SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 09:57

Um País perpetuamente adiado

 

Não vou escrever absolutamente nada sobre o Carnaval político que este país do sudoeste da Europa vai mostrando à Comunidade Europeia e ao mundo. Nada do que está a acontecer me espanta. Somos um país de aparências – a realidade lusa vassoura-se para debaixo do tapete. Eça disse tudo: «sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade». Houve sempre quem pagasse a conta – gerações de gerações de gerações de gente a quem tudo foi negado, foi tirado, foi roubado. A educação, a saúde, o direito a uma existência mais digna, com melhores condições de vida, para si a para os seus. Nada disso se consegue sem a compreensão dos seus direitos, num povo que desde que o é só conheceu à tripa forra os deveres para com as elites, civis ou religiosas, em múltiplos impostos directos e indirectos, em muita resignação e sofrimento. Há povos que evoluíram. O nosso manteve, além da mudança à superfície dos dias, a apatia generalizada duma incultura ancestral. Nacionalismo, sebastianismo, providencialismo. Alguém – um paizinho – que resolva por ele, que lhe diga o que fazer, que pense por ele, que o encaminhe para o futuro. Pode até não se portar muito bem, perdoam-se-lhe as mentiras, as vigarices, os maus humores, até a mania de confundir a coisa pública com a sua coisa. A democracia é-lhe um emblema de usar na lapela do fato domingueiro, a sério que não lhe diz grande coisa, já que o que ela seja o que for não lhe mudou, nem o querer, nem o ser, nem o desejar. Aprendeu as regras do voto, vota como vai ao futebol. Por fé no seu clube, que nem conhece as pessoas que elege. Ao contrário do futebol, que sabe de cor quem são os jogadores, as suas origens, famílias, defeitos, qualidades, que discute com os colegas de trabalho tanto quanto possa, lhe alimenta o prazer e lhe estrutura a emotividade.

 

O pensamento político-cultural que vai formando assenta no oral e visual dos meios de informação, e, regra geral, opta sempre pelo último discurso, pela última proposta, pelo último aviso, pelo último orador. A manipulação política das elites, que, hoje como ontem, se abate sobre o seu fosco quotidiano de escassez, só o incomoda se lhe toca directamente, no emprego perdido, no crédito recusado, nos problemas dos filhos, na angústia do futuro sem qualquer saída, no recurso à emigração, que, desde o século XV, o espalhou por todos os cantos do mundo.

 

A pesquisa última que tenho feito sobre a história da República em Torres Novas veio demonstrar-me que, mudando o cenário, com as correcções tecnológicas e acontecimentos marcantes do tempo passado, pouco ou nada mudou na crise estrutural portuguesa, onde a dívida pública se mantém sempre acima da receita do estado. Vivemos – quem, é preciso não generalizar, porque a maioria do povo português, hoje como ontem, não vive, subvive – acima das nossas possibilidades. E o que é um facto é que, mudando as gerações, mudando os aspectos materiais da civilização, mantêm-se incólumes a estratificação social, o acesso desigual à cultura e à educação, à saúde, ao lazer. Dir-se-á que sou pessimista, as condições de vida são hoje muito diferentes, a pobreza de hoje era o remediado de ontem, muita coisa mudou. E de facto, muita coisa mudou. Mas o essencial, a dignidade humana, o respeito pelo outro, a defesa das liberdades essenciais para o desenvolvimento social e colectivo, os direitos de se querer ser humano numa humanidade consciente, mantêm-se praticamente inalteráveis, ignorados, ou abandonados, a troco duma civilização chamada de progresso, consumista e perdulária, que nos serve na bandeja do desperdício como algo perfeitamente desvalorizado.

 

Erasmo classificou de Elogio da Loucura o mundo da ganância do seu tempo, escondida sob a capa da beatitude e da ascensão social.

 

Um Carnaval que se continua.

 

antoniomario45@gmail.com

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