SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 10 Agosto 2020, 19:56

Memorabilia XXVII – 1971

A primeira constatação de 1971 é a continuidade politizada da luta estudantil, desde 1869 com maior fulgor na Universidade de Coimbra. Entre 1969 e 1974 foram encerradas pela DGS quase todas as associações de estudantes do país e introduzidos os gorilas nas faculdades. Paralelamente, a abertura da Europa aos grupos nacionalistas de Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique, que levam à saída de Portugal da Unesco,[1]em 28 de Maio de 1971 e à apresentação internacional do Governo do MPLA no exílio.

A oposição à guerra colonial vê surgir grupos marxistas-leninistas, do MRPP às FAP, que vão fazer perder muita da influência que o PCP tinha na Universidade de Lisboa, depois da grande destruição que a sua estrutura estudantil sofrera, no início de 1965, devido à delação do coordenador do sector, o responsável Nuno Álvares Pereira, após a sua prisão em 6 de Dezembro com João Crisóstomo Teixeira.[2]

A tal ponto há uma consciência governamental da mudança política da Universidade Portuguesa em relação ao marcelismo, que este reflecte que as escolas superiores se haviam transformado «em centros de doutrinação revolucionária, infectando gravemente a juventude que havia de formar os quadros da vida económica e social que era chamada a conduzir os soldados nas operações contra-subversivas no Ultramar»[3].

A reforma de Veiga Simão, posta esse ano em discussão pública , não compensava a agitação universitária nas grandes cidades, especialmente Lisboa e Coimbra,mesmo quando em Abril, o Ministro da Educação manda arquivar os processos disciplinares dos estudantes da Universidade de Coimbra.

Invasões da polícia de choque, encerramento de Faculdades, de Associações, prisões tudo vai acontecendo. Não é despicienda a influência europeia e universal do Maio de 68 de Paris. Por muito que o governo o desejasse, não era possível encerrar o país no orgulhosamente sós salazarista, quando desde 1962, uma guerra contínua, de guerrilha, nas colónias portuguesas, levava a maioria duma geração a enfrentar uma realidade, que a censura impedia de ser divulgada pelos meios de comunicação.

O mundo, através das Nações Unidas e dos seus organismos internacionais, votavam contra a nossa política colonial.

Torres Novas, vila no centro do Ribatejo, é o espelho dessa crise. Através das páginas do único jornal existente, o católico O Almonda, vamos seguindo as mudanças que a guerra, a emigração, vão trazendo para o seio da comunidade. A própria igreja se reflecte e assume alguma necessidade de mudança, que as câmaras de Fernando Cunha projectam na sociedade. Torna-se evidente, a partir do censo de 1970, que há uma diminuição da população jovem. Como há um aumento de emigração para a Europa, principalmente dirigida a França. Às Universidades não chegam muitos dos alunos, mas chegam alguns, que frequentaram o Colégio Andrade Corvo e o Diocesano, quando o episcopado adquiriu o colégio e o colocou , como já vimos noutros textos já publicados, na Quinta de Santo António. Muitos alunos, por diversas razões, andaram nos Pupilos ou ingressaram na Academia Militar

Não admira que, em 1969, torrejanos há que participaram directa na crise estudantil de Coimbra.

Participantes na vida política estudantil, na época em causa, além destes, podemos referir, os hoje médicos João Camilo, o cardiologista Joaquim António Faria Moita, de Alcorochel, além do hoje gastrenterologista Vaz Teixeira[4], que se fixou já depois do 25 de Abril em Torres Novas. Este último, como o João Bento Pena dos Reis[5], foram presos pela polícia política. Da mesma forma, um outro torrejano, em 1970, o poeta José Alberto Marques, foi preso em Abrantes[6]. Presos ainda em 1971, os torrejanos e militantes comunistas António dos Santos Graça[7]e Francisco Canais Rocha[8]

Não é de estranhar que na Lei nº 37/1, da 9ª Revisão da Constituição da República Portuguesa, todas as propostas de alteração da ala liberal foram derrotadas, ao contrário do que se previa em Abril.[9] A ala conservadora do regime não permite as mudanças prometidas em 1968.

Mas, há, lcalmente homenagens a figuras de esquerda, com a do poeta José Lopes dos Santos, por uma vida dedicada ao concelho[10].

Também no campo de teatro, inicia-se o ciclo da sua renovação local, por intermédio de António Lúcio Vieira, com o grupo cénico do teatro amador da empresa Claras.[11]

Encontra-se também actuante o grupo cénico da casa do Povo de Riachos, que apresenta a peça A Forja, de Alves Redol.[12] O cineclube de Torres Novas apresenta a 19 de Julho, uma exposição sobre a vida e a obra desse escritor.[13]

No campo do ensino, surge nas páginas do semanário, Primeiro Passo, órgão literário-infantil da Escola Preparatória Manuel de Figueiredo, realizado com textos de alunos, mas revelador de grandes preocupações sociais, fruto dum grupo de professores, donde partiram, mais tarde, os grupos pró-sindicato dos professores. .[14] Em Julho, o Phydellius contrata um novo maestro, José Robert , que irá, daí em diante, conduzi-lo a um novo grau qualitativo. A relação Robert – Lopes Graça vai ter influência decisiva na estrutura do coro torrejano.

A 10 de Julho, O Almonda anuncia que as eleições presidenciais continuarão a ser por sistema indirecto, processo seguido desde o terramoto Delgado. A 17, a nova (velha) constituição, onde nada de especial muda, o que conduz a cada vez o maior isolamento do regime.

Na PSP, uma alteração na direcção , sendo substituído Aurélio Baptista de Jesus, transferido para Aveiro, por Joaquim Barreiros Vieira, de Santarém.

No sector religioso, foi assinalado pelo jornal a festa de despedida a 29 do patriarcado de Lisboa do Cardeal D.Gonçalves Cerejeira, celebrando-se missa no Pavilhão dos Desportos, com o seu sucessor, D. António Ribeiro.[15]

No próximo artigo falaremos mais dos acontecimentos locais que se verificam no segundo semestre de 1971.


[1] O Almonda,2506, 5/6/1971.

[2] Vítimas de Salazar, Estado Novo e Violência Política, coordenador João Madeira, Irene Flunster Pimentel/Luís Farinha,, Os Estudantes na Mira do Estado Novo,312/328. A PIDE ficara a conhecer toda a estrutura estudantil do PCP de Lisboa, células comités, cargas e posições, que atingiriam mais de 400 pessoas

[3] Vítimas de Salazar, pg 323.

[4] Então interno do 1º ano do Hospital Escolar. Preso em 20 de Março Presos Políticos,1970/71, CNSPP, p.122. Julgamento para 28710771, no 2º juízo Criminal do Port.p.161.

[5] Era ,na altura da prisão, aluno do 3º ano de Direito, secretario da Associação Académica de Coimbra. Preso a 12/2/1871 e enviado para Caxias. Idem,pg 120.Julgamento em28/10/71,1ºJuizo Criminal do Porto. Idem, pg.161..Sóteve início em 13/1/1972. Sendo libertado pelo acórdão de 25/2/1972. Idem, fls 210.

[6] Preso em 19/4/1971. Libertado a 24/4/1971, idem, fls 133.135.

[7] ´Preso desde 31/1/1964. Idem, quadros

[8] Última prisão, 20/8/1968,julgamento em 22/3/1969. Idem, quadros.

[9] O Almonda nº2498, 10/4/1971.

[10] Idem, nº2500, 24/4/1971

[11] Idem, 2501, 1/5/1971.

[12] Idem, 2506, 5/6/1971.

[13] Idem,2512, 17///1871.

[14] Idem, 2498,10/4/1971, 2506,5/6/1871.

[15] Idem, 2508, 19/6/1971.

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