SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 20:11

Memorabiblia XXIX

1972 – 1

No ano em que Portugal assina a primeiro acordo comercial com a CEE, a 22 de Março, Marcelo Caetano, no mês seguinte, em entrevista que O Almonda cita, afirma: «Não esqueçamos nunca este pormenor geográfico: a partir do Atlântico somos os primeiros, mas vistos de Paris, de Berlim ou de Moscovo seremos sempre os últimos do Continente»[1]. Estava dado o mote. A política atlântica era nosso destino, desde o século XV. Para ganhar as jovens gerações para este «destino histórico», foi exaltado o Centenário da publicação de os Lusíadas a nível nacional, como legitimação da política colonial portuguesa. Em Torres Novas tais comemorações são levadas a efeito, sob influência camarária, pela Biblioteca Municipal. O seu director, Dr. Robalo Pombo, organiza uma exposição camoniana, apoiada em muito na biblioteca do bibliómano Dr. Augusto Guimarães Amora[2] e lança, nos estabelecimentos de ensino do concelho, por escalões, os Jogos Florais Lusíadas[3]. É também dentro deste espírito de guia da juventude pelos valores tradicionais, que a Câmara aluga na praça 5 de Outubro, uma casa para o Centro de Juventude, sob a coordenação do seu vice-presidente, o professor João Tolda Martins.[4] Nem deixa de pertencer ao mesmo espírito nacionalista, e de defesa dos valores concelhios, a decisão camarária de colocar uma lápide na sepultura do autor dos Torrejanos Ilustres, Artur Gonçalves[5], nem de no sector religioso, incrementar e apoiar a beatificação do Arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos[6].

A presença do Presidente da República e d 1º Ministro às cerimónias dos 150 anos da Independência do Brasil, inserem-se dentro desse espírito : um país que deu novos mundos ao mundo.[7]

É a esta visão colonial, defendida a ferro e fogo por uma ditadura, encostada a outra, na Ibéria [8], que vai ser contestada, internacionalmente, nos vários areópagos: Conselho Geral da ONU (Janeiro/1972),a 57ª Conferência Internacional do Trabalho , em Genebra(22/Junho),a II Conferência das Comissões Nacionais Justiça e Paz, em Ostenda (Bélgica) (Outubro, 1972), a Assembleia Geral da ONU (3/Novembro), que provou uma resolução , apelando a todos os Estados e agências das Nações Unidas , para auxiliarem os movimentos de libertação dos territórios coloniais portugueses[9]. E nacionalmente, pelos partidos e associações sociais e políticas, umas na clandestinidade, pela sabotagem e destruição de material de guerra[10], ou a destruição em 25 de Setembro, pelas Brigadas Revolucionárias, de instalações da Companhia Rádio Marconi, em Palmela e Sesimbra; outras, na semilegalidade, pelos encontros de cineclubes e suas actividades; manifestações estudantis nas diversas universidades de Lisboa Porto e Coimbra[11]; acções de escritores e artistas, por meio de obras e conferências. A própria igreja, através dos seus bispos, como o da Beira, Moçambique, D.Manuel Vieira Pinto, que nas suas homilias protesta contra a política colonial portuguesa, ao movimento pela paz que, no fim do ano, a 30 de Dezembro, na Capela do Rato, em Lisboa, sob a consigna «A Paz é possível», procuram comemorar O Dia Mundial da Paz. Acção de protesto que leva ao assalto da referida capela pela polícia e à prisão de 70 manifestantes, católicos progressistas e não católicos, entregues à DGS. No concelho, com diverss graus de intervenção e objectivos sociais, sem ignorar a limitação da participação do clero concelhio, os padres Ribeiro, de Riachos, Manuel Tiago de S. Pedro, Amílcar Fialho das Lapas.

Ciente deste antagonismo, Marcelo Caetano, no seu discurso de 28 de Fevereiro, na reunião anual da Acção Nacional Popular, declara sem subterfúgios: «Evidentemente que todos os portugueses que se recusam a participar na obra colectiva, obra nacional, são inimigos confessados de Portugal, inimigos, ipso facto, vendidos a inimigo comum da nossa civilização e da nossa fé cristã»[12]. Palavras que, de certo, lhe deixavam muitas dúvidas, pelo conhecimento que tinha da diplomacia europeia e d mundo.

Os falcões do regime contrariavam e impediam a acção dos liberais, que, por exemplo, na educação, procuravam ,através duma reforma global, levada a efeito pelo engenheiro Veiga Simão, europeizar o país, tentando os primeiros que Portugal não assinasse tratado algum com a CEE, no que foram aí contrariados por Marcelo Caetano. Em 15 de Maio, jornal Economia e Finanças exigira, em editorial, que «o governo passasse a considerar subversiva toda e qualquer propaganda a favor de Portugal na CEE, uma vez que esta pressupunha o abandono do Ultramar[13]».

A eleição indirecta do almirante Américo Tomás, em 25 de Julho, é uma autoconfissão de impotência do regime, que já só se mantém pela violência e pela repressão. Quando o general António de Spínola se encontra secretamente com Leopold Senghor, numa povoação do Senegal, em que este se lhe oferece como mediador para um encontro com Amílcar Cabral e uma solução negociada para o conflito da Guiné, Marcelo, ao receber a informação recusa.[14]Mas o PAIGC é admitido como observador na ONU, em Novembro, após uma visita às zonas libertadas da Guiné por uma missão do Comité Especial das Nações Unidas para a Descolonização, que considera aquele partido com o único representante legítimo do povo guineense. A nomeação, por sua vez, do general Costa Gomes, comandante-chefe das Forças Armadas em Angola, para o cargo de Chefe de Estado- Maior- General das Forças Armadas, é significativa da diversidade de correntes, dentro das Forças Armadas, algumas já defensoras de que a guerra só terminaria por decisão política e não pela luta armada.

Em próximo artigo veremos como, em 1972, Torres Noivas se adapta às mudanças do ano.

antoniomario45@gmail.com


[1] O Almonda nº 2649,1/4/1972.

[2] Id, nº 2637, 8/1/1972.

[3] Id, nº 2642,12/2/1972. Além do regulamento geral, havia regulamentos específicos, para a Escola Industrial de Torres Novas, para o Colégio Diocesano Andrade Corvo e de Santa Maria, para a Escola Preparatória Manuel de Figueiredo, , para as escolas primárias do Concelho.

[4] Id,nº2639,22/1/1972.

[5] Id, nº 2642, 12/2/1972

[6] Id, nºs 2638, 15/1/1972; 2639, 22/1/1972; 2651,15/4/1972;2662,22/4/1972;2663, 29/4/1972..Natural de Pé de Cão, freguesia da Olaia (1876-1955). Vide Bicho, Torrejanos de Vulto, ed. C.M.T.N.,1999.

[7] O primeiro em Abril, segund em Setembro, no encerramento

[8] A Espanha, de Francisco Franco.

[9] Dados extraídos de História Comparada- Portugal, a Europa, o Mundo, II volume, Círculo de Leitores,, dir. António Simões Rodrigues,1996.

[10] A 12 de Janeiro, no cais de Alcântara. Levado a efeito pala ARA, braço armado do PCP.

[11] Em Março reavivou-se o protesto estudantil que se prolonga e reacende com a assassinato, em 12 de Outubro, pela DGS,do estudante José Ribeiro dos Santos, no interior da Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISEF).

[12] O Almonda nº 2648, 25/3/1972.

[13] Hustória Comparada, sic., pg489.

[14] Ud, pg, 489.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2020 © Todos os direitos reservados