SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 12:13

Presidenciais de 2011: O futuro começa hoje

 

Manuel Alegre, num jantar com apoiantes em Portimão, afirmou-se disponível para entrar na corrida presidencial de 2011. Como Cavaco Silva é um mais que certo candidato, estas duas figuras monopolizarão, a partir de agora, o voto e as opções  do eleitor português. Daí os problemas que ambas as candidaturas, de imediato, criam às forças partidárias. Quer Cavaco Silva, quer Manuel Alegre, ultrapassaram as suas ligações partidárias, o primeiro ao PSD, o segundo ao PS, colocando-se num patamar superior, o da cidadania e o da independência. Se ambos se sentem desconfortados pela profunda crise em que Portugal se encontra mergulhado, se ambos apontam o dedo às principais forças partidárias como responsáveis por muitas das situações de agravamento das condições reais de vida das populações, se ambos declaram, cada um a seu modo, que Portugal tem futuro, a semelhança acaba aqui, ainda que a ambos se possa assacar também uma quota de responsabilidade pelo estado a que chegámos.

 

Se o primeiro recolhe o voto da direita partidária, do CDS ao PSD, e do eleitorado mais conservador, defensores da liberalização da sociedade, da privatização da economia, da educação, da saúde, sendo o Estado um mero regulador, com uma mínima intervenção nessa dinâmica, já Manuel Alegre introduz no jogo político uma ideia de transformação social, onde a liberdade se não dissocia do conceito de igualdade, assentes ambas no que a revolução de Abril prometera e os diversos governos liberais e sociais democratas, ao longo de 35 anos, sob o controlo do poder corruptor do capital, desfiguraram e praticamente reduziram a um formalismo constitucional esvaziado na prática dos seus valores essenciais. Assenta, pois, a sua concepção política na defesa dum estado interventor no desenvolvimento, na economia, no emprego, na saúde, na educação, em que referencia a valorização do trabalho em detrimento do capital, do ser humano como realidade objectiva social e não só simples objecto de exploração duma sociedade de mercado.

 

Se a política liberal de Cavaco Silva cria a unidade das forças tradicionais da sociedade portuguesa, já à esquerda Manuel Alegre encontra cisões e adversários, que o olham de soslaio, pelo perigo que representa para os seus interesses e negócios, a sua independência em relação às estruturas partidárias. Mas, não é no PCP, nem no Bloco de Esquerda, que, apesar das divergências do primeiro, e o apoio  do segundo, Manuel Alegre encontra os seus maiores detractores. Estes existem, sim, dentro do seu próprio partido, e alguns, das alas Soarista e Gamita, já vieram a público revelar o seu desinteresse pela candidatura ou o perigo que ela representa. São conhecidas figuras que vivem do poder que conseguiram, através da filiação partidária, em lugares governamentais, nos conselhos de administração da Banca, da Indústria, nas empresas públicas, nas estruturas sindicais, nos media, na CEE e na NATO, mantendo-se como polícias activos da manutenção dos privilégios das minorias que controlam o verdadeiro poder dentro da estrutura do PS.

 

Sócrates, por ora, mantém o silêncio. Nenhum dos candidatos lhe agrada, mas não são os seus «fiéis» que definirão a sua conduta. O seu futuro político já não está só nas suas mãos, um governo minoritário desperta mais a atenção das populações, ainda mais quando o que se começa a escrever nos seus pensamentos é a necessidade de sobrevivência. 

O ano de 2010, para além da gravíssima crise económica nacional que marcará o futuro deste país, está, por estas razões, condicionado pelas posições dos dois possíveis candidatos presidenciais, cuja credibilidade, muito superior à da actual classe partidocrática portuguesa, irá influenciar as medidas que o Parlamento, o governo, tentam assumir.

 

Se a presidência da República, em princípio, garante uma posição de maior visibilidade a Cavaco Silva, também lhe confere maior fragilidade, já que as medidas que tomar em relação às leis que a maioria dita de esquerda aprovar no Parlamento, condicionarão a opinião pública no seu apoio ou na sua recusa. Manuel Alegre tem à sua disposição caminhos mais livres, que passam pelo contacto mais informal com as populações, a sua capacidade de comunicação, a sua cultura, o seu peso de lutador pela democracia. No seu Partido há demasiados Judas para que neles possa acreditar. Ele sabe-o, há muito. Daí que o seu caminho para a presidência, a ser concretizável, exija muita transparência nos procedimentos e nos apoios.

 

Quem viver, verá.

 

antoniomario45@gmail.com

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