SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 5 Agosto 2020, 15:12

O Concelho de Torres Novas nos Ministérios do Coronel José Vicente de Freitas (18/4/1928-7/11/1928), (8/11/1928-5/7/1929) e do general Artur Ivens Ferraz (9/7/1929-10/1/1930)

O país, após a eleição de Carmona, em 25 de Março para a Presidência da República (posse a 15 de Abril), entra numa nova fase de governos militares, em que vai surgir como ministro das Finanças o
Dr. Oliveira Salazar, que só aceita ir substituir o anterior ministro militar general Sinel de Cordes (que transformou a recuperação efectuada pelo último governo da primeira república, sob a tutela do ministro das finanças Armando Marques Guedes, num défice  colossal), após terem sido aprovadas as suas condições de toda a despesa governamental ser controlada e autorizada  primeiro pelo seu ministério. Agrega na  defesa  do seu projecto o arcebispo de Mitilene António Gonçalves Cerejeira, sagrado na Sé Nova de Coimbra, em 17 de Agosto de 1928, futuro bispo auxiliar do Cardeal Patriarca de Lisboa, António Mendes Belo (Pimentel, Irene Flunser, Cardeal Cerejeira, o Príncipe da Igreja, Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, págs. 78),
O Centro Católico Português, as colectividades e associações eclesiais, bem como toda a imprensa católica, da nacional à concelhia; também a ala da direita radical dos militares da ditadura, além da protecção de Carmona. Mesmo após as tentativas reviralhistas de  20 de Julho do castelo de  S. Jorge, com sublevações em Setúbal e no Entroncamento, o país encontrava-se dividido. «Há os milhares de presos e deportados. Há também os milhões de silenciados… O balanço da revolução liberal é, até agora, terrivelmente negativo, mesmo na parte financeira… a polícia e a censura encarregam- -se de tornar o ambiente monocórdico» (Rego, Raul ; História da República, V vol., pág. 153).
Mas o aumento da influência do ministro das finanças vai criar anti-corpos, mesmo no próprio governo. Toda a imprensa católica aplaude o mago, que reforma Portugal. «Em 2 e 7 de Novembro  de 1928, o Novidades publicou sucessivamente dois artigos, com o mesmo título («Hora Grave»), em defesa de Salazar (Pimentel, cit, pág.80). O primeiro ministro apresenta a Carmona a demissão do governo, a 7, mas aquele insta-o a formar um novo, mas mantendo Salazar como ministro das Finanças; a que ele acede. No ano seguinte, novo conflito, provocado pela portaria do ministro da Justiça e dos  Cultos, Mário de Figueiredo, que permitia o «culto público» fora dos lugares a isso destinados, o que levou à oposição, em Conselho de Ministros, do Ministro da Guerra, coronel Morais Sarmento. Votada a portaria, foi revogada, o que conduz à demissão de Mário de Azevedo e de Salazar, que não estiveram presentes na altura da votação, o último por estar internado, por causa  duma perna partida numa queda, no Hospital da Ordem Terceira. Salazar recua na decisão e sugere que o primeiro ministro coloque a situação das duas demissões ao Presidente da República. Este conferencia, em 4 de Julho, com Salazar e realiza no mesmo dia um Conselho de Ministros, de novo sem a presença do ministro das finanças. Vicente de Freitas apresentou a Carmona uma opção, de duas vias: ou aceitava a demissão dos dois ministros e mantinha o governo, ou demitia este e mantinha no poder Salazar e os seus próximos. (Pimentel, cit, págs. 81-82).

Carmona opta pela continuidade de Salazar e, aceitando a demissão do governo, nomeia, em  9 de Julho de 1929, o general Artur Ivens Ferraz, por pressão dos generais defensores da ditadura como fenómeno
de transição, mas contentando igualmente o sector ditatorial e anti-democrático, mantendo Salazar com a pasta das Finanças e substituindo Mário de Azevedo por Lopes da Fonseca, do CCP (Centro Católico Português) e colaborador do Novidades. (Pimentel, cit, 82). +++ No concelho, a censura, que era visível, inscrita nas páginas de O Almonda, só nos permite, até 1929, informação sobre as actividades sociais e políticas concelhias, transmitidas pelo semanário. A correspondência da administração, que representa localmente o poder governamental, nos anos de 1928, registando a revolta sufocada do Entroncamento, pouco mais avança, a não ser em inquirições sobre os funcionários da própria administração. Por outro lado, não há  documentação sobre a organização social e política do Centro Republicano, quer da única associação legal urbana ainda em funções, a Associação dos Caixeiros, que em Outubro elege novos corpos gerentes e abre a sua nova sede, na Rua Ferrer, com entrada pelo Paço (O Almonda nº 480,6/10). Inauguração que nos parece significativa, pela data da implantação da República, que, com certa ironia,
O Almonda alude: «passou despercebida esta data em Torres Novas, sem sequer um simples foguete… apenas o feriado nas Repartições e a volta à vila pelas tropas da Escola Prática de Cavalaria» (Cit, nº480, 6/10). As notícias mais importantes deste ano, além das eleições dos corpos gerentes da Associação Comercial, onde se verifica a presença influente  dos comerciantes republicanos (Cit, nº 460, 18/5), ou da nova direcção do Torres Novas Futebol Clube (Cit, nº479,28/9),  também uma certa dinâmica da direcção do Montepio, que realiza importantes obras de alargamento no seu Teatro Virgínia, em consequência das alterações que a evolução da indústria cinematográfica o obriga (Cit, 474, 25/8;477, 11/9; 481, 13/10), revelam uma obra de impacto social, a fundação do Colégio Andrade Corvo
(cit, 468, 14/7; 478, 8/9), que inicia a sua actividade no mês de Outubro. Quanto à acção camarária, as actas desse ano apresentam como obras fundamentais, a Avenida Municipal, o saneamento da vila, o problema da água, o novo matadouro, as obras nas estradas do município, programa que o Dr. João Martins de Azevedo irá apresentar  no segundo ano de Uma Hora Útil, em 1929 ( Cit, nº513, 25/5).

A importância da acção da política católica concelhia pode verificar-se pelo desenvolvimento, neste ano, das peregrinações a Fátima, com influência local, pela rede viária, pelos transportes. A peregrinação do concelho de Torres Novas a Fátima, no dia 3 de Junho, promovida pelo Conselho Particular da Conferência de S. Vicente de Paulo de acordo com os reverendos do Arciprestado (Cit, nº459, 12/5; 460, 19/5; 461, 26/5; 462, 2/6; 463, 9/6,  com uma reportagem sobre o acontecimento), é reveladora deste crescendo da influência católica no mundo rural, mais do que no centro urbano, onde o republicanismo e o sector operário apresentam maior adesão à democracia.

A posição do semanário a favor de Salazar vai-se revelando desde o seu ingresso no ministério (o director de O Almonda, Dr. Carlos Mendes, fora seu colega na Universidade de Coimbra e na direcção do CADC, juntamente com o futuro cardeal Cerejeira, seguindo o jornal Novidades, desde a sua ascensão a ministro das Finanças, como, em 20/10, com o elogio da Ditadura e da acção de Salazar.

Em 1929, a unidade de defesa de república mostra a sua vitalidade no concelho, com a publicação do semanário A Renascença (23/1) que irá ser a voz da oposição concelhia à  ditadura, em 43 números, o último publicado em 13/7/1930. Fica este estudo para o próximo número.

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