SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:50

Reflexão sobre política, eleições, partidos e o que mais se quiser

 

José Saramago, a pretexto da escrita de um novo romance, cessou a sua secção no Diário de Notícias. Baptista Bastos, às terças-feiras, continua naquele periódico a sua defesa da cidadania democrática contra as burocracias partidocráticas. Em ambos os escritores se reflecte uma amargura por um país de cultura oral infantilizada, estruturada, nos tempos que correm, por uma escassa informação manipulada, colocada cirurgicamente nas Têvês nacionais entre anúncios, telenovelas e concursos. Em ambos, os caminhos das sociedades contemporâneas merecem análise crítica. Em ambos, se estratifica a dúvida contemporânea do serviço informativo, escrito ou televisivo, já que os media têm donos e interesses por detrás e daí partem as regras da notícia divulgada. Uma informação, uma fotografia, não surgem de forma inocente, num periódico, ou na pantalha televisiva. Revelam uma opção editorial, escamoteada em nome do bem comum ou do politicamente correcto, que se refugia num mundo bem pouco enraizado no real. Quer Saramago, quer Baptista Bastos, foram meus escritores de cabeceira. Não foram os únicos, mas tiveram grande influência na minha maneira de ver o mundo. Neles reflecti a ideologia e a dissidência, a preocupação de não ceder ao colectivo a consciência individual, da importância dos partidos em democracia, mas também das suas tendências para o controlo, a subordinação da sociedade aos seus interesses, que fazem coincidir mistificadoramente com os interesses do país. Não refiro nenhum partido, porque cabem aí todos, mesmo os que se querem anti-partidos. Não concebo uma sociedade democrática sem partidos, mas também não a concebo sem sindicatos, associações de classe, movimentos sociais melhor ou pior organizados, mas que acrescentam às superstruturas ideológicas novas formas de participação social. Já não acredito no tipo de eleições, como as que, em Setembro e Outubro, custam caro aos contribuintes, ainda que estes não tenham direito ao palco, só ao aplauso e ao voto na urna, nos oferecem uma gama multifacetada de nomes e caras, que, com a devida vénia, nos são impostas pelas direcções partidárias. Esclarecido isto, vou votar, quer nas legislativas, quer nas autárquicas. Nestas últimas até já dei apoio a um candidato autárquico. Mas, como ele sabe, voto no candidato, não no partido. Daí que não ponha de lado, teoricamente, o direito de votar de modo diferente para o executivo, a assembleia municipal, a junta de freguesia. Como de considerar que seria um erro manter esse mesmo voto nas legislativas. Acredito em pessoas, sejam de partidos ou independentes, que colocam a sua vida e o empenhamento ao serviço das populações. Mas exijo-lhes igualmente transparência no pagamento de impostos, coerência entre o pensar e o agir. E há em todas as listas, legislativas e autárquicas, gente que me não merece confiança na dialéctica referida. Se ponho uma cruz num símbolo partidário, é por que está lá dentro quem me merece confiança.

 

É a minha forma de encarar as eleições de Setembro e de Outubro. Refugiado na amargura de Saramago e de Baptista Bastos, desconvencido de que estes partidos que temos à portuguesa resolvam alguma coisa mais do que a salvaguarda dos seus interesses, aqui me assino.

 

antoniomario45@clix.pt

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados