SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Setembro 2020, 10:19

Confesso-me um português muito preocupado

 

Não percebo. E começo seriamente a preocupar-me por não perceber o que se passa com o sistema de justiça em Portugal. Ouço a procuradora Cândida de Almeida afirmar que com a actual legislação é impossível lutar contra a corrupção. Ouço o actual presidente da Sindicato dos Magistrados do Magistério Público a confirmar que, no caso do processo Freeport existem pressões sobre os investigadores, públicas e não públicas. Ouço a procuradora Maria José Morgado dizer que a corrupção anda à solta. Ouço nas notícias televisivas que Adelino Ferreira Torres foi ilibado por falta de provas. Leio que as denúncias sobre o enriquecimento do presidente da Câmara Mesquita Machado foram arquivadas por não se considerarem fundadas as acusações. Vejo que os processos de Pinto da Costa e Valentim Loureiro são como as obras de Santa Engrácia. E não estou a deixar de lado o célebre processo de pedofilia da Casa Pia, que, se não for, por má organização, reiniciado, ainda vai assentar como uma canga no dorso de Pina Manique, o intendente de Lisboa criador, no reinado de D. Maria I, da instituição. E é bem feito!

 

Dos processos da Universidade Independente algum cineasta virá a propor um argumento tipo Código da Vinci, já que deverá ser mais fácil encontrar em Gisors ou Tomar o tesouro dos Templários que descobrir o ciclo iniciático das licenciaturas dessa Universidade. Do da autarca Fátima Felgueiras, desde o turismo brasileiro com vencimento municipal pago, até ao arrastamento de que se vai tomando conhecimento nos media, breve se chegará, sem conclusão nenhuma, às próximas eleições autárquicas para onde a dita se deve estar a preparar para nova candidatura independente. Quanto a Isaltino de Morais a saga iniciou-se tão recentemente que, nas autárquicas de 2013 ou 2017, os veredictos devem ser conhecidos e animar a informação pública e o anedotário político.

 

Só que os maus exemplos geram problemas piores. Já não faltava vir o historiador e comentador político Pacheco Pereira dizer que lá para 2012 ou 13 a teta da vaca lusa secou e não há cheta para ninguém, como ler o que o sociólogo António Barreto escreve sobre as relações dos portugueses – sim, todos nós – com a corrupção, em O Público de 29 de Março. Talvez definitiva e concludentemente se saiba que o culpado tenha sido Afonso Henriques, que até meteu uma cunhazita divina para que o milagre de Ourique lhe desse a fama e o poder para inaugurar este país.

 

Pobre pátria, tão endoidecida, tão de mão estendida, tão de língua bajuladora, tão violenta nos roubos por esticão e, mais recente, com armas de fogo,  tão no consumo de droga, tão lavada ao cérebro nas telenovelas da nossa cultura cívica, tão  fotografada e filmada nos discursos políticos dos políticos que nos calharam, que tudo prometem e nada cumprem, enquanto as trágicas histórias dos bancos de gatunos que nos governaram como políticos, nos roubaram como administradores, continuam à solta nos seus condomínios de luxo, com a bênção dos actuais políticos, talvez estes  a prepararem os lugares futuros de administradores. Os exemplos são tantos, que daria para escrever largas folhas dum dicionário de rapinagem.

 

Repare-se que descemos tanto em democracia, como descemos sem ela. Talvez sejamos um povo que gosta da canga e não da participação. Que prefere um pai da pátria a tratar dos ingentes problemas que discuti-los e procurar resolvê-los. Que não se importa, nem se comporta, só se exporta. A tal ponto que o melhor exemplo da inépcia lusa é a equipa de futebol nacional, de ontem como a de hoje, como a do futuro. São os melhores em tudo, uns craques como nunca houve, uns génios no toque da bola, mas os resultados, vêem-se. Uma baliza no campo de futebol é para os nossos artistas do pontapé nacional, como uma reprovação, no sistema educativo socialista actual, para um adolescente: algo tão virtual., tão improvável e tão longínquo, que, por não acontecer, se ignora.

 

De tal forma a confusão me assola, que a cada dia que passa vou lendo com cada vez maior atenção os signos dos jornais, já não passo por debaixo duma escada, faço figas a cada viragem se esquina, um gato preto que outrora era o meu bicho de estimação obriga-me a uma viagem de circum-navegação para quebrar o feitiço da sua aparição. A leitura é o meu vício – e regresso aos clássicos como uma terapêutica.

 

Daí que deseje que Sócrates, o filósofo grego, claro, nunca se deixe influenciar por Críton e mantenha, através de todos os mundos alternativos, a mesma lucidez cívica, o mesmo sentido do humano, a mesma dignidade da importância do futuro:«De qualquer modo, só vos peço uma coisa: quando os meus filhos forem homens, Atenienses, castigai-os com os mesmos tormentos que vos dei, se vos parecer que preferem a riqueza, ou o que quer que seja, à prática da virtude. E, se eles se convencerem de que têm valor, sem o terem, censurai-os, como eu vos censurei, por não zelarem o essencial, por se atribuírem um mérito que na realidade não possuem. Se assim o fizerdes, sereis justos para mim e com os meus filhos».

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados