SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:15

Qual o Futuro Nome da Praça 5 de Outubro?

 

Às vezes sinto remorsos por não conseguir ser simpático para com a direcção autárquica do Dr. António Rodrigues, meu ilustre colega recém-licenciado em História. Mas, de facto, tenho dificuldades num aplauso que duvida, como do primeiro-ministro Sócrates, de que o que rege seus objectivos, a nível local, não é o desenvolvimento concelhio, mas a publicidade mediática dos seus actos. Não há, nos seus diversos mandatos, nenhum local onde não exista uma placa: esta obra foi inaugurada pelo (Presidente, ministro, secretário de Estado) e pelo Presidente da Câmara de Torres Novas, António Rodrigues. Freud explica esta obsessão. A história ensina aos seus licenciados quão redutor é o atributo da eternidade. Um exemplo nacional – a ponte Salazar passou a 25 de Abril. Localmente, a praça já foi Praça dos Passos do Concelho, D. Manuel II, hoje é 5 de Outubro. A avenida marginal, que foi de Gago Coutinho-Sacadura Cabral, mudou em Avenida Dr. João Martins de Azevedo.

 

Tudo isto a propósito da recuperação da Praça 5 de Outubro. Perguntar-me-ão: mas não havia razões para a obra? Fui um dos subscritores, há uns anos, dum abaixo-assinado, sobre a redignificação e vitalização do centro histórico da praça 5 de Outubro. Estaria sempre de acordo com uma intervenção, que desse à zona envolvente do Castelo, de que a praça é parte integrante, uma dignidade que já teve e perdeu. A ocupação do tabuleiro, de forma indevida, pelo estacionamento automóvel, degradou o pavimento. Mas quem permitiu esse estacionamento? Quem o manteve quase por mais de uma década, no maior desrespeito ao património edificado e à memória histórica do centro urbano?

 

O que me leva ao desacordo é, também, a maquilhagem da obra na praça 5 de Outubro. Primeiro pela desnecessidade de tanto aparato, só explicável, pelo objectivo de integrar a sua inauguração no ciclo eleitoral, onde se integram as festas da cidade. Segundo, pelo desprezo pelos vestígios arqueológicos, que demonstram uma existência urbana anterior à conquista cristã do século XII. Terceiro, pela concepção espacial, que desvirtua o objecto essencial desse espaço urbano – o tabuleiro da praça –, transformando-o, de essencial, em elemento circunstancial. Quarto, pela aceleração, com fins eleitoralistas, da obra, prejudicando o estudo arqueológico e conduzindo a um agravamento final dos custos, pelo pagamento de horas extraordinárias. Aguarde-se que, obras feitas e inauguradas com pompa e circunstância por mais um secretário de estado em via de promoção para as legislativas de Setembro, não venha a acontecer o que a pressa originou na Biblioteca e zona envolvente.

 

Em conclusão, não se mudou o essencial, piorou-se com a valorização do acessório. A praça em que cresci, desde a infância, que vi ser centro de convívio, brincadeira de crianças, local de namoro de jovens, semanalmente mercado multidisciplinar, centro nuclear das procissões da Semana Santa e Corpo de Deus, mais tarde espaço público da liberdade e festas da cidadania, castelhanizou-se, num arremedo duma qualquer praça maior da vizinha Espanha. Mudaram, bem, para a muralha, as velhas e degradadas casas de banho. Mas, ao subir-se os pavimentos laterais ao nível do tabuleiro central, destruiu-se o que era o centro da praça, mesmo que se tivesse mantido a traça tradicional e o desenho do pavimento, em nome de não sei que concepção urbanística. Lembram-me os desaires do Terreiro do Paço, que hoje vêm ao de cima, ao ponto do presidente da Câmara concluir que a obra deveria ter sido parada. Em Torres Novas, a placa com os nomes do secretário de estado e do presidente, e o calendário eleitoral permitem a uma maioria absoluta impor o seu querer, independente do sério estudo arqueológico e histórico que tal levantamento obrigaria.

 

Eu gostaria de recuperar a praça em que nasci, de ver o tabuleiro voltar a ser centro de mercado e de convívio, de cidadania e de cultura. Para quem satiriza, recordo a praça central das Caldas da Rainha, onde, semanalmente, se continua, para bem e movimento da cidade e zona envolvente, a realizar o mercado dos frescos, que, em Torres Novas, se empurrou, sem a menor justificação, primeiro, para o antigo campo de futebol, segundo para uma das saídas da cidade.

 

Torres Novas, transformada em uma zona periférica da grande Lisboa, envergonhou-se do seu passado de raiz rural, crescendo em alcatrão, vidro, cimento, e apostando na comercialização das grandes e médias superfícies, que, se garantem algum emprego, não contribuem para o fisco concelhio. Aliás, não é caso único, já que as grandes empresas têm as suas sedes noutros locais, sendo aí que pagam os seus impostos. Seja-me permitido dizer que gostava muito mais da minha praça, por todas as razões acima apresentadas. Era mais original, mais multifacetada, mais globalizante, mais caracterizada, mais humana. Respirava-se nela um outro ar, o do trabalho, do convívio, do encontro, da sociabilidade. Era uma outra forma de sentir, de agir, de viver. Uma praça que morreu.

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