SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 8 Agosto 2020, 06:37

Memorabilia XXXIII-1974 (3)

Se, nos artigos anteriores, sobre o Mundo e Portugal, prevalecia a instabilidade e o conflito, que reflexo encontramos dessa situação no concelho de Torres Novas?

No plano sindical, uma novidade, que o semanário comenta: a reunião distrital do Sindicato dos Metalúrgicos na Virgínia.[1]

Visitas do governo e do Estado – a do Subsecretário da Previdência e Segurança Social, no dia 14 de Janeiro, à Casa do Povo de Torres Novas[2]; a visita d Presidente da República, almirante Américo Tomás, a 16 de Fevereiro, com um programa multifacetado[3], mas com o objectivo de inaugurar o Lar para as Raparigas Dr. Carlos de Azevedo Mendes, da Misericórdia de Torres Novas.[4]

A Câmara Municipal, em consequência do acto, deliberou, a 20/2, conceder a medalha de ouro do Município, a António Medeiros de Almeida, presidente do Conselho de Administração da Fábrica de Fiação e Tecidos de Torres Novas, pelo seu contributo para o desenvolvimento concelhio e apoio às colectividades, nomeadamente à Misericórdia local.[5]

E, na sessão de 27/2/1974, delibera igualmente conceder o mesmo galardão, a duas figuras chaves do poder político concelhio governamental, o Engenheiro Neves Clara, então Presidente da Misericórdia, e o grande proprietário Dr. João Mexia Oliveira e Serpa, visconde de S. Gião, pela sua acção benemérita, quer no campo da educação, quer na da assistência.[6]

Mas a notícia de política concelhia com mais impacto é a da saída de Presidente da Câmara de Torres Novas, de Fernando Martins da Cunha, no fim de Fevereiro, quando atinge o termo do seu mandato, tendo presidido aos destinos da autarquia nos últimos 12 anos. Um grande jantar, a 26, realizado no salão de festas da Empresa Claras, mobiliza mais de 500 convivas, num agradecimento à política de desenvolvimento por ele concretizada.[7] Curiosamente, na sessão municipal de 20 de Fevereiro, o vice-presidente João Tolda Martins, apresenta o seu pedido de demissão.[8] Fica presidente interino o vereador Joaquim Rodrigues Bicho, que preparava a revisão da Toponímia Torrejana.[9]

Não se encontra no semanário qualquer informação sobre as causas últimas das saídas dessas entidades dos cargos administrativos, num momento de crise política, que exigiria unidade solidária aos defensores da política governamental. Fica a interrogação: porque saíram neste altura?

Politicamente, o nacional impõe-se. A 9 de Março, o discurso de Marcelo Caetano sobre a política governamental em relação ao ultramar português ocupa a primeira página[10]. A 23/3, duas notícias que, aparentemente desligadas, se complementam: um comentário da entrevista de Spínola sobre seu livro “Portugal e o Futuro”, e a breve notícia sobre a tentativa de sublevação da coluna militar saída do Regimento de Infantaria das Caldas, que fora derrotada, sem perdas de vida.[11]A 27 de Abril, O Almonda fala do golpe de estado que depôs Marcelo Caetano.[12]

Não deixemos, contudo, de chamar a atenção para a dinâmica sociocultural torrejana destes primeiros meses de 1974, sempre presente de forma activa nas suas colectividades, que se prolonga, depois, mais livre e politizada.

O MIC (Movimento Intercolectividades) leva a efeito a Quinzena da Criança[13]. Também é de realce a acção da secção de teatro experimental do Centro de Juventude, que apresenta, no Teatro Virgínia, a 8 de Março, a peça de teatro Antígona, do dramaturgo grego Sófocles, em tradução de Júlio Dantas, encenada pelo poeta António Lúcio Vieira. Destaque-se deste autor, a publicação do seu primeiro livro de poesia, Envolvimento.[14] A direcção do Virgínia publica o programa da 1ªAmostra de Cinema Internacional, a levar a efeito de 6 a 12 de Maio, naquela sala de espectáculos.[15] Por sua vez, na sede do Choral Phydellius, a 31/3, reúnem-se os dirigentes de três corais, do citado, D. Pedro de Cristo de Coimbra, e da Academia dos Amadores de Música de Lisboa, para programarem II Festival dos Três Coros, a apresentar a 1 de Junho próximo na Virgínia.[16]

Ainda neste período se realizaram dois espectáculos, que merecem referência: um espectáculo de Ópera, pela FNAT, promovido no Virgínia pela casa do Povo de Torres Novas, a 1 de Março.[17] A apresentação, no mesmo local, do Orfeão Académico de Coimbra, promoção dos alunos finalistas da Escola Industrial.[18]

O que vem a seguir ao 25 de Abril pertence a outro ciclo.

Por curiosidade registe-se o último número de O Almonda antes da revolução, o nº 2956, de 20/4, onde nada transparece do que iria acontecer cinco dias depois.


[1] O Almonda nº2939, 5/1/1974.

[2] Idem, Ibid., 5/1/1974

[3] Idem, nº2947,16/2/1974.

[4]Idem, ibid,, de 16/2/1974; reportagem extensíssima, quatro páginas, nº2948,23/2/1974.

[5] Idem, nº 2949, 2/3/1974.

[6] Idem, n2950,9/3/1974.

[7] Idem, nº 2947, 16/2/1974; nº2949,2/3/1974.

[8] Idem, ibid., nº2949, 2/3/1974.

[9] Sempre ficou por esclarecer o que se passaria nos bastidores da política da ANP, presidida no concelho pelo Dr. António Alves Vieira, quem seriam os substitutos que se preparavam para a assumpção do poder concelhio.

[10] Idem, nº 2950,9/3/1974.

[11] Idem, nº 2962, 23/3/1974.

[12] Idem, nº27/4/1974.

[13] Idem, nº2947,16/2/1974

[14] Idem, nº2948,23/2/1974.

[15] Idem, nº2955,13/4/1974.

[16] Idem, nº 2963, 6/4/1974.

[17] Idem, nº2950,9/3/1974.

[18] Idem, nº 2962, 23/3/1974

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