SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 02:15

Torres Novas em 1926 – Alguns Acontecimentos

Uma das características do governo de Carmona, após a substituição e exílio de Gomes da Costa, é o regresso das tropas aos quartéis, colocando à frente daqueles elementos da confiança dos defensores da ditadura militar. No caso concelhio, o regresso das tropas ao quartel em Julho, conforme noticia O Almonda (n.º 365, 24/7), implica também a apresentação da renúncia do cargo de administrador do concelho do capitão Jorge Alcides dos Santos Pedreira. Apresenta-a  em 14 de Agosto, «por não ser possível conciliar o cargo com o serviço da Escola de Equitação, pois não desejo de forma alguma abandonar o meu esquadrão» (Corresp. Adm. c/ Gov. Civil, Lº 1611, fls. 437). Repete a solicitação a 16 (Id, fls. 439) e, como nenhuma resposta obtém, entrega o cargo, segundo os preceitos legais, ao Presidente da Comissão Administrativa da Câmara a 26 do corrente (idem, fls. 442). Se o seu papel fundamental, como instrumento local da revolução do 28 de Maio, assentou principalmente na reorganização dos serviços da administração, com a mudança dos regedores republicanos por figuras adeptas do golpe militar e, nos próprios serviços, a observação da confiança dos funcionários respectivos, a sua renúncia,  por vontade própria ou delibe- ração do próprio quartel, após  a formação dum governo de militares conservadores de essência republicana residida pelo general Carmona, que  aparentava  prometer a pacifi- cação da vida política, e, aos militares o encerramento do período revolucionário. O que é um facto é que a sua renúncia não ter merecido que se conheça – qualquer oposição, verificando-se que o cargo, no dia seguinte aparece a assinar a correspondência, por delegação do presidente, o vice-presidente, o proprietário Mário Ramos de Deus (idem, 27/8, fls. 445), que vai continuar a política de substitui- ção dos regedores, para cum
primento da legislação superior.
Como já noutros artigos explanámos, os problemas locais camarários assentam na defesa dos interesses agrícolas e comerciais com a defesa do traçado da linha do caminho de ferro, «Estamos todos de acordo que o caminho de ferro, sahindo de Thomar, vá à Nazareth com um ramal por Leiria, a diferença está no traçado. Leiria e Thomar quer por Chão de Maçãs; e nós defendemos o traçado pelo Entroncamento e Torres Novas» (O Almonda n.º 374, 25/9/1926).

Nós significa os concelhos de Torres Novas e Alcanena, mas que, como veremos, vão perder a oportunidade. Torres Novas nunca apostou concretamente, desde o século XIX, na via férrea. O Entroncamento foi sempre observado administrativamente de forma marginal, já que o seu território pertencia, além de Torres Novas, ao concelho da Barquinha. O seu desenvolvimento, integrado na freguesia de Santiago foi sempre assumido de forma secundária. Daí que a opção dos seus moradores fosse a duma única freguesia dum único concelho. As razões sócio-políticas conduziram a que, em 25 de Agosto, o governo de Óscar Carmona, pelo decreto n.º 12192, criasse a freguesia de Alcanena, anexa ao conce- lho de Vila Nova da Barquinha (Gonçalves, A., Mosaico Torrejano, págs. 65/67). Não nos parece ter criado grande mal-estar a desanexação da parte concelhia do Entroncamento. Em sessão de Câmara de 27 de Agosto, o Executivo Camarário, presidido em tempo de férias por Mário Ramos de Deus e com a presença de dois vereadores, António Baptista de Oliveira e Sebastião Vaz Baracho, «deliberou esta comissão protestar perante os poderes constituídos contra o decreto que criou a freguesia do Entroncamento e a desanexou deste concelho» (Lº Actas, fls. 175). E no semanário O Almonda também um breve comentário: «Conseguiu desagregar-se do nosso concelho o lugar de Alcorochel, constituído em freguesia, passa para o conce- lho da Barquinha. A pouco e pouco vai o nosso concelho esfacelando-se a ponto de dentro em pouco estar reduzido à vila unicamente.

E todo isto se fez sem um protesto, sem que ninguém levante um grito de revolta. Dormem todos os sonhos na indiferença mais completa». (O Almonda n.º 370, 28/8).

De facto, há um adormecimento na sociedade torrejana, ainda que, até às tentativas revolucionárias republicanas de Fevereiro de 1927, alguns acontecimentos mereçam destaque. A mudança de nome de Carrascos para vila do Paço (terra donde era natural o arcebispo de Évora), por um decreto datado de 15 de Setembro (Gonçalves, M. Tor., fls. 67). Também neste mês, o semanário noticia a nomeação do coronel Mouzinho de Albuquerque como Alto comissário dos Açores, ficando no seu lugar, como comandante da Escola, o major Jara de Carvalho. Em Outubro, o Dr. Carlos Mendes é nomeado representante da Junta Distrital de Santarém, nas Juntas Gerais do país (Idem, n.º 375, 2/10). A 23, vários representantes democráticos do concelho vão a Lisboa para uma reunião de reorganização do Partido Democrático. (Idem, n.º 378, 23/10).

No campo sindical e associativo, fica-se a saber que se comemora em Novembro o 17.º aniversário da Associação dos Caixeiros (Idem, n.º 380, 6/11), cuja direcção, eleita em janeiro de 1926, ainda se mantém, tendo na presidência Luciano P. Prista e na A. Geral, José Lopes dos Santos (Idem, n.º 338, 16/1/1926).

No sector anarco-sindicalista, além da continuada propaganda, mesmo sob a Censura, do quinzenário O Resgate, dirigido por Faustino Bretes, alguma agitação se observa nos meios trabalhadores, que leva a uma busca a casa do sapateiro Joaquim da Silva Nuno (Corresp. c/ Gov. Civil, n.º 459, 4/10). Também se executam  prisões, em Riachos, por motins dos irmãos Manuel Ferreira e José Ferreira Direito (Corresp. da Adm. c/ diversas Autoridades, Lº 1560, fls. 13, 1/9/1926).

Em 7 de Novembro  realiza-se a inauguração, no largo do Salvador, da sede da Juventude Católica Torrejana
Uma notícia triste, a 11 de Dezembro: o final da nova banda operária, e se descreve o inven- tário dos seus bens, sendo depositário dos mesmos o comerciante Francisco Rodrigues Bretes (Id., n.º 385).

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