SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:49

Para começo, não é grande coisa

 

Começo por escrever, em princípio de ano: sou um céptico. A esperança é, para mim, uma espécie de triciclo, que fui esquecendo ao sair da infância. Se falar do país, nem sequer me lembra onde ficou, nas casas em que morei. Basta olhar a primeira página do jornal que compro: «Dívida e desemprego podem levar a situação explosiva, diz Cavaco» Para quem, e nunca foi desmentido, goza de três reformas, e não creio ter renunciado a nenhuma, é politicamente dramático (mas não o incomoda economicamente), para ele, se deixa de ser presidente nas próximas eleições. Mas não lhe ouvi o menor comentário sobre as grandes fortunas, os vencimentos dos administradores, as acumulações chorudas, as fraudes gigantescas, as morosidades da justiça, as protecções concedidas a certos figurões Eu, por exemplo, como cidadão, deixei de acreditar nessa Senhora. A balança que soergue está demasiado desequilibrada, a favor de quem manda, em detrimento de quem paga. Poderia acrescentar aqui um punhado grande de nomes, da banca, da finança, da indústria, do grande comércio, da política, que andam há muito nos processos de investigação do ministério público, sem o mínimo incómodo, nem julgamento, sem qualquer interdição, pagos principescamente pelos organismos que se suspeita que defraudaram, com todas as mordomias essenciais, enquanto o desemprego que ajudaram a provocar mata, por suicídio, tuberculose, fome, ou encosta o desempregado ao muro do fuzilamento social. A situação explosiva pode vir a passar, infelizmente, dum medo presidencial a uma tragédia real, mas ninguém explica os valores das reformas chorudas publicadas no Diário da República, nem os não cumprimentos de pagamentos ao fisco, sem a menor coacção legal sobre os prevaricadores graúdos, nem os perdões bancários a devedores incobráveis, nem a irresponsabilidade governamental em relação ao BPN, ou a um banco de esquina como o BPP, onde as minhas economias nunca poderiam ter garante, ao contrário dos que por aí andam a gritar, dêem-nos o nosso dinheiro, e acho bem, mas porque não vai a julgamento o Rendeiro, como na América o Maddof? É que o mal não está só no desequilíbrio da balança. Passa, igualmente, pela venda, que deveria garantir a igualdade, mas que, desviada um pouco, permite ao olho direito uma previsão do que irá acontecer, enquanto ao olho esquerdo só permite a mais negra escuridão. Os que me lêem podem, felizmente, discordar do que afirmo, achar que exagero, mas não têm coragem, nisso desafio-os, para que me desmintam. Não com discursos publicitários, mas com provas testemunhais. Quando vejo o governador do Banco de Portugal ser nomeado vice-presidente do Banco Europeu, com um vencimento mensal que muitos não ganham numa vida, percebo, sem aprovar, que no fim do ano, os jovens marginais dos subúrbios das grandes cidades francesas, tenham queimado, como o fizeram no ano anterior, mais de mil veículos, ou, nacionalmente, o terror violento que nos chega diariamente, como aviso, ou prenúncio, no jornal diário de maior expansão, o Correio da Manhã. Ou que a guerra das civilizações não seja só a maluqueira dum historiador já falecido…

 

Há, na sociedade portuguesa, muitos tabus. Um deles, por muito que se fale, nunca deu resultados palpáveis. Refiro-me ao fenómeno da corrupção da função pública. Do nacional ao local, o fenómeno é de tal forma preocupante, que, do mundo laico ao religioso, todos o citam. Mas, que esqueletos já saíram dos armários que o presidente do Tribunal de Contas afirma existirem de norte a sul e um dos responsáveis das associações patronais afirma roubar-se demais num país tão pequeno?

 

E aqui volto à justiça. E faço uma sugestão: mais precariedade, memos precariedade, façamos uma colecta, para a compra de potentes lunetas a oferecer ao director geral do ministério público, ao presidente do supremo tribunal da justiça, ao presidente da Ordem dos Advogados, ao ministro da dita, já que, com os óculos normais que usam, não só a cegueira de que falava em romance o nosso prémio Nobel, os torna mesmo cegos que não querem ver, como desequilibram a balança para o lado de quem tem, pode e manda, como permitem que a venda escorregue em prol do olho direito, e ilibam, com as leis que, quem as faz não cumpre, nem é penalizado por isso, antes feito comendador nas cerimónias pró-pátria dos sucessivos 10 de Junho dum poeta que, como tantos que, em vida, como ele, foram exilados, proibidos, perseguidos e desprezados.

 

O que falta a este país são pares de óculos, que Cavaco chamou de ética republicana, eu chamo de sentido de honra e dignidade cívica. Mas como, desde a ditadura salazarista, a cadeira de educação cívica foi substituída por outras compêndios com outras contrapartidas, é natural que o futebol continue a ser uma das universidades e a artes dum povo de mentalidade puramente sacrificial, o que até agrada a sua Excelência o Senhor Presidente da República, Cavaco Silva.

 

E, como céptico que sou, nem sei se vale a pena falar em Bom Ano em relação ao que aí vem…

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