SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 11:04

As coisas estão a fugir dos carris

 

As pessoas andam cada vez mais assustadas, não só com o desemprego, o, a subsistência, trabalho precário, a sobrevivência; também com o surto de gripe, quando se sabe que os apoios sanitários dos centros de saúde estão limitados, não há médicos, nem enfermeiros suficientes. Se numa situação normal, as carências provocam dramas gritantes, o que se pode esperar numa situação de pandemia viral?

 

Portugal, já lhe chamavam, António Sérgio e Jorge de Sena, nos meados do século XX na esteira do estrangeirado Ribeiro Sanches (1699-1783), no seu ensaio não acabado, Dificuldades que tem um reino velho em emendar-se (1777), respectivamente, o reino cadaveroso e o reino da estupidez.

 

Mas ambos, ainda que com obras ensaísticas e literárias importantes, já palmilham os caminhos ou veredas (quem sabe?) do além-vida, sem que ninguém os coloque no local a que mereciam, o ensino da língua e da cultura portuguesas, nos ensinos básico, secundário, universitário e, porque não, no profissional e no do socrático das alternativas? A verdade é que contam menos que um Ronaldo no Real Madrid ou um Figo em busca de receber que o BPP lhe deve. Ou o misterioso caso da pedofilia da Casa Pia, que não tem um Poirot, um George Simenon, um Conan Doyle, a desvendar, por capítulos de romance, o crime, mas só pálidas e romanescas figuras dum Ministério Público, que, ao que se conhece, até agora, não conseguiram levar à prisão qualquer figura pública.

Um reino muito pouco apetecível para quem não faz parte da nomenclatura, que esta vive à tripa forra, na eterna dependência do poder político e do económico: Vossa Excelência, Senhor ministro, senhor secretário, senhor deputado, senhor autarca, é tudo uma questão de preço; não há qualquer possibilidade de apanhar alguém na boca da botija, é tudo a dinheiro vivo, não há fios de meada, percebe?

 

São estas divergências que levam ao divórcio entre cidadão normal e político, entre constituição e realidade. Os políticos estão ligados à corrente eléctrica do poder, não há para eles senão uma mandíbula hipócrita da justiça a mastigar a carnadura da lusa gente. No fim de tanta restrição, de tanta escassez, desemprego, desumanização, arrogância, ver tanta autonomia e solidez financeira, incomoda o mais sofrido, que estranha tanto euro milhões em tão escolhidas mãos; pior, sem que os eleitos se importem com a pataca a mim pataca a ti, desde que possam vir a fazer parte do clube da banca suíça ou dos offshores do lava tudo mais branco.

 

Eu gostava de perceber, de facto, que doença viral, bem pior que a da gripe, debilita a mentalidade deste povo a uma fragilidade tal que, sacudido por tanta tormenta, tanto empurrão, tanta insegurança, tanto abandono, tanta humilhação, tanta mentira, não consegue sequer manifestar a sua indignação ante a braveza do destino ou lá do que lhe queiram chamar.

 

Vive-se numa crise internacional, que tudo complica, é certo, mas a nossa crise é bem outra, e mais grave, além dessa. É uma crise de falta de valores, de coerência de princípios, de respeito e solidariedade para com o outro. Saídos da longa noite do totalitarismo salazarista e marcelista, com tanta falta de tudo, excepto de orgulho nacionalista, entrámos num comboio de alta velocidade, impossibilitado de o ser por andar em carris do caracol. Ensinaram-nos a desejar a estabilidade da classe média europeia, a ter carro, casa própria, emprego, férias, sem nos fornecerem os instrumentos para se atingir o progresso (?) europeu – a educação cultural, tecnológica e científica, que são a base estrutural de qualquer nação. Ficámo-nos, ante a visão do El Dorado, com os instrumentos que Salazar dizia que bastavam ao português: saber ler, escrever e contar – e, mesmo assim, mal e com muitas insuficiências.

 

Nunca fui, confesso-me, um optimista festivo. A minha independência crítica nunca se cegou pelo grande valor da democracia à portuguesa, onde se entregou o futuro às elites dos partidos, para que eles nos levassem até àquele, como um rebanho bem orientado. 

 

Daí que me perturbe, cada vez mais, este comboio encalhado no cais da resignação, ante uma linha cada vez mais envelhecida e enferrujada, à espera dum milagre ou dum novo herói que lhes dê um novo destino. Nenhuns carris para um novo ciclo, antes o trilho ferrugento de nenhum caminho. E vêm-me à memória alguns versos do Canto Peninsular de Manuel Alegre,

 

Eu estou aqui há novecentos anos.

Não cresci, nem mudei.

Apodreci.

Doem-me as próprias raízes que criei.

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