SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 26 Setembro 2020, 19:53

O que prejudica mais? O vírus da gripe ou a política do governo de Sócrates?

 

A gente pensa que, afinal, a estirpe do vírus porcina não será tão perigosa como se temia. Além disso, o nosso atraso civilizacional em relação à Europa deve proteger-nos duma mais intensa difusão; e, se ela vier, ao menos que dê nos políticos e diplomatas, eles é que viajam por tudo quanto é mundo, embora se saiba que estão na lista prioritária dos com direito às vacinas e aos anti-virais. Por vezes apanham uns poçozitos de ar, só os assusta, como aconteceu a Jaime Gama e a um grupo parlamentar que regressava da China – vejam lá, a China ao fim de semana, tão distante para a nossa bolsa de viagens, tão perto dos que, com os nossos impostos, praticam a mobilidade com um à vontade como se tivessem nascido viajantes profissionais. Da China já não trazem, como recordação, o livro vermelho de Mao, nem uns trapitos ou uns chapéus-de-chuva como os que se vendem nas lojas dos emigrantes chineses que, entre nós, vão substituindo o comércio tradicional português. Confesso que, a ser pandémico, não me importava nada que o vírus fosse selectivo, assentasse arraiais, não nas camadas populares, começasse nos gestores bancários e financeiros, nos empresários, nos autarcas, secretários de estado, ministros, nos que, em nome do poder terreno, jogam o monopólio do venha a nós o vosso reino, e depois fazem discursos muito moralistas nos programas televisivos para que a estabilidade seja uma realidade nacional. Claro que a miséria, o desemprego, a fome, o desespero, aumentam a uma velocidade superior à propagação do vírus, mas não os toca, só os sensibiliza. Se, ao menos, fossem estes, os primeiros internados na quarentena dos hospitais, e se desse para o torto as primeiras vítimas, a morte, ao menos uma vez na história, seria igualitária e justiceira. Quantos soldados têm de morrer para que aconteça a do general? Quanta miséria tem de ser quantificada para que toque num administrador? O que prejudica mais, o vírus porcino ou as leis neo-liberais do governo de Sócrates? Quem faz mais vítimas?

 

Uma notícia que a imprensa difundia, manhã cedo, é de que o antigo vice-presidente dos EUA Dick Cheney voltou ontem a defender as técnicas de interrogatórios de tortura, praticados em suspeitos de terrorismo, com o pretexto de que com o seu uso se salvaram muitas vidas. Se estas técnicas, para se lhes ver a eficácia, fossem aplicadas experimentalmente, nos que, na base das Lajes , decidiram a invasão do Iraque, em Bush, em Blair, em Barroso, em Berlusconi, em Aznar,  sem esquecer Cheney, quantas mortes de civis e militares teriam sido poupadas? Só que, para certo tipo de figuras deste mundo, nunca há julgamento e, se o tentam, como a Pinochet, ficam-se pela frustração do desejo.

 

Por muito agressivos que os vírus sejam, os viajantes profissionais do poder da economia e da política estão sempre um passo à frente da sua arremetida, ou por reserva no bunker dos sobreviventes seleccionados, ou na lista dos defendidos e protegidos com tudo o que a ciência e a medicina apresentam como alternativa. Os outros, a população mundial, os que criam a riqueza, por um vencimento, para um pouco de segurança, serão a experiência dos vírus mutantes – talvez o inferno criado em laboratórios dos senhores dos jogos de guerra – , lançados em países que é preciso meter na ordem.  A realidade é sempre  bem mais insólita que a ficção. A conquista e manutenção do poder bem mais criminosas que as diversas estirpes dos vírus da gripe. E para os seus prejuízos, para os seus crimes, não há anti-viral ou vacina que os impeça, nem tribunal que os condene.

 

A gente pensa e fica com a impressão que, com este sistema político, não há possibilidade dum admirável mundo novo!

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