SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 15 Agosto 2020, 11:17

Memorabilia

Documentos para a História do Concelho de Torres Novas

Se, através do Gabinete Editorial da Câmara Municipal de Torres Novas, a publicação de múltiplas obras de diversos autores e da revista Nova Augusta, a que se acrescenta o papel divulgador do semanário O Almonda, ao longo dos seus quase 100 anos de existência, a história do concelho de Torres Novas tem merecido uma investigação cada vez mais atenta e cuidada, já o mesmo não acontece no campo das fontes, que não têm merecido, no sector arquivístico, uma recolha e divulgação necessárias para a defesa do património torrejano.

Não se pode dizer que nada tem sido feito, neste último sector, já que se recolheram, num passado não muito distante, alguns espólios de personalidades individuais, de associações e colectividades, da indústria, que importa valorizar.

Mas, à recolha realizada, não correspondeu o estudo sistemático da respectiva documentação, tendo-se optado, quanto a nós erradamente, por unir o arquivo vivo municipal (a documentação que pela lei está sujeita durante um determinado período de tempo à necessidade administrativa de utilização quotidiana), do morto, a que mais propriamente se chamará arquivo histórico municipal. Tal união, a nosso ver, prejudicou ambos, porque colocou sobre a mesma direcção o que deveria estar, não só, separado, como enquadrado administrativa e estruturalmente de forma diversa. Não é possível tratar da mesma forma documentação dos séculos passados, como da que se processa no quotidiano dos diversos departamentos camarários. Se, para esta última é importante a sua recolha, para a histórica a quase inexistência de técnicos e funcionários especializados impede a compreensão da documentação correspondente ao que chamo arquivo histórico, que tem sido catalogada, mas sem que a mesma mereça uma prévia leitura e uma indicação dos temas que trata. Mesmo a documentação de arquivos particulares que se encontram guardados em caixotes – casos de Artur Gonçalves, Dr. José Baracho Junior, Faustino Bretes, apenas como exemplos .

Os estudos sobre o conteúdo dos mesmos arquivos realizados devem-se a investigação externa que, ante as limitações próprias da sua divulgação, tem conduzido ao crescente desinteresse e alheamento sobre o enriquecimento do respectivo arquivo.

Sobre Torres Novas, com qualquer outro concelho, há vários tipos de documentação, independente da sua forma (escrita, visual, artística, publicitária, musical, etc.): a) concelhia -a produzida pelo município; a proveniente do concelho, das suas múltiplas actividades; extra-concelhia, que regra geral, se encontra arquivada, para os períodos mais antigos, na Torre do Tombo, no Arquivo Distrital de Santarém, na Biblioteca Nacional, nos das Universidades e dos diversos Ministérios , como, a partir dos séculos XVIII e seguintes, nos órgãos de informação nacionais e regionais.

Não existe, sobre estes últimos campos de investigação, qualquer informação sistematizada no arquivo histórico local. O que hoje é possível conhecer, resulta do intercâmbio entre autores das investigações particulares feitas nestes diversos arquivos, sem o menor interesse dos executivos camarários para a eles acederem e integrarem nos seus registos.

Daí que se percam espólios, num arquivo já suficientemente depauperado pelo terramoto de 1755, pelas invasões francesas, pelo fogo e inundações, pela incúria das administrações.

Se pouco nos chegou dos arquivos das figuras locais do liberalismo, da 1ª República, da Ditadura (1926-1974), é desconsolador saber que o arquivo dum activo republicano, como António Florentino Namorado, foi depositado no Arquivo de Évora por um seu descendente, o poeta Rui Namorado. Mas este ainda se sabe onde se encontra! Muito pior, é perder arquivos individuais, das famílias com influência social e política nos séculos XIX e XX, como os dos Vasconcelos, Maia Salazar, Puga, Mendes, Azevedos, Pinto Lopes, António Pinto de Almeida, outros, ou colectivos, como da Associação dos Empregados de Comercio, os arquivos das Associações Sindicais, da 1ª República, como os da Associação dos Comerciantes, das Escolas Primárias, das colectividades e associações diversas, ou do cine teatro Virgínia, da imprensa escolar. Um exemplo flagrante do desprezo pela reconstrução histórica é não existência de registos testemunhais sobre a resistência ao fascismo no concelho, 43 anos depois do 25 de Abril, só para falar dum aspecto essencial da política do século XX.[1]

Um papel insubstituível, para os séculos XIX e XX, é o da imprensa concelhia. Sem o estudo de O Almonda, semanário surgido há quase cem anos, dificilmente se conheceria a história concelhia contemporânea. Mas se depois de Abril, no arquivo histórico se encontram, além deste semanário, colecções da imprensa então publicada – A Forja, O Riachense, O Jornal Torrejano -, já o mesmo não acontece para a imprensa concelhia dos finais do século XIX e primeiras décadas do século XX, que se encontra dispersa, mas possível de adquirir, digitalizada, na Biblioteca Nacional ou na da Universidade de Coimbra, a um preço bem mais barato e com maior interesse colectivo do que as despesas mensais com ajudas de custo dos autarcas a tempo inteiro.

Reside neste âmbito o papel dos arquivos históricos. Arquivar e dar a conhecer o que nos trouxe até este momento presente. Se se pode destruir facilmente uma cidade, é quase impossível destruir a sua mentalidade e o seu fluir. Talvez por isso se procure inventar formas de entretenimento que embruteçam, em vez da divulgação dum passado que nos torne mais cônscios do que somos no que fomos

Voltaremos a assunto.


[1] Conhece-se uma tentativa recente, mas não se sabe se com êxito.Quando se trata duma geração que se aproxima do seu tempo de substituição, trágico seria que ficassem ignorados quase cinquenta anos duma face da história concelhia. Seria a continuação dum crime, cometido pela democracia, do consciente e policialmente concretizado pela ditadura.

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