SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:35

De novo, a maioria absoluta de António Rodrigues

 

O derrotado fui eu. Aliás, desde os meus dezasseis anos, quando iniciei a vida política distribuindo propaganda do general Humberto Delgado. Aos 67 anos, 51 anos depois, continuo no lado esquerdo da vida, na oposição. É um dos lados mais frágeis, mas não menos consciente, da barricada. Onde, como defendo há muito, a minoria de um, quando se sente com razão, é tão importante como a maioria de 99%.

 

Numa previsão que fiz, há mais de um mês, só acertei nos resultados dos partidos da oposição ao Partido Socialista: um ou dois vereadores para o PSD, um para a CDU, nenhum para o Bloco de Esquerda. Acreditara em algo que se veio a revelar, ainda que de forma contraditória, falso: o cansaço das populações rurais do concelho, por nunca verem resolvidos os seus problemas essenciais: saneamento básico, transportes públicos, saúde, educação, envelhecimento populacional, emigração para os centros urbanos. Acreditara que essa saturação conduziria essas populações a um saudosismo, herdado dum passado anti-democrático, levando-os a colocar a cruzinha no seu partido de influência rural concelhia: o PSD. As eleições europeias, também as legislativas, fizeram-me prever a transferência de votos, nas freguesias rurais, do PS para o PSD. Enganei-me.

 

Creio que o que desejava era a perda da maioria absoluta por parte do PS. Os resultados das legislativas, a confirmarem-se nas autárquicas, retiravam-lhe dois vereadores. Os socialistas aperceberam-se disso. A persistência de tanto ministro e secretário de estado, no período eleitoral autárquico, com a conivência do poder económico distrital, demonstra a preocupação que rondou as hostes, ao verem-se confrontadas com a perda da maioria absoluta. Só que o PSD, desde as europeias, lançara-se intrepidamente numa via auto-suicida,  de atritos, de histórias mal contadas, ou bem contadas mas mal fundamentadas, que conduziram os eleitores à desconfiança, quer no projecto de Manuela Ferreira Leite, quer no próprio presidente da República, que, na prática, contribuiu para a derrota eleitoral do PSD nas legislativas.

 

O mal dum observador político reside na confusão entre os seus desejos e a realidade. Era público que gostaria, no último mandato de António Rodrigues, vê-lo presidente sem maioria absoluta, com um número de mandatos inferior aos da oposição.

 

Só que a realidade não coincidiu com os meus desejos. A população rural concelhia, a mais prejudicada no projecto de desenvolvimento urbano projectado por Rodrigues para Torres Novas, deu-lhe o seu aval, independentemente das suas agruras. O conservadorismo do século XX aliado à resignação mental de séculos de dependência submissa, sobressaíram ante as ameaças da instabilidade, do medo do desconhecido. Desejava-lhe, na prática, uma vitória de Pirro, discutida dia a dia, durante os próximos quatro anos.

 

Afinal, A. Rodrigues ganhou, para o executivo camarário, e de forma indiscutível, em todas as freguesias do concelho de Torres Novas. Mantém cinco vereadores, concedendo um ao PSD, outro à CDU. O poder dificilmente perde a sua influência sobre os munícipes, construída ao longo dos anos de poder concelhio. Quem não tem um ponto de referência no executivo autárquico, dificilmente pode aspirar a ser vitorioso.

 

O Bloco de Esquerda talvez tenha aprendido, de uma vez por todas, sem trabalho quotidiano no terreno, sem implantação nas freguesias, nas colectividades, a influência de Francisco Louçã não chega para tudo. Ficaram a saber que, pelos caminhos que percorrem, o Bloco de Esquerda, como à direita o CDS, para as câmaras e freguesias, não contam. Parafraseando David Dinis, editor de Política do Diário de Notícias, em nótula de 12 de Setembro, «a estratégia de crescimento do(s) partido(s) (referidos) nunca passou pelas pequenas estruturas, mas pelos maiores microfones do país». Referia-se só ao Bloco, mas na minha opinião veste igualmente o CDS.

 

A vitória de António Rodrigues é tão expressiva, que obriga, na entrada do seu último mandato, a questionar as oposições, derrotadas com resultados medíocres, se não é altura duma reflexão profunda sobre os projectos e programas políticos que se apresentam às populações, mas que estas, a partir dum certo momento, colocam de lado e apostam na política do poder. Por muita tentativa de explicação que intentem, não são só O Bloco de esquerda e o CDS os que sofrem uma profunda derrota no ciclo autárquico. O PSD e a CDU encontram-se, também, numa fase de profunda estagnação.

 

Sou um céptico em relação ao futuro deste concelho, mas não deixo de reconhecer que só houve – como escrevi numa carta a um político local – uma só candidatura à presidência da Câmara, a de António Rodrigues. As outras nunca ultrapassaram o terem sido só candidaturas à vereação. Daí a vitória normal do único verdadeiro candidato ao poder presidencial, que, por isso combateu, de forma publicitária e demagógica, não só nos dias da campanha, mas em todos os dias em que tem sido poder, há duas décadas. A vitória que as populações do concelho lhe deram assenta no reconhecimento do que tem sido feito, ainda que muitas dessas obras sejam polémicas. O voto popular não é apenas soberano. É determinante.

 

Como cidadão, democraticamente, felicito-o pela sua vitória. Como munícipe, acredito que a concretização dum projecto municipal, centrado na educação, cultura, ambiente, emprego jovem, saúde, resolução das desigualdades sociais, combate à corrupção, traria mais dinâmica, responsabilidade, multiculturalismo, democracia e desenvolvimento ao concelho de Torres Novas. A partidarização monopolizante da vida concelhia, nas suas múltiplas facetas, conduz, a prazo, à letargia, à resignação, ao desinteresse, à estagnação mental, ao caciquismo e à arbitrariedade. Muitos desses sintomas já são hoje visíveis na estrutura da sociedade torrejana.

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