SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 11 Agosto 2020, 19:52

Quando os mesteirais sobem ao poder autárquico

Nas vilas medievais o poder autárquico assentava na assembleia do concelho que elegia anualmente dois juízes ordinários, o procurador do concelho e os almotacés. Todos esses elementos saíam da classe dos cavaleiros-vilãos, proprietários e classe burguesa nascente, dos letrados, que constituíam a nobreza concelhia. Nas cortes, os seus procuradores eleitos apresentavam aos reis os seus capítulos (pedidos e reclamações), que assentavam na defesa dos seus interesses, nomeadamente sobre os impostos que sobrecarregavam a produção agrícola ou criação de gado.
Ficavam de fora dois grupos, os mesteirais, dos ofícios mecânicos do artesanato e indústria e a arraia miúda, os serviçais e afins, os cavões, os limpadores de ruas e outros. Se estes últimos, nas histórias, raro sobressaíram, ainda que levassem em Lisboa o mestre de Avis ao poder, os mesteirais foram aumentando nas zonas urbanas o número, o prestígio e a necessidade, pela sua produção e importância no desenvolvimento urbano. Ganharam força nos séculos XIV e XV. Em Lisboa a partir da carta régia de 1384, que tornou obrigatória a representação dos mesteirais em certas de
liberações da Câmara. Tornou-se evidente a sua importância e implantação no país com o apoio manifestado e recebido de D. Pedro. Mas, após a morte deste em Alfarrobeira, só se manteve em Lisboa. A burguesia e os cavaleiros vilãos olhavam-nos como adversários na administração autárquica, já que não controlavam as suas organizações, quer profissionais, as corporações de artes e ofícios, quer religiosas, as confrarias.
Lisboa foi a regra do país. A sua organização, por mester, em mestres, oficiais e aprendizes, a seu enquadramento arruado (por ruas próprias), a sua assembleia dos 24 mesteirais, a Casa dos 24, implantou-se no país, de modo desigual. Nas cortes de 1481/1482 todas as câmaras protestam contra a sua influência, tendo D. João II aceite a sua exclusão de todos os municípios, com excepção da capital.
Torres Novas, donatária das casas das rainhas e, a partir de 1500, de D. Jorge de Lencastre e de seus sucessores da casa de Aveiro, só viu os seus mesteirais ganharem o direito de elegerem os seus dois representantes à Câmara, nas Cortes de Lisboa de 1641 e 1642, mas que a dona
tária D. Ana Manrique de Lara, tutora de seu filho menor o duque de Aveiro, D. Raimundo de Lencastre, impediu, o que contribuiu para novos capítulos em 4 de Dezembro de 1642, a que o rei repete a aprovação. «Padesse o Povo miúdo da ditta Villa grandes moléstias e vexações dos poderosos por falta de misteres homens do Povo que acudam à defensam dos pobres; e tendo-lhe VMgde, feiro mercê que eles tivessem doze eleytos repartidores assy é da mesma maneira que os tem Abrantes e Tomar, aonde do sditos dois vam à Camara assistir dous como mesteres, não foram a isso admitidos, e se lhe impidio com o poder e valia que tudo atropella.» O problema da guerra com Espanha, a necessidade de dinheiro e soldados para a defesa do país, leva D. João IV a ceder, mais ainda quando, mais tarde. O Duque de Aveiro se coloca ao lado dos espanhóis, tendo cessado a doação régia de Torres Novas em 1663, incorporada nos bens da Coroa. até 1684, quando é reconhecido após pleito judicial como donatário de Torres Novas D. Pedro de Lencastre, regressando até ao marquês de Pombal , à casa de Aveiro. Os mesteirais, a partir de então, participam na vida autárquica.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados