SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 12:08

O Meu Abril

 

Olho para o branco da página e as palavras magoam-me os dedos, de inseguras. Já não contam apenas os anos que apodreceram as páginas dos calendários, trinta e cinco, mas o que ficou escrito, de vida vivida, nas suas folhas. Na profissão, na intervenção política, na acção social, nas solidariedades afectivas, nos nomes que contribuíram para a instauração duma sociedade democrática. Alguns, não os defino, guardo-os, por amor, por respeito, por profunda ternura. Deixaram-nos, cedo demais, se alguma vez é cedo demais para beber o último copo de vida, incertos e frágeis na memória que deles nos ficou, laços colectivos pelos ideais dum sonho, dum país, dum mundo, onde a vida humana fosse olhada como o ideal maior da razão de se viver. Sim, já não contam só esses anos, é preciso não ignorar os que os antecederam, os meus 32 anos dos quarenta e oito de fascismo , em que vi professar o silêncio e a submissão, a supressão da liberdade de ter opinião, o medo do ouvido policial a nosso lado, a capacidade clandestina da resistência, as prisões de amigos, a ameaça sempre viva sobre a perda do emprego, os encontros possíveis em locais impossíveis, a morte ignorada , disfarçada nas prisões políticas por certidões médicas iníquas, ou a governamentalmente pública, do general sem medo, ou a colectiva, duma juventude atirada para os campos de batalha de Angola, Guiné, Moçambique, em nome dum nacionalismo racista e antidemocrático, na defesa dum império onde a cor da pele, desde 1415, se agudizou , esclavagista, como um pretexto económico. Rostos familiares também que me perseguem, como se uma pergunta terrível os fizesse presentes, na exigência duma resposta: valeu a pena estas décadas de resistência, activa e passiva, pública ou clandestina, de mais de oito décadas? Escuto meus pais, meus tios republicanos, liberais, comunistas, meu avô paterno revolucionário, sombras inscritas na desmemória do rio do tempo, outros rostos, outros nomes, mais recentes, também já só sílabas nas raízes do pensamento, e a pergunta cresce, com estrondo, na página do texto: valeu a pena?

 

Quem nasce em liberdade, vive-a, sem saber o seu valor. Um dia saberá – as ameaças são tão diariamente evidentes – à sua custa, quanto custa o preço de se perder a liberdade.

 

As gerações surgidas depois de Abril, os nossos filhos, os filhos dos nossos filhos, nascidos nesse meio precário e doloroso da liberdade duramente conquistada, vivem hoje momentos muito difíceis, com empregos precários, cursos superiores inúteis ou sem saídas práticas, vencimentos de subsistência, que a ganância empresarial agita com um cinismo abjecto, ou mais trágico, sem emprego, vivendo dos apoios familiares, sem nenhuma autonomia, nem esperança de futuro. Ainda por cima, numa sociedade onde o poder económico subverteu, democraticamente, o poder político, comprando-o, mantendo, com a ajuda deste, cada vez um fosso maior entre a liberdade e a igualdade, deformando a primeira e esmagando a segunda. E o mais dramático é a descoberta de que a palavra socialismo, que tanto disse às classes mais desfavorecidas, se tenha transformado numa arma de exploração, agravando as desigualdades e fomentando a corrupção. Nem todos os socialismos, diga-se, a bem da verdade.

 

Na realidade, é um mundo em crise, um mundo em ruptura, o que lhes damos como herança. Mas, no fundo da caixa de Pandora, donde saíram todos os males do mundo, guarda-se ainda a esperança. Não que o mundo melhore, sem uma profunda ruptura. Não que essa ruptura aconteça, sem o esforço colectivo dos que acreditam que o mundo pode ter um modelo diferente de sociedade. Não que isso aconteça – inevitavelmente acontecerá – sem que as actuais gerações exijam e lutem por essa mudança.

 

O meu Abril é apenas um reconhecimento, ante o passado, pelo futuro: a luta continua. Pela liberdade, pela democracia, pela sociedade mais igual e justa, pela razão essencial da vida: o ser humano.

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