SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:32

A abstenção crítica, o povo já não acredita

 

Ao contrário do Presidente da República e dos dirigentes dos diversos partidos políticos portugueses, não tenho a noção de que abstenção eleitoral seja um acto de desrespeito pela democracia. Na minha opinião, é tão democrático ir votar, como não. Estou à vontade, porque, como ainda não há muito respondi a um amigo que me disse que nunca mais votava, eu fizera o suficiente no fascismo para que houvesse liberdade e democracia; até por uma família a quem roubaram o direito ao voto durante dezenas de anos, iria, como fui, depositar o meu voto nas urnas. Aí, poderia votar num partido, como votar branco, ou nulo. O voto é secreto, a mim tanto me faz o secretismo. Não identifico democracia com ida às urnas de tantos em tantos anos, e depois deixar-se ficar pelo resmungo, a desolação, o engano, nos intervalos. O meu amigo contrapunha que, num país de partidocracia partidária, a democracia era algo de ilusório. Os deputados eram de selecção partidária, a sua ligação com a sociedade civil eram um engodo, como o que se deita ao rio para atrair os peixes ao engano do anzol. Diz-me sete nomes de candidatos, provoca-me. De facto, não soube responder-lhe. Nem sequer fui capaz de lhe indicar os nomes de todos os partidos concorrentes. Concordo com a sua crítica, não com a sua indiferença, ou desinteresse. O desemprego, a instabilidade financeira, não (ainda) o atingiu. Acreditou, na profissão, em algo, que se foi desmoronando, apesar dos bons discursos da ministra da educação e dos Magalhães de Sócrates. Viu a reforma recuar, aumentar o contencioso profissional, o embuste dos descontos a dizer-lhe que, no futuro, não deve esperar o que ainda tem hoje. Faz parte duma multidão que não andará muito longe – se não houver rupturas piores – dos 60%.europeus. Eu, se fosse eleito por uma minoria, recusava a eleição. Mas, na Europa, com números destes, até mais altos de abstenção, quem se nega? A partidocracia que envenena o mundo, que o conduziu à crise económica e financeira, não é nacional. Quem originou este descalabro, continua intocável, nos mesmos lugares ministeriais, presidenciais, financeiros, políticos. Os media cobrem-lhes as vergonhas, os tribunais, como a Berlusconi, perseguem os que denunciam. Os casos da justiça portuguesa começam a parecer-se com uma ópera bufa. Espanta-me que não haja honra suficiente para se prender, denunciar, ou pedir a demissão. Mas a honra de hoje já não exige duelos, mas repastos em restaurantes de luxo…

 

Quando o presidente da república vem dizer-nos, na véspera eleitoral, que, se se não votar, como  podem os cidadãos  queixar-se do que está mal, fico-me a perguntar aos meus botões como a hipocrisia atinge tão altas figuras, que, ou são cegas, ou ficam cegas, ou não se importam de cegar outrem. Sou um professor reformado com uma só reforma e muitas centenas de horas de voluntariado cultural, educativo, criativo e histórico, gratuitos, em colectividades, em obras de investigação, em actividade política, em férias nunca inteiramente cumpridas, a troco dum ideal. Não penso ter feito nada de especial, apenas a minha obrigação cívica. Mas, ao ler a lista dos futuros comendadores da pátria, agraciados por Cavaco Silva no dez de Junho (dia da pátria de quem?) relembro Garrett «foge Cão, que te fazem Barão». Mediocratiza-se o mérito, talvez o espelho onde se reflecte quem decide. O meu amigo tem uma certa razão. Votar …nisto?

 

Onde fica o país a que o meu amigo pertence? Nas listas partidárias de São Bento, nas das autarquias, nas europeias, estruturadas pelas elites partidocráticas, de facto, não se encontra. Como se chega a deputado, assessor ministerial, governador civil, director ou administrador dos milhares de cargos institucionais deste país, dependentes das hierarquias partidárias, por onde corre o sangue da economia, os impostos, o compadrio, as administrações bancárias, o venha a nós o nosso reino, a corrupção, que é a palavra de ordem de algo que já foi digno, mas se rotinizou, e no abuso da rotina, se transformou num monstro antidemocrático e puramente arbitrário, para quem a sociedade civil só serve para lhes garantir a perpetuação no poder? 

 

E nesta crítica englobo, ainda que com tristeza, os partidos de esquerda, PCP e B.E., a farsa do a mim ninguém me cala dum Manuel Alegre, onde vai pairando, conforme a eleição, o meu voto, mas a quem não vejo libertarem-se, o primeiro, da canga dum marxismo-leninista-estalinista que se esqueceu de que o tempo não é um quarto estanque, o segundo dum justicialismo pouco coerente com as ambições dos seus deputados ou representantes autárquicos, que nunca foram escolhidos senão pelas suas diminutas elites dirigentes, o terceiro dum sim-não-mas –talvez- ou nunca, que se o não envergonha, envergonha-me a mim, por lhe ter dado já demasiadas vezes o   benefício da dúvida.

 

Não me admira que, no fim de tanta abstenção europeia e caseira, que todos os partidos ganhem, mesmo que a votação diminua, o descrédito aumente, a dignidade se mascare de arlequim para continuar nos media a massacrar um povo castrado com as suas piruetas e os seus interesses que pouco se identificam com que lhe virou as costas.

 

Talvez por isso, votando à esquerda, não deixe de reflectir nas razões da abstenção do voto do meu amigo, agoniado com a falta de dignidade a que isto (a Europa) chegou. Nem o Presidente me convence da importância do voto. Voto, pela minha família, proibida de votar no fascismo, pelo direito á liberdade. Mas descrente da importância do meu voto, porque voto em quem desconheço obra, qualidade, honra, doação pública. De boas intenções, deputados, políticos, presidentes está o inferno cheio. E creio que ainda há vagas…

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