confusões Mas não há um projecto de recolha e inventariação, nem dinheiro e pessoas preparadas para esse fim, nem objectivos claros do que se pretende, nem condições técnicas para a sua prossecução.

 

Basta pensar nesses nove jornais publicados, dos quais não existem de cinco quaisquer exemplares no arquivo municipal, para se verificar que o que falta fazer, por respeito para com o património histórico concelhio, e não só em relação à efeméride 5 de Outubro, para a sua inventariação, recolha, microfilmagem. Basta folhear o catálogo do Arquivo Histórico Municipal, para se verificar que das figuras públicas do século XX existem apenas nove espólios, mas o que existe desses espólios não tem uma inventariação precisa, e de certas figuras, como o Dr. Augusto Moita de Deus, ou o Dr. José Baracho Júnior, é tão ínfima e inexpressiva, que só demonstra a pouca vontade e ignorância políticas em relação aos espólios das figuras da 1ª República. Ou, como o de Faustino Bretes, que nem sequer foi, durante quase 25 anos, inventariado. Sem nenhum problema, poderia citar algumas dezenas de figuras do século XX de que se deveriam contactar as famílias para saber do que ainda seria possível recuperar para o domínio patrimonial público. O que coloca uma segunda questão, importante para a recolha. Que garantia de confiança oferece o poder autárquico a quem se doa ou deposita o espólio duma figura ou duma colectividade no Arquivo Histórico Municipal, no que respeita ao seu tratamento, divulgação, colocação ao dispor dos investigadores ou de simples leitores interessados?

 

Que apoios são, por outro lado, concedidos pela política cultural autárquica para a investigação de arquivos fundamentais para a história do concelho de Torres Novas, como, por exemplo, os do Montepio, da Misericórdia, do Clube Torrejano, da Banda Operária?

 

Uma reflexão última. Quem projectou o edifício da Biblioteca Municipal, não tinha a menor concepção do que é um Arquivo Histórico. Ambos podem estar situados no mesmo edifício, é certo, mas prosseguem objectivos absolutamente distintos. Basta o exemplo distrital do Arquivo e da Biblioteca Braamcamp, em Santarém para se perceber isso. Ou, nacionalmente, da Torre do Tombo e da Biblioteca Nacional. Em Torres Novas criou-se o palácio da Biblioteca e o tugúrio do Arquivo, ao ponto de ter de ser atamancada à última hora, uma sala para leitura e investigação, roubada ao gabinete da direcção, onde se conseguem, sem nenhumas condições, juntar três leitores-investigadores. Sempre defendi que o Arquivo deveria ser tratado independentemente da Biblioteca e criarem-lhe condições, como àquela, em pessoal, técnicos, orçamentos. Mas, ainda que um concelho sem história é como um ser humano amnésico, a quem se imprime no espírito tudo o que aos poderes interessa que ele saiba de si antes da doença, o passado não dá votos, nem lugares de poder político, administrativo ou social. É a consciência dum povo, a sua marca de água num espaço através do tempo, o que influencia mais o futuro do que muitos discursos ou promessas do tempo presente.

 

Se as comemorações locais do centenário do 5 de Outubro colocarem este ponto na agenda e a vierem a discutir publicamente, já penso que se estará a cumprir a razão do centenário.

 

antoniomario45@gmail.com

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