SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:08

Quem domina o passado, domina o futuro

 

George Orwell, no seu 1984, ao analisar um sistema totalitário absoluto, em que o cidadão deixa de ser um indivíduo para se transformar em simples peça dum mecanismo social, onde a consciência individual é anulada e o ser humano dissolvido nas regra do Big Brother ( o Grande Irmão), pretendia , como socialista que participara na Guerra Civil de Espanha, chamar a atenção das democracias liberais para o perigo do totalitarismo soviético que Estaline representava.

 

Calhou-me esse romance na disciplina de História Contemporânea, como trabalho sobre as Utopias Negativas, sendo o meu parceiro de investigação, o meu antigo colega e professor de história, José Manuel Silva,  a quem calhara o Admirável Mundo Novo, de  Aldous Huxley .

 

A história humana, ao longo dos séculos, manteve sempre, como forma de protesto, contra o politicamente correcto do domínio dos poderes, seja este monárquico, aristocrático, teocrático, plutocrático, partidocrático, autocrático, uma esperança nos amanhãs que cantam, uma mitologia da fé laica dos trabalhadores por conta de outrem, explorados e colocados quase no fim da fila dos explorados – os trabalhadores agrícolas ainda estão mais baixo, assim como os emigrantes, os ex-colonizados, a que Franz Fanon, numa obra célebre no pós-guerra , Os Condenados da Terra, colocava no limiar mais baixa da exploração. Não se acrescentavam, ainda, as crianças e as mulheres, que só foram incluídas mais tarde, quando os direitos da criança e da mulher assumiram direitos de cidadania na ONU. Só que este conceito de esperança não passou de mais um mito, em que a igualdade anulava a individualidade e a liberdade. Os fins justificavam os meios, Maquiavel demonstrara-lhe a eficiência política do poder, no seu ensaio político O Príncipe, dedicado a César Bórgia.

 

Mas Orwell, obcecado pelo totalitarismo soviético, na sua defesa da democracia europeia, não se apercebeu que estas últimas representavam poderes, por si, teoricamente defensores das liberdades individuais, mas na prática assentavam nas desigualdades sociais que originavam a divisão da propriedade e, consequentemente, da sociedade em classes, de interesses diferentes, mesmo opostos. E que os exércitos, as polícias, a justiça, os deputados, as leis, da democracia, na prática, não estavam, como não estão, ao serviço dos que viviam só do seu trabalho.

 

A crise que se desencadeou sobre o mundo neo-liberal, tem, logicamente, responsáveis. E esses responsáveis têm nomes, são conhecidos, sabe-se qual o seu papel no pecado mortal da ganância com que encaravam as riquezas do mundo como coisas suas, e se apropriaram desses bens numa tripa forra, com a conivência e partilha da banca, da administração política, dos militares, das magistraturas, das profissões liberais, dos políticos de praticamente todos os quadrantes, dos cartéis das drogas, da especulação financeira, dos negócios de armas, dos organismos internacionais. É um mundo a fingir, onde o voto esconde o compadrio, a publicidade o jogo escondido da ambição do poder, o respeito pelo outro não passa pela situação de desemprego de quem se tem muita pena e a quem se promete a ternura da caridade social.

 

Escondem-se as causas do terramoto político, os causadores da crise mantêm os mesmos cargos políticos, empresariais, administrativos, financeiros. Ninguém vai preso, porque os que deveriam prender, regra geral, são familiares dos que deveriam ser presos. Refugiam-se em leis que outros familiares fazem, e o passado desaparece como as riquezas na gruta de Ali Babá, já que os media vendem ao segundo, ao minuto, à hora, a democracia dos causadores da crise que se transformam por artes da magia de David Cooperfield em solucionadores da própria crise. Quem paga? É óbvio que são os desempregados das empresas falidas, cujos patrões se vêem nas mesmas moradias e mesmos automóveis de gama alta e nos restaurantes de luxo e férias nos resorts internacionais. São mais de 500 mil, além dos tarefeiros a recibo verde, dos que frequentam formações, dos que nem existem nas listas do desemprego. A história para eles tem sempre a cor negra do Germinal de Zola, dos Thibauld de Martin du Gard, dos romances de Soeiro, Redol, Raul Brandão, Aquilino, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira. Costumo ouvi-los : isso já passou, hoje o mundo é outro. E é de facto, nos acessórios. No essencial, só mudaram as moscas. Leia-se a obra de Eça de Queirós, e tirando a moldura da época, não é difícil integrar nas suas personagens as caras que nos rodeiam e, diga-se, nos tentam asfixiar.

 

Um novo mundo ou o velho mundo, o que os políticos de ontem que se mantêm hoje, nos prometem?

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